O anúncio da nova proposta do Ministério da Educação (MEC) em unificar os vestibulares através do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tem deixado não só estudantes como também educadores e pais preocupados. A desconfiança gerada com a notícia, no final de abril, levou pessoas a se preocuparem com a questão do ingresso nas faculdades em áreas concorridas como Medicina, por exemplo.

Para o funcionário público Paulo Gigante, se a proposta do Enem unificado for adotada, consequentemente alunos da rede particular de ensino dos grandes centros urbanos terão maiores chances do que os alunos da rede pública local. A concorrência neste caso seria em nível de Brasil, acarretando em uma concorrência desleal.

Duas filhas do funcionário cursam Medicina da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e presenciaram colegas que vêm de outras localidades desistirem do curso por não se adaptarem, ou planejar voltar para o Estado de origem assim que concluir os estudos. Na turma, mais de 50% dos alunos são de outros estados. O pai das estudantes teme que isso possa provocar a escassez de profissionais roraimenses na área.

“Não estou preocupado com minhas filhas porque já passaram, e sim estou atento ao que pode acontecer aqui no Estado se as universidades públicas adotarem esta medida”, disse o ex-militante da União Nacional dos Estudantes (Une).

Outro ponto levantado foi a questão da falta de investimento na educação regional e outros fatores que contribuem indiretamente para o crescimento do aluno, como a internet. Os estudantes regionais pouco têm acesso à internet, ou se têm, encontram dificuldades. Os alunos não terão as mesmas chances de competição que aqueles que passam o tempo em frente ao computador, tendo acesso a internet com altas velocidades, que permitem leitura de mais informações em menos tempo de acesso.

Paulo Gigante disse que o mercado regional das faculdades particulares agradecerá se as universidades públicas adotarem a nova proposta do vestibular único. “Os [alunos] que sempre estudaram em escolas públicas migrarão para estas universidades, pois não terão as mesmas chances de competição. Não é desmerecendo ninguém, pelo contrário, é constatando o que vai acontecer em breve”, destacou.

Os números da média nacional do Enem comprovam este pensamento. Os dados do MEC mostram que há grande desigualdade da qualidade do ensino no país. O Rio Grande do Sul é o Estado com maior proporção de escolas com bons desempenhos no Enem. Ao todo, 56% das instituições de ensino tiveram notas superiores à média nacional.

Munido de números, Paulo Gigante manifestou sua indignação contra a proposta do MEC. “No Distrito Federal, 44,3% das escolas ficaram acima da média nacional de 50,52%. Em Goiás 20,7%, Minas 29,6%, Santa Catarina 39,2% e aqui, em Roraima, apenas 12,9% das escolas ficaram acima da média. É praticamente impossível competir com as estrutura e base escolar dos grandes centros”, disse.

O professor de física do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFRR), Cham Tat Fong, disse que após a notícia do MEC, muitos alunos ficaram preocupados e foi preciso fazer um trabalho psicológico com eles. Os alunos do 3° ano do Ensino Médio foram os que mais manifestaram descontentamento. Ele acredita que nestas decisões o MEC deveria levar em consideração as particularidades de cada região.

As questões da prova do Enem são extensas e trabalham com a interdisciplinaridade, relacionando várias disciplinas para contextualizar o assunto. Neste sentido, o professor Chang acredita que os estudantes locais deverão ler mais. “Não tem como passar no Enem sem uma boa interpretação de texto. Isso foi visto no resultado final”, frisou.

UFRR ainda não definiu se vai adotar proposta do MEC

A Comissão Permanente do Vestibular (CPV) da Universidade Federal de Roraima (UFRR) reuniu-se esta semana com acadêmicos e docentes para discutir as novas propostas do vestibular. No entanto, a decisão final sairá apenas na segunda quinzena de junho, em uma reunião com o Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão.

Segundo o presidente do CPV, Darcísio Pinheiro, o MEC não imporá às universidades a adesão ao método de vestibular único. O CVP defende a posição de que qualquer mudança deva ser adotada para os vestibulares de 2010, conforme um compromisso feito com a comunidade.

A proposta do MEC anuncia quatro modalidades de adesão, sendo elas: 1-Prova única feita através do Enem, com seleção nacional, sem o vestibular tradicional; 2 - Enem como norte da 1ª fase do vestibular, sendo a 2ª fase destinada a áreas que são necessárias habilidades específicas; 3 - somatória da nota do Enem com a nota do vestibular tradicional, sendo que a universidade determina o peso percentual de cada nota e, por fim a modalidade; 4 - com o vestibular único do Enem adotado apenas para as vagas ociosas, que surgem todos os anos por desistência e transferência, como também para as vagas de reingresso, no caso de pessoas que concluíram uma graduação.

“Mas até agora não decidimos nada. São apenas discussões. A modalidade que mais nos agrada é a de que em 2010 façamos este vestibular único para as vagas ociosas. Em 2011 seriam destinadas 60% das vagas para o Processo Seletivo Seriado iniciado há dois anos e 40% para o vestibular unificado”, destacou Darcísio.