Ter dinheiro obviamente é bom. Não traz genuína felicidade, mas podemos ser tristes na Riviera Francesa, não faz mal a ninguém.

Mas eu não tive o privilégio de nascer em berço esplêndido e nem condeno quem teve essa oportunidade. Comigo, recordemos como é possível o crescimento com o estudo. Trabalhava num açougue. Eu não suportava ficar ali. Orgulhoso e ignorante, achava humilhante ficar de avental. Hoje o uso com muita felicidade. Irônico, não? Abríamos muito cedo e fechávamos tarde. Meu pai no caixa e eu, de vez em quando, limpando as pedras, o chão e o mais odioso trabalho num açougue: retirar os resíduos da serra e o moedor de carne. Aquele cheiro insuportável embrulhava o estômago.

Não havia retiradas furtivas em benefício próprio. Havia uma companheira, uma vira-lata de nome ?tira-gosto? que mirava a limpeza das carnes com uma paciência budista, do lado de fora. Eu dava uma nesga de carne para matar a fome da monja canina. Era a minha pequena rebelião; o meu silencioso protesto.

Os dias passavam-se melancólicos, sem qualquer perspectiva. A parte mais gostosa do dia era a faculdade. Por isso, amo a noite e as madrugadas. Lá sim, eu não era um açougueiro. Era o 1º colocado no ingresso da Universidade Federal, tendo aula com Ulysses Ribeiro, André Luís, Raimar Bottega, José Célio Garcia, Carlos Antônio de Almeida Melo, Luiz Escaloppe, Gonçalo de Barros (Saíto), Carla Reita, Orlando Ourives, Márcio Vidal, entre tantos outros grandes professores. Um mundo mágico, um local de libertação, de oxigênio.

Mas nesses domínios do saber, pouco importava se eu só tinha duas camisas, uma calça e um sapato. Disfarçava bem. Era tão pobre que sacanamente fui intimado a assinar num guardanapo que me comprometeria a pagar as contas dos colegas, quando os avistasse em qualquer bar. Lavrou-se ata, registrada em cartório. Como não frequento botecos, não ficou tão cara a solene promessa. Disseram-me que emolduraram o guardanapo. Na época, não tinha carro e pegava carona com o melhor amigo, o Bosquinho, em troca da boia filada na minha casa. Ele de fusca: ambos esfomeados. Ele comia mais...

Mas, ainda assim, sinto saudade. Saudade
até do que não foi bom. é que a têmpera de um homem é forjada no fogo que arde, onde ele percebe que é possível superar suas circunstâncias sociais pelo estudo. Passados dez anos, estou mais gordo, com menos cabelos e uma barba impensável. Apenas dessa forma é possível compreender a literatura de José Américo de Almeida, Guimarães Rosa e de Graciliano Ramos, ouvir e entender Humberto Teixeira, João do Vale e Zé Dantas.

Essas lembranças me levam a um mundo íntimo que posso visitá-lo ao fechar os olhos. Retorno ao Colégio São Gonçalo, uma vez ao ano, para ver as salas se continuam as mesmas. Parece que sim. Quem muda somos nós. Eu era apaixonado por uma garota. A paixão acabou, os pais proibiram. Amei de novo, felizmente. Casei e quero filhos: Maria Lydia e Maria Flor, quem sabe. O tempo passou, consumindo-nos pouco a pouco. Menos uma coisa: a consciência. Essa é a eterna guia da alma imortal.