História da China
A civilização chinesa tem uma longa história, cuja principal
característica foi, até o século XIX, a imutabilidade de determinados
elementos como o cultivo de cereais, a escrita, a importância da
família ou o culto aos antepassados. Assim como outros povos da
antiguidade, os chineses pensavam que a melhor forma de viver não
consistia em modernizar-se, mas em repetir arquétipos do passado.
Pré-história
Sítios paleontológicos de Zhou Koudian (Chou Kou-tien), próximo de
Pequim, demonstram a presença de hominídeos primitivos, os chamados
sinantropos, há mais de 200.000 anos.
São pouco documentadas as origens da civilização chinesa. Na Mongólia e
na Manchúria desenvolveu-se uma cultura mesolítica de caçadores e
agricultores no período pós-glacial. Em Linxia e Chifeng apareceram as
primeiras colônias agrícolas sedentárias. No início do quarto milênio
antes da era cristã, surgiu na fértil região do vale do Amarelo a
civilização neolítica de Yangzhou, caracterizada pela pintura em
cerâmica, pelo aperfeiçoamento das técnicas agrícolas (cultivo de
cereais) e pela domesticação de animais.
Primeiras dinastias:
No começo do segundo milênio antes da era cristã, a China entrou na
idade do bronze. A descoberta desse metal teve conseqüências
importantíssimas. Formou-se uma vasta civilização caracterizada pela
divisão da sociedade entre os nobres, habitantes das cidades-palácios,
e os camponeses. A nobreza reconhecia a autoridade de um soberano,
embora o poder deste, na prática, se limitasse ao campo religioso.
Assim surgiu a primeira dinastia conhecida, denominada Shang (séculos
XVIII-XII a.C.), da qual se tem notícia pelas inscrições encontradas
nas escavações de Anyang. Essa dinastia, enfraquecida pela pressão dos
povos vizinhos, foi substituída entre os séculos XII e III a.C. pela
dinastia Zhou (Chou), que transferiu a capital para Luoyang, na região
de Henan (Honan).
Desde o século VIII a.C., a vasta civilização chinesa já ocupava o
curso médio do rio Amarelo. Esse amplo território era de dificílimo
controle. A unidade cultural do início viu-se ameaçada pelas tendências
desagregadoras dos principados periféricos e pela pressão dos povos
bárbaros vizinhos, sobretudo os do norte, os mongóis, pois os do sul
foram vencidos e assimilados. Graças à descoberta do ferro foi possível
conter as hordas que ameaçavam as fronteiras.
As guerras desse período vieram acompanhadas de grande florescimento
cultural. Foi nessa época que surgiram as duas principais correntes
filosóficas da China: o confucionismo, que ressaltava os princípios
morais, e o taoísmo, criado por Laozi (Lao-tzu ou Lao-tsé), que
defendia uma vida em harmonia com a natureza. Outra escola importante
foi a de Mêncio (em chinês Mengzi, Mengtse ou Meng Ko), que destacava a
importância da educação como meio para aperfeiçoar a natureza humana.
Primeira unificação chinesa: dinastias Qin e Han. Os últimos reis Zhou
viveram retirados em Luoyang. Entre os anos 230 e 221 a.C., o estado de
Qin (ou Ch'in) destronou a dinastia Zhou e se impôs aos príncipes
locais. Embora de curta duração (221-206 a.C.), a dinastia Qin foi de
vital importância para a China, pois lançou as bases de um império que
haveria de se manter durante mais de dois milênios.
O império consistia em um território unificado sob controle religioso e
político de um soberano. Mas a dispendiosa política defensiva e
centralizadora dos Qin (construção da Grande Muralha, estradas)
provocou uma sublevação generalizada da qual saiu vencedor o
proprietário de terras Liu Pang, que impôs sua autoridade e fundou a
dinastia Han (206 a.C.-220 da era cristã). A política dessa dinastia se
voltou para o fortalecimento do poder real, o que tornava
imprescindível enfraquecer os príncipes feudais. O governo central
apoiava-se em um funcionalismo fiel; este provinha de um corpo de
letrados recrutados mediante concurso.
