Todas as semanas professores voluntários participam de um cursinho comunitário na escola Vinicius de Moraes, no bairro Monte Castelo, em Colombo, região metropolitana de Curitiba. O local é uma das comunidades mais violentas da cidade, mas o grupo quer mudar essa realidade. São 65 alunos que semanalmente se reúnem para estudar com olho no Enem. Muitos já deixaram a escola e tentaram entrar em uma universidade.

A alguns quilômetros dali, no Centro da capital, um grupo de jovens estudantes do ensino médio, que estão ou já tiveram passagem por escolas públicas, encaram a sala de aula do curso pré-vestibular Decisivo para tentar uma concorrida vaga nas duas universidades federais do Paraná: UFPR e UTFPR. Ainda não fazem cursinho pré-Enem, mas nos dois casos os estudantes se acham vítimas do que a educação pública não ofereceu: qualidade e condições de competir com os demais estudantes que tiveram chances de estudar em escolas particulares.

A mudança do foco na preparação é consenso entre os diretores de cursinhos pré-vestibulares. Ninguém acredita na extinção de uma ferramenta que na opinião do professor Marlus Geronasso, diretor do programa de televisão Eureka, veio para suprir mais uma lacuna deixada pela educação de baixa qualidade. “Por enquanto existe todo o tipo de especulação possível. Os alunos enlouquecem e todas as escolas estão enlouquecendo”, diz.

O diretor do curso Dom Bosco, Ari Herculano de Souza, diz que o modelo tradicional deverá dar lugar a um novo. “O aluno terá de ser preparado para resolver problemas, mas com conhecimento. É preciso ensinar conteúdo e raciocínio e já fazemos isso. A adaptação necessária será antecipar o final da matéria para antes da prova do Enem, sem deixar de continuar preparando os alunos para os vestibulares tradicionais”, diz.

O presidente interino do Sindicato Nacional das Escolas Particulares do Paraná (Sinepe-PR), Jacir Venturi, acredita que haverá mudanças. “Não vai significar enfraquecimento. Os cursinhos e bons colégios já estão se preparando para essas mudanças. Vamos continuar preparando para um concurso, continuaremos com concorrência significativa em alguns cursos”, diz. O professor Pedro Adriano Brandalize, diretor do Acesso, diz que a preocupação principal está com a definição da UFPR para este ano. “Vamos nos adaptar. Ao invés de pré-vestibular seremos pré-Enem. Os alunos sempre precisarão de revisão”, diz.

Decoreba ou necessidade?

O estudante Giovanni Razera, 17 anos, está concluindo o ensino médio no Colégio Estadual Dona Branca pela manhã e faz curso pré-vestibular à tarde. Já a sua colega Renata Cordeiro Fernandes, 20 anos, completou os estudos em escola pública e recorreu ao cursinho para tentar uma vaga em Educação Física. “Não faço porque quero, mas porque preciso aprender mais para conseguir entrar na escola pública. Não tem nada de decoreba, é revisão e aprendizado. Antes de propor um novo Enem, o pessoal do ministério deveria passar um mês tendo aulas em cursinhos para ver se a gente aprende musiquinha, ou coisa do tipo”, diz. Após quatro anos, a aluna Kátia Gomes, 23 anos, voltou aos bancos escolares. Desempregada, quer fazer Ciências Econômicas. “Procurei o cursinho porque estou focada no Enem e estava há muito tempo fora da escola. Ele pode me abrir portas para bolsas nas particulares”.

Mais de 2 mil alunos de cursos pré-vestibulares preparam um abaixo-assinado para entregar ao MEC. A intenção do professor Geronasso é levar a reivindicação dos estudantes na audiência pública que ocorre na próxima quarta-feira, em Brasília. Os estudantes querem que a prova do Enem tenha um intervalo entre manhã e tarde, que não ocorra em seis horas corridas como o proposto, e pedem mais tempo para a produção da redação. Os estudantes prometem fazer manifestações caso não sejam ouvidos. Eles reclamam que tudo veio de cima para baixo e dizem que a prova vai ser muito cansativa do jeito que está prevista.