A
próxima década será a chance de as escolas inverterem a equação dos
anos 90 - quando o aumento na quantidade de alunos levou à queda da
qualidade do ensino. O movimento agora é oposto. Elas recebem cada vez
menos alunos, devido à redução da natalidade. Até 2020, as matrículas
no ensino fundamental poderão cair em 40%. Segundo uma projeção de
Sergei Soares, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea),
se o país mantiver a redução da natalidade da última década e conseguir
acabar com a repetência, as matrículas no ensino fundamental cairão de
32 milhões para 19 milhões nos próximos 11 anos. Essa redução
representa uma oportunidade ímpar.
O dinheiro hoje
gasto na absorção de crianças poderá ser usado para aumentar a carga
horária de estudo, investir no treinamento de professores e comprar
materiais e tecnologia para as escolas - isso se não for alocado para
outras áreas. Se o atual e os próximos governos levarem a sério as
metas de qualidade traçadas para a educação, o investimento deverá até
aumentar. Segundo essas metas, em 2021 os alunos brasileiros deverão
ter desempenho igual à média dos países desenvolvidos. "A redução da
natalidade é o vento a favor da educação, e as metas são instrumentos
importantes para nos guiar", afirma Marcelo Neri, economista da
Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro. "Mas nada garante que não
vamos deixar mais uma geração se perder."
Em artigo sobre
natalidade e educação na América Latina, Sergei Soares, do Ipea, afirma
que há alguns anos o Brasil abre vantagem demográfica em relação ao
resto do continente. Há países em que a população em idade escolar está
crescendo menos que a população total, como o México e o Panamá. Mas o
Brasil é o único onde o total de crianças caiu. Nosso desempenho,
porém, mostra que a vantagem demográfica não tem determinado mais
qualidade. No último Pisa, uma avaliação internacional de ensino, o
Brasil ficou nas últimas colocações da América Latina. Dos seis países
da região avaliados, teve a pior nota em matemática, a segunda pior em
ciências e a terceira pior em leitura.
Para chegar ao
padrão de qualidade do Primeiro Mundo, é preciso não só aumentar o
investimento em educação, mas também garantir que ele seja bem gerido.
Neri diz que os próximos anos serão o momento ideal para isso: é quando
o país estará passando pela "janela de oportunidade econômica" - o
período em que a população de 25 a 49 anos será maior que o número de
crianças, adolescentes e aposentados. O país terá mais gente
economicamente ativa que dependentes. A janela não vai ficar aberta
muito tempo. Em 2025, o aumento do número de aposentados compensará a
queda de natalidade, e a janela se fechará.
Segundo o movimento
Todos Pela Educação, que criou e monitora metas de qualidade no ensino,
é preciso reservar um porcentual maior do PIB ao investimento na área.
Hoje, o Brasil investe 3,7% do PIB em educação. O mínimo recomendado
pelo movimento, e pela Unesco, é 5%. O dinheiro extra ajudaria a
financiar as principais reformas. Para a melhora no curto prazo, seria
possível aumentar de quatro para cinco horas o tempo mínimo que cada
aluno passa na escola - um dos fatores determinantes do aprendizado.
Para o longo prazo, o investimento permitiria aumentar o salário
inicial dos professores a um patamar atraente e criar um plano de
carreira que vinculasse sua promoção ao mérito. Isso atrairia os
profissionais mais talentosos à carreira e estimularia que os melhores
ficassem na escola. O investimento seria importante, ainda, para sanar
uma das carências básicas da rede de ensino: a falta de creches e
pré-escolas.
Hoje, apenas 14% das crianças de 0 a 3 anos estão em
creches e 60% de 4 a 5 vão à pré-escola. Nessa etapa se trabalham a
coordenação motora e estímulos importantes para a alfabetização.
O cenário da
educação em 2020 depende, ainda, de como as escolas vão solucionar o
problema de fluxo. Anualmente, 18% dos alunos repetem o ano no Brasil.
É uma das taxas mais altas do mundo, 45 vezes maior que a média
europeia e americana: 0,4%. Se a repetência não for reduzida, o Brasil
terá 3 milhões de alunos a mais que o previsto em 2020. O problema está
ligado a uma cultura típica do país: os responsáveis jogam no aluno e
em sua família a culpa pelo fracasso do ensino. Além de ficar
desmotivados e aprender menos, os repetentes inflam as salas do ensino
fundamental. Se são reprovados mais de uma vez, tendem a abandonar os
estudos. Hoje, de cada dez alunos que entram na 1ª série, só três
terminam o ensino médio. Segundo cálculo do Instituto Ayrton Senna, a
repetência custa R$ 10 bilhões ao ano para o país.
"A educação hoje é
um sistema ineficiente", diz Viviane Senna, diretora do instituto.
"Achar que só a entrada de menos alunos vai resolver é como tentar
salvar uma empresa falida com mais dinheiro. Ela vai continuar
reproduzindo os mesmos erros." Para ter uma projeção realista de quanto
tempo o país vai levar para reverter o quadro e atingir suas metas de
qualidade, Viviane Senna fez um cálculo com base na melhora da 8ª série
nos últimos cinco anos. "Se o país continuar no mesmo ritmo, só vai
chegar ao nível dos países desenvolvidos em 2256." Esse é o tamanho do
desafio.