A dinastia Han coincidiu com um período de expansão comercial e
agrícola que se manifestou pela rotação de culturas, pela realização de
numerosas obras hidráulicas, pela formação de uma classe mercantil e
pela substituição da antiga aristocracia por um grupo de proprietários
de terras mais dinâmicos. Os Han também adotaram uma política
expansionista que resultou na conquista do norte da Coréia, da região
de Mu Us e da zona meridional até Cantão. No campo ideológico, essa
dinastia fez do confucionismo a doutrina oficial do estado; as idéias
de Confúcio, ensinadas nas escolas, eram matéria exigida nos concursos
ao funcionalismo.
No fim do século II da era cristã, as sublevações populares, de
inspiração taoísta, e os ataques dos nômades instalados nas fronteiras
norte-ocidentais obrigaram o imperador a entregar o poder a militares e
proprietários de terras nas regiões vizinhas.
Fragmentação do império chinês:
A época compreendida entre os anos 220 e 589 é conhecida como a dos
três reinos e das seis dinastias. Nesse período, a China sofreu
divisões internas e o ataque de diversos povos nômades (tibetanos,
turcos e mongóis). Alguns desses povos estabeleceram-se no vale do
Amarelo, o que provocou uma intensa emigração para o curso inferior do
Yangzi, onde se produziu uma fecunda fusão cultural. O delta desse rio
tornou-se uma próspera região agrícola, baseada nas culturas de arroz e
chá. No âmbito religioso, difundiram-se o budismo e o taoísmo.
Segunda unificação: dinastias Sui e Tang. Em 581, Yang Jian,
alto funcionário do reino Zhou do norte, conseguiu submeter à sua
autoridade a região do sul, depois da conquista de Nanquim (Nanjing).
Assim, a nova dinastia, denominada Sui, reunificou o país depois de
três séculos de fragmentação política, econômica, cultural e
lingüística. Durante esse período, construiu-se o grande canal que uniu
o Yangzi ao Amarelo.
Os reveses nas guerras contra coreanos e turcos precipitaram a queda da
dinastia. Li Yuan, comandante dos exércitos do norte, aproveitou o
desencadeamento de uma revolta na região oriental para assassinar o
imperador e tomar o poder. A nova dinastia, a Tang (618-907), continuou
a obra reunificadora iniciada pelos Sui. Os Tang reorganizaram a
administração, derrotaram turcos e coreanos e conquistaram o Tibet.
Durante essa época, a China conheceu grande desenvolvimento artístico
(poesia e pintura) e científico (cartografia e matemática) e entrou em
contato com outras civilizações, como a japonesa, a coreana, a indiana
e a árabe. O período de florescimento cultural e de expansão
territorial da dinastia Tang terminou com a derrota chinesa frente aos
árabes em 751, na fronteira norte-ocidental. A partir desse momento,
começou uma fase de decadência e esta resultou em nova fragmentação que
sobreveio à queda dos Tang, em 907. O período das cinco dinastias e dos
dez estados, entre 907 e 960, caracterizou-se pelo caos político,
embora tenha havido um importante desenvolvimento científico que se
plasmou na invenção da imprensa.
Nova divisão: a dinastia Song e a invasão mongol. A partir de
960, a dinastia Song (Sung) reorganizou o país impondo reformas
tributárias que aliviaram a situação econômica dos camponeses e
favoreceram o comércio. Nessa época houve grande desenvolvimento
cultural, com a difusão de textos impressos e a renovação das doutrinas
confucionistas. Contudo, a nova dinastia perdeu o controle do nordeste
do império. No século XI, a China ficou dividida em duas zonas: a
metade meridional, ocupada pelos Song; e a metade setentrional, em
poder do reino mongol de Kitan. No século seguinte, os Ruzhen (Juchen)
estabeleceram o reino Jin (Chin) na China setentrional, onde se
mantiveram até a chegada dos mongóis.
