Você vai para o cursinho todas as manhãs de ônibus com o MP3 player ligado? Que tal usar esre momento para incrementar os estudos e a preparação ao vestibular?

Apostar na música brasileira pode ser uma boa saída para entender melhor determinada época do país ou um fato histórico. Tanto o ritmo como a letra das músicas podem ser a chave para esclarecer aquele acontecimento que não ficou claro com a leitura da apostila nem com as explicações em sala de aula. Eles também podem ajudar a entender o contexto histórico, cultural e estético de um fato.

Cantar em sala de aula é um recurso adotado pela professora Luciana Salles Worms, do pré-vestibular Positivo. A voz macia e afinada atrai a atenção dos adolescentes inquietos e, por vezes, desinteressados. A música, no entanto, não é usada apenas para chamar a atenção do vestibulando distraído e cansado, mas sim para ajudá-lo a compreender a história e a geopolítica do país e do mundo.

Partindo dessa experiência, Luciana escreveu, ao lado do marido, o também professor Wellington Borges Costa, o livro Brasil século XX: ao pé da letra da canção popular (Editora Nova Didática, R$ 49). A obra, que usa os registros musicais como documentos para contar a história brasileira do século passado, é vencedora do Prêmio Jabuti 2003 na categoria Melhor Livro Didático para Ensino Fundamental e Médio. No livro, o casal lista 135 canções que, de alguma forma, “registram crônicas dos momentos da história brasileira no século 20”.

A professora de geopolítica lembra que as canções brasileiras são recorrentemente utilizada pelos elaboradores das provas de vestibulares. Segunda ela, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) já questionou em que contexto foram criadas as músicas Homem Primata, do Titãs, e Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré, e o que a juventude queria dizer com elas. Luciana acrescenta que questões abordando músicas também aparecem no vestibular da UFSC.



10 músicas dos séculos 20 e 21
A professora Luciana Worms elaborou uma lista de músicas que identificam momentos importantes do século passado e do início deste século e que podem auxiliar nos estudos. Confira trechos das canções:
PELO TELEFONE
Primeiro samba gravado em disco, em 1917. A letra possui mais de uma versão. Todas ironizam o fato de a polícia carioca determinar que os donos de casas de jogos (foto) fossem comunicados por telefone antes de a fiscalização ocorrer:
“O chefe da polícia
Pelo telefone
Mandou avisar
Que na Carioca
tem uma roleta
Para se jogar”
A letra oficial, porém, registrada na Biblioteca Nacional, em 1916, por Ernesto dos Santos, o Donga, diz:
“O chefe da folia
Pelo telefone
Manda avisar
Que com alegria
Não se questione
Para se brincar”
FEITIÇO DA VILA
Canção de Noel Rosa (foto) composta em 1936, registra duas “revoluções” brasileiras. A primeira é a incorporação dos instrumentos tamborim e surdo na música. A segunda, a política café-com-leite (que foi derrotada com a Revolução de 1930).
“Lá, em Vila Isabel,
Lá ele se imagina o eleito
Sem nenhuma eleição por perto
(...)
E tudo parece estar errado
Mas nesse caso o erro deu certo
Foi o que ele disse ao pé do rádio
Com a honestidade pelo avesso”
TÔ FELIZ (MATEI O PRESIDENTE)
Em 1992, os cara-pintadas foram às ruas e o então presidente Fernando Collor teve os direitos políticos cassados por oito anos. A trilha sonora para o impeachment foi o rap de estreia de Gabriel, O Pensador. A música também faz referência à ex-mulher de Collor, Rosane:
“Atirei o pau no rato
Mas o rato não morreu
Dona Rosane admirou-se
Do ferrão três oitão que apareceu
Todo mundo bateu palma quando o corpo caiu
Eu acabava de