Conquistar um emprego estável para o resto da vida e se resolver financeiramente é um objetivo que cada vez mais brasileiros procuram realizar tentando conquistar uma vaga no funcionalismo público. Mas qual é o segredo para passar naquele concurso com o qual você tanto sonha? Método, disciplina e perseverança são certamente fundamentais. O Diário de Natal ouviu professores e concurseiros já foi aprovados para descobrir tudo o que é necessário saber para chegar lá.

Apesar da crise econômica e dos cortes no orçamento do poder público, há muitos concursos à vista. Na primeira quinzena de junho tem seleção para agente penitenciário estadual. Para o segundo semestre, são aguardados os concursos da Receita Federal, Banco do Brasil, Banco do Nordeste, Banco Central, Polícia Federal e Tribunal Regional Federal. Ou seja, os concurseiros potiguares têm muitas oportunidades para aproveitar neste ano, e para isso é preciso se preparar com muito foco e seriedade.

O professor de informática André Gustavo Almeida e Silva, que é sócio de um curso preparatório, diz que não há ‘‘mágica’’. Para ele, elementos como a bagagem que o estudante preencheu em sua vida escolar e a força de vontadetêm peso forte. ‘‘O método de estudo é muito pessoal. Não há fórmula. Mas todo mundo deve ter interesse, compromisso, determinação e disciplina’’, explica.

24 horas

Apesar de muita gente pensar que para passar nos concursos é necessário largar o emprego e estudar ‘‘24 horas por dia’’, ele desfaz esse esse mito e cita que muitos dos alunos de seu curso foram aprovados sem saírem de seus trabalhos. ‘‘Sair do trabalho pode até deixar concursandos mais ansiosos, pois tomam a aprovação como uma obrigação’’, afirma.

Um exemplo típico de concurseiro que não podia parar de trabalhar para se dedicar exclusivamente aos estudos é Ranieri Luis Cavalcanti, 28 anos, aprovado para o cargo de técnico judiciário do Tribunal Regional Federal da 5ªRegião. Seu tempo para estudar era na verdade bem restrito, uma vez que trabalhava das 8h às 18h em uma empresa de representação de produtos alimentícios. ‘‘Às 19h, eu ia para o cursinho e só chegava em casa por volta das 22h30, quando descansava um pouco e ia estudar’’, relembra. Ele conta que não tinha uma quantidade de tempo fixa para estudar. “Comecei a estudar dois meses antes da prova e dividi o programa pela quantidade de tempo que eu tinha, elaborando o meu cronograma. Só parava de estudar quando encerrava a matéria daquele dia’’, explica.

Ranieri terminou o curso de graduação em direito em 2006, mas nunca havia exercido a profissão. Ele conta que apesar do cargo de técnico judiciário ser de nível médio, exige uma boa dose de conhecimentos em direitos administrativo e processual, e em Processo Civil. Sobre o seu êxito na aprovação, Cavalcanti diz que é preciso ‘‘pegar o ritmo’’ e estudar ‘‘de domingo a domingo’’.

‘‘Vocação’’

Formada em jornalismo, Rosana Curvelo, de 24 anos, trabalhou em uma estação de TV e passou por algumas assessorias de imprensa. Atualmente ela exerce a função de revisora de textos na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), para o qual foi aprovada no ano passado, no primeiro concurso que fez na vida.

Para ela, a grande dica para obter sucesso nos concursos é ‘‘unir necessidade e felicidade’’, ou seja, fazer o que realmente se está interessado, para não ter outro problema que acomete muitos profissionais: a insatisfação com a carreira.

Rosana acredita ter vocação para o funcionalismo público. ‘‘Tenho em minha casa as duas principais referências. Meu pai é médico militar e a minha mãe é técnica administrativa do Tribunal Regional do Trabalho’’, conta.

Ela opina que é essencial ter certeza do que se quer para enfrentar os concursos. ‘‘Escolho o funcionalismo público por me sentir vocacionada para isso, mas percebo pessoas empreendedoras participando dos certames só pela onda, porque todo mundo está fazendo’’, fala.

A jornalista critica candidatos com nível superior que concorrem a vagas de ensino médio por acreditarem que é uma maneira mais fácil de entrar no funcionalismo. ‘‘Às vezes, a pessoa escolhe concursos de nível médio sem o menor vínculo com sua vocação, como se o emprego fosse um trampolim. Na verdade, considero os concursos de nível médio bem mais difíceis de passar’’, revela.

Quando a persistência é recompensada

Três vestibulares para medicina e nada de aprovação.
O que poderia ser uma frustração para muitos, tornou-se uma experiência que agregou conhecimento a Paulo Roberto de Almeida e Silva, 30 anos, e o fez trilhar um novo caminho em sua carreira. Hoje ele ocupa uma vaga no Tribunal Regional Eleitoral mas já tem outros planos para o futuro.

Aos 17 anos, como muitos adolescentes, Paulo tinha o sonho de cursar medicina, porém não conseguiu ser aprovado. Ele ingressou na UFRN no ano seguinte, depois de passar no vestibular de odontologia. Tentou passar através da reopção, espécie de vestibular interno da UFRN, mas terminou na quarta colocação e o curso de medicina destinava apenas três vagas. ‘‘Fiquei motivado por ter chegado tão perto. Tentei outro vestibular mas fiquei de fora mais uma vez’’, diz ele.

A terceira tentativa frustrada de ser aprovado para o curso desejado deixou o estudante desanimado. Ele deu um tempo nos estudos e foi trabalhar na empresa de informática do irmão, que o influenciou a fazer o vestibular para Administração. Paulo passou em primeiro lugar na área de Humanas II. Mas já no primeiro ano de curso ele não gostou e também estava decepcionado com a remuneração de seu trabalho. O quinto vestibular de Paulo estava a caminho. Ele parou de trabalhar em dezembro de 2004 e em 2005 ele entrou no curso de direito, quando decidiu entrar na maratona da busca pela carreira de servidor. Paulo passou a se dedicar 10 horas por dia aos estudos, pois, como já tinha cursado um ano de administração, precisou pagar apenas uma disciplina no curso de direito no primeiro semestre, o que lhe deu bastante tempo livre. Tentou o concurso para o Ministério Público. No dia da prova, estava tão tenso que errou o local do exame, mesmo tendo ido lá um dia antes para se certificar do endereço. Não foi aprovado.

O ‘‘herói da resistência’’ não ficou lamentando o fracasso e se inscreveu no concurso do TRE, no qual finalmente obteve êxito. Ele continua trabalhando no tribunal, mas não por muito tempo, já planeja encerrar o curso de direito no final do ano e pretende ser juiz.