Em 1206, Gengis Khan consolidou seu poder sobre as tribos mongóis das
estepes do lago Baikal. Cinco anos depois, invadiu a China. Com a
derrota definitiva dos Jin em 1234, os mongóis continuaram seu avanço
para o sul em 1250. A parte meridional do país, controlada pela
dinastia Song, resistiu com denodo, mas finalmente, em 1279, todo o
território chinês ficou sob a autoridade de uma dinastia estrangeira, a
dos Yuan (Yüan). O neto de Gengis Khan, Kublai-Khan (ou Kubilay-Khan),
transferiu a capital para Khanbaliq (a futura Pequim). Durante essa
época o comércio foi favorecido pelo controle da zona ocidental, que
abriu as rotas para a Ásia central e a Europa. A abertura dessas rotas
permitiu a chegada das idéias européias por meio de viajantes como
Marco Polo e Giovanni da Montecorvino.
Dinastia Ming:
Não durou muito o imenso império mongol, assimilado à sociedade e à
cultura chinesas. Em meados do século XIV, uma revolta camponesa
transformou-se em guerra de libertação contra os mongóis, cujo último
imperador foi derrubado em 1368, quando o monge budista Zhu Yuanzhang
(Hongwu) fundou a dinastia Ming. Durante esse período aumentou a
atividade marítima. As embarcações chinesas chegavam à Arábia e até
mesmo à África oriental. Floresceram as belas-artes (arquitetura,
cerâmica) e multiplicaram-se os contatos com o exterior. No fim do
século XVI os portugueses instalaram-se em Macau e vieram muitas
missões jesuíticas. A partir do fim desse século, os ataques de piratas
japoneses geraram grande instabilidade, que foi aproveitada pelos
manchus, descendentes dos Juchen da Manchúria, que conquistaram todo o
império em 1644.
Dinastia manchu dos Qing:
Até o fim do século XVIII, a China experimentou grande florescimento
sob a nova dinastia Qing (Tsing) manchu. O império logrou sua máxima
expansão territorial: pacificou-se o Tibet e os mongóis foram
derrotados; o Annam (o futuro Vietnam), Myanmar e o Nepal reconheceram
as fronteiras meridionais da China; e Formosa foi conquistada em 1680.
A introdução de novas culturas, como a do milho e do tabaco, favoreceu
o desenvolvimento agrícola, e o comércio expandiu-se com o
estabelecimento de colônias européias (portuguesas, holandesas e
britânicas). Além disso, a população cresceu muito: passou de 150
milhões de habitantes em 1600 para 400 milhões no começo do século XIX.
Com o fim do século XVIII, porém, a China entrou em um período de crise
econômica, política e social. Dessa vez, a ameaça para a dinastia
manchu e para a China tradicional viria da Europa, que pretendia
aumentar sua penetração comercial nesse país, contra a vontade dos
imperadores. A instabilidade política interna, fruto da crise
econômica, serviu de brecha aos europeus para forçarem a abertura dos
portos chineses ao comércio.
Em 1839, os ingleses aproveitaram a destruição de um carregamento de
ópio (mercadoria que introduziam na China a partir da Índia) para
declarar guerra à dinastia manchu. A chamada guerra do ópio terminou
com a derrota chinesa. Os ingleses forçaram o Tratado de Nanquim
(1842), pelo qual os chineses se comprometiam a abrir ao comércio
britânico cinco portos, entre os quais os dois mais importantes do
país, Xangai e Cantão, e além disso cediam o de Hong Kong.
Nos anos seguintes, prosseguiu a instabilidade interna. Em meados da
década de 1850, sucederam-se os levantes muçulmanos das regiões de
Xinjiang e Yunnan; e, em 1853, o movimento Taiping, de cunho religioso
e milenarista, conquistou Nanjing e tentou expandir seu poder pelo
norte da China. Uma intervenção militar franco-britânica obrigou o
governo chinês a fazer novas concessões. Pelo Tratado de Pequim,
firmado em 1860, abriram-se 11 outros portos no país e ofereceram-se
mais vantagens aos estrangeiros. A China, agora aberta ao comércio,
tornou-se presa dos interesses europeus. O império cedeu aos franceses
o território vassalo do Vietnam e aos japoneses a ilha de Formosa e a
península da Coréia.
Em reação à política imperialista praticada pelas potências ocidentais
e pelo Japão, os círculos nobiliárquicos próximos da imperatriz Cixi
(Tzu-hsi, Tse-hi) fomentaram motins xenófobos que chegaram ao auge em
1900, quando os boxers (membros de uma sociedade secreta contrária à
penetração ocidental), sitiaram as legações européias em Pequim.
Sobreveio a intervenção conjunta de forças americanas, alemãs,
inglesas, francesas, russas e japonesas, que libertaram as legações e
obrigaram a imperatriz a acatar condições de comércio favoráveis aos
estrangeiros.
A região da Manchúria, objeto de disputa entre a Rússia e o Japão, caiu
finalmente em poder dos japoneses depois da guerra de 1904-1905 entre
esses dois países. As concessões feitas pelo governo chinês aos
japoneses, junto com a eliminação dos boxers, abalaram a já agonizante
autoridade da dinastia Qing.
Revolução de 1911 e república:
A partir do início do século, a dinastia manchu realizou uma tímida
abertura que não agradou a nenhum setor da sociedade. Em 1911, a
oposição dirigida por Sun Yixian (Sun Yat-sen), fundador do partido
nacionalista conhecido como Guomindang (Kuomintang), tomou o poder com
o apoio dos estudantes e dos trabalhadores urbanos.
Em outubro de 1911, explodiu o movimento revolucionário. Em fevereiro
do ano seguinte abdicou o último imperador manchu, Xuantong
(Hsuang-tung). Sun Yixian, primeiro presidente da república chinesa,
renunciou nesse mesmo mês em favor do general Yuan Shikai, figura mais
aceitável para o Ocidente. A constituição democrática de 1913 não
chegou a entrar em vigor, porque Yuan tornara-se um ditador. Sua morte,
em 1916, inaugurou um período de guerras civis, situação que os
japoneses aproveitaram para apoderar-se das possessões alemãs na China
(Shandong e Qingdao).
Em 1923, Sun Yixian obteve o apoio soviético em troca do compromisso de
aliar-se ao recém-fundado Partido Comunista Chinês de Mao Zedong (Mao
Tsé-tung) e Chen Duxiu. Sun conquistou Cantão e deu início a
importantes reformas políticas e sociais. Morreu em 1925 e teve por
sucessor o general Chiang Kai-shek (Jiang Jieshi em pinyin), que tomou
o poder em um golpe de estado e rompeu com os comunistas. Entre 1926 e
1927, Chiang derrotou os generais, que se haviam tornado senhores
regionais, e unificou o país. Em seguida iniciou a perseguição aos
comunistas, provocando a segunda guerra civil (1927-1936). Os
comunistas foram dizimados entre 1927 e 1930, depois de uma série de
insurreições fracassadas. Em 1931, porém, Mao e Lin Biao (Lin Piao) se
apoderaram do sul de Jiangxi, onde fundaram uma república do tipo
soviético. Os ataques dos nacionalistas forçaram Mao a retirar suas
tropas. Estas, entre outubro de 1934 e outubro de 1935, percorreram dez
mil quilômetros rumo ao interior do país (a longa marcha), atingindo as
áridas terras de Xanan, na região de Shaanxi.
Enquanto isso, em 1931, os japoneses aproveitaram a guerra civil para
forçar Chiang Kai-shek a entregar-lhes a Manchúria (1931), Xangai
(1932) e o território de Jehol, no norte (1933). Ante a política de
concessões de Chiang, que ameaçava transformar a China em um
protetorado japonês, multiplicaram-se os protestos, o que obrigou o
governo nacionalista a enfrentar os invasores. Em 1936, os japoneses
tomaram Pequim e outras grandes cidades. Um ano depois, Chiang pediu a
colaboração dos comunistas para expulsar os japoneses. A guerra, que só
foi declarada em 1941, começou com um rápido avanço japonês para a
Indochina. O desenvolvimento da segunda guerra mundial enfraqueceu as
posições japonesas na China. As tropas comunistas desse país ampliaram
seu domínio sobre o norte e o leste, enquanto Chiang Kai-shek tinha de
enfrentar graves problemas políticos e econômicos na zona sob seu
controle.
Em 1945, com a capitulação japonesa, reacendeu-se a guerra civil.
Chiang Kai-shek contava com um exército mais bem aparelhado e com apoio
americano. Mao, porém, gozava de maior prestígio e do apoio soviético.
Em 1947, beneficiando-se da excessiva dispersão das tropas
nacionalistas, o exército comunista lançou-se à ofensiva e conquistou
todo o norte da China. Ao mesmo tempo, a negativa do governo
nacionalista de promover reformas e acabar com a corrupção atraiu para
Mao o apoio de grande parte da burguesia e dos intelectuais da zona
controlada por Chiang Kai-shek. Depois de uma série de campanhas
vitoriosas, em 1949 o exército comunista tomou Nanquim e Xangai e, em
outubro do mesmo ano, Mao proclamou a República Popular da China. No
início de 1950, estava conquistado todo o país, à exceção da ilha de
Formosa (Taiwan), onde Chiang Kai-shek constituiu um governo
nacionalista que, até a década de 1970, foi reconhecido como legítimo
representante do povo chinês pelas potências ocidentais.
República popular
Durante os três primeiros anos do novo regime, presidido por Mao e com
Zhou Enlai como primeiro-ministro, a China entrou numa fase de
transformação econômica. Manteve-se o setor privado na indústria e, ao
mesmo tempo, decretou-se uma reforma agrária.
Por outro lado, o novo estado socialista alinhou sua política externa
com a da União Soviética e a dos países europeus do bloco soviético. Na
Ásia, invadiu o Tibet em 1950 e logo enfrentou disputas com outros
países vizinhos, como a Índia e o Paquistão. Em 1950, os chineses
intervieram na guerra da Coréia apoiando o governo comunista do norte
contra o do sul, respaldado pelas Nações Unidas.
Em 1952, a reforma agrária acabara com o sistema latifundiário e a
economia se estabilizara. O governo nacionalizou as instituições
financeiras e comerciais e, em 1953, pôs em marcha o primeiro plano
qüinqüenal, inspirado no modelo soviético. O objetivo era acelerar o
processo de industrialização e incrementar a produção, formando
cooperativas agrícolas e industriais.
Em 1954 foi aprovada a primeira constituição do novo regime, que
definia a China como um estado socialista, estruturado segundo os
princípios do centralismo democrático. Em maio de 1956, iniciou-se a
"campanha das cem flores", que pretendia estimular a crítica dos erros
do regime à luz dos postulados do marxismo-leninismo. Isso serviu para
catalisar a insatisfação de alguns setores, o que obrigou a direção do
partido a lançar uma nova campanha ideológica de cunho antidireitista.
Em 1958, os resultados favoráveis do primeiro plano qüinqüenal
estimularam os governantes a iniciar um ambicioso segundo plano, que
ficou conhecido como "o grande salto para a frente". Esse plano, que
pretendia acelerar a implantação da sociedade comunista, abandonou o
modelo soviético de progresso gradual e procurou alcançar seus
objetivos mobilizando as massas. Os cidadãos eram enquadrados em
comunas populares, em que a vida se tornava coletivizada em todos os
seus aspectos. O resultado foi um fracasso contundente. Paralelamente,
surgiram graves problemas internos e externos. Em 1959 houve uma
sublevação no Tibet e, um ano depois, a China rompeu relações com a
União Soviética. A ruptura teve dupla origem: a luta pela hegemonia na
direção do movimento comunista internacional e as disputas territoriais
ao longo da fronteira comum.
Também o partido estava dividido em duas facções: a primeira, que
defendia a pureza ideológica do comunismo chinês, era representada por
Mao e Lin Biao e apoiada pelo exército; a segunda, favorável a uma
postura tecnocrática, tinha como líderes Liu Shaoqi (Liu Shao-chi,
presidente do estado desde 1959, após a renúncia de Mao) e Deng
Xiaoping (Teng Hsiao-ping) e contava com o apoio dos sindicatos. O
triunfo do setor ideológico mais radical materializou-se em 1966 com a
campanha "anti-revisionista", denominada revolução cultural, que serviu
para depurar o partido e afastar do poder os elementos moderados (Deng
e Liu) e estimular o espírito revolucionário do povo. A revolução
cultural paralisou o progresso material e tecnológico do país. Mesmo
assim, a China detonou em 1967 sua primeira bomba de hidrogênio e em
1970 pôs em órbita seu primeiro satélite artificial.
A direção política e militar do país parecia consolidada e unificada em
1970. Todavia, em 1971 Lin Biao, vice-presidente do Partido Comunista e
provável sucessor de Mao, opôs-se à política de abertura aos Estados
Unidos preconizada por Zhou Enlai. Poucos meses depois, acusado de
organizar uma conspiração, morreu na queda do avião em que fugia para a
União Soviética. Seu cargo passou para Zhou, que reabilitou algumas
figuras políticas pragmáticas, como Deng Xiaoping.
Na década de 1970, a política internacional da China se orientou no
sentido da distensão e da moderação. Essa nova postura criou condições
para o ingresso do país nas Nações Unidas (outubro de 1971) e para a
normalização das relações diplomáticas com muitos países capitalistas.
Além disso, favoreceu a aproximação com os Estados Unidos, confirmada
com a visita do presidente Nixon à China em 1972.
Em 1975 promulgou-se uma nova constituição, inspirada nos princípios da
revolução cultural. Nesse mesmo ano começou uma nova campanha
anti-revisionista, que culminou em abril de 1976 com a destituição de
Deng Xiaoping, cujo protetor político, Zhou Enlai, tinha morrido em
janeiro. O cargo de Zhou - primeiro-ministro, na prática o segundo
posto em importância no país - foi ocupado por Hua Guofeng (Hua
Kuo-feng).
Em 9 de setembro de 1976 morreu Mao Zedong, "o grande timoneiro". Um
mês depois, Hua, o novo homem forte do país, encarcerou os elementos
mais esquerdistas do regime, o chamado "bando dos quatro" ou "camarilha
dos quatro", entre os quais estava Jiang Qing (Chiang Ching), a última
esposa de Mao. Hua abandonou as críticas ao revisionismo e reabilitou
Deng Xiaoping. A China entrava em uma era mais pragmática.
Pós-maoísmo
A quinta Assembléia Popular Nacional, realizada em 1978, promulgou uma
nova constituição e confirmou a revisão da doutrina maoísta. Na esfera
econômica, o primado cabia à eficiência, e no campo político,
consolidava-se a tendência à distensão com os países ocidentais e ao
confronto com a União Soviética. No mesmo ano, Hua foi confirmado
presidente do partido.
A modernização e a liberalização iniciadas após a morte de Mao
fortaleceram-se, enquanto Hua Guofeng perdia prestígio. Em 1980, ele
cedeu o cargo de primeiro-ministro a Zhao Ziyang (Chao Tzu-yang),
íntimo colaborador de Deng Xiaoping, e no ano seguinte teve de
renunciar à presidência do partido em favor de Hu Yaobang, outro
protegido de Deng. Transformado em homem forte do regime, embora se
mantivesse no cargo secundário de vice-presidente do partido, Deng
promoveu a promulgação de uma nova constituição em 1982 e acelerou o
processo de liberalização. O cargo de presidente do partido, criado por
Mao, foi abolido e Hu Yaobang tornou-se secretário-geral.
A abertura traduziu-se em acordos destinados a acabar com os enclaves
coloniais que ainda existiam em território chinês. Um convênio assinado
em 1985 com o Reino Unido devolveria Hong Kong à jurisdição chinesa em
1997, embora Pequim se comprometesse a respeitar até o ano de 2047 o
sistema capitalista desse enclave. Em 1987, firmou-se com Portugal
acordo semelhante, devolvendo Macau à administração chinesa.
Contudo, o processo modernizador chinês logo enfrentou dificuldades. Os
jovens passaram a reivindicar mais democracia. Atacado pelos
tradicionalistas, Hu Yaobang renunciou em 1987 à secretaria-geral do
partido e foi substituído por Zhao Ziyang. Li Peng, defensor da linha
dura, tornou-se primeiro-ministro.
Em 1989, milhares de jovens ocuparam a praça da Paz Celestial
(Tiananmen), em Pequim, exigindo mais democracia. Após um momento de
indecisão, as forças armadas atacaram os manifestantes, causando
centenas de vítimas. Zhao Ziyang, acusado de simpatizar com o movimento
em favor da democracia, foi substituído por Jiang Zemin. Li Peng
manteve-se no cargo de primeiro-ministro.

Instituições políticas
Sistema político
A forma de governo da China ficou definida na constituição de 1954. As
constituições posteriores (1975, 1978, 1982) só modificaram aspectos
secundários, sem alterar a natureza do sistema político. Segundo a
constituição, a China é um estado socialista. O poder legislativo cabe
à Assembléia Popular Nacional, cujos membros são eleitos por sufrágio
universal de cinco em cinco anos. A Assembléia se reúne uma vez por
ano; seu presidente exerceu as funções de chefe de estado de 1976 a
1982, período em que vagou o cargo de presidente da república, que é
meramente cerimonial. O poder executivo cabe ao Conselho de Assuntos do
Estado, composto por um gabinete ministerial presidido por um
primeiro-ministro.
Boa parte do poder político concentra-se nas mãos do Partido Comunista;
a constituição confere-lhe papel central na direção do povo chinês.
Formalmente, a liderança do partido cabe ao comitê central, cujos
membros elegem o Politburo, órgão máximo do poder. Em 1982, aboliu-se o
cargo de presidente do partido, substituído pelo de secretário-geral.
Na prática, o poder efetivo esteve ora em mãos do presidente ou do
secretário-geral do partido, como em alguns períodos do regime de Mao,
ora em mãos do primeiro-ministro, conforme ocorreu com Zhou Enlai
durante alguns anos. Foi exercido até mesmo pelo ocupante de um cargo
secundário do partido, caso de Deng Xiaoping.
Administração territorial. Na organização territorial do estado chinês
coexistem três níveis administrativos: as 21 províncias, as cinco
regiões autônomas (a Mongólia Interior, o Tibet, Xinjiang, Ningxia e
Qinghai) e as três municipalidades (Pequim, Xangai e Tianjin).
Apesar de suas dimensões e da diversidade de povos que a habitam, a
China não é um país federativo, mas um "estado multinacional unitário",
expressão que, sob uma suposta liberdade de ação local, encobre um
férreo centralismo administrativo, característico da milenar tradição
imperial.
As províncias e as regiões autônomas se subdividem em prefeituras,
distritos e municípios. Em todos esses níveis existem assembléias
populares que elegem os órgãos locais ou de base, cujos membros, por
sua vez, escolhem os componentes das instituições de nível superior, e
assim por diante. Cada assembléia nomeia um comitê permanente que a
representa nos intervalos entre as sessões e assume a administração de
sua circunscrição.
Sociedade:
O nível de vida dos chineses é baixo: no fim da década de 1980, sua
renda per capita não chegava a 500 dólares anuais. Mas as condições de
vida na China melhoraram muito a partir da revolução de 1949 (fim da
fome generalizada, progressos na saúde e no ensino), apesar das
limitações econômicas que uma população de mais de um bilhão de
habitantes traz para uma sociedade baseada na agricultura.
Educação:
Com a instauração do comunismo, o sistema educativo chinês sofreu
diferentes mudanças, determinadas pelas alterações políticas. Apesar
disso, mantiveram-se duas constantes: a tentativa de minimizar a
separação entre trabalho manual e intelectual e a ideologização do
ensino. A partir de 1977, o radicalismo da revolução cultural foi
substituído por modelos educativos mais tradicionais; paralelamente
ganharam estímulo a seletividade e a especialização nos níveis
superiores de ensino.
A alfabetização, ainda incompleta, acelerou-se, graças à adoção do
dialeto pequinês como língua unificadora e à simplificação da escrita
ideográfica tradicional. O ensino está organizado em ciclos de quatro a
cinco anos, exceto o pré-escolar, que vai dos três aos seis anos de
idade. O ensino superior é ministrado em instituições universitárias e
técnicas. Dá-se também grande importância à formação profissional,
ministrada em centros cujos alunos trabalham durante uma parte do dia.
Religião:
Embora a constituição chinesa garanta a liberdade religiosa, a política
do governo não incentiva a prática dos diferentes cultos. O
confucionismo e o budismo são as religiões mais difundidas. Esses
cultos às vezes se superpõem, pois o confucionismo é uma doutrina moral
e filosófica, sem liturgia nem clero, cuja intenção é impregnar a vida
de um conteúdo ético. A partir de 1978, coincidindo com o abandono
oficial dos princípios ideológicos do maoísmo, interpretação particular
do marxismo-leninismo, o governo estimulou a revitalização do
confucionismo, doutrina de caráter conservador na esfera política.
O taoísmo, originalmente limitado a um sistema filosófico, tornou-se
uma religião autóctone com ritual estabelecido. O islamismo,
introduzido na China em meados do século VII, acha-se difundido entre
as comunidades turcas do Uigur e Hui. A influência do lamaísmo
limita-se ao Tibet. A evangelização cristã da China começou muito cedo;
religiosos nestorianos foram para lá no século VII, e no fim do século
XIII o franciscano Montecorvino tornou-se arcebispo de Pequim. Em fins
do século XVI, a evangelização foi contínua, embora seu avanço mais
importante tenha vindo com a penetração ocidental do século XIX. O
governo da China popular combateu o cristianismo por considerar essa
religião uma influência estrangeira negativa.
Cultura:
Isolada quase totalmente durante milênios, a civilização chinesa
caracteriza-se pela originalidade e pela permanência de suas formas
culturais. Sua ascendência sobre outras culturas asiáticas, sobretudo a
japonesa, foi transcendental.
Pensamento:
A China é um país com antiga e rica tradição no campo do pensamento. A
filosofia teve duas vertentes que se desenvolveram com variações ao
longo de toda a história: a idéia de mutabilidade e de permanência da
natureza, que se explica a partir da doutrina dos princípios do yin e
do yang, ao mesmo tempo opostos e complementares, e o fundamento ético
do homem. Tais idéias se manifestaram nas três escolas mais importantes
da China, que floresceram entre os séculos V e III a.C.: o
confucionismo, o taoísmo e o legalismo. Essas doutrinas, com variantes,
predominaram no país até o fim do século XIX, quando a penetração
estrangeira introduziu as correntes do pensamento ocidental.
Depois da revolução de 1949, a filosofia dominante foi o chamado
maoísmo, uma vertente do marxismo-leninismo desenvolvida por Mao
Zedong, à luz da qual se interpretava a história chinesa como uma
síntese entre as concepções tradicionais e os princípios fundamentais
do marxismo. Depois da morte de Mao, não se repudiou o maoísmo na
teoria, embora, na prática, se tenham abandonado muitos de seus
princípios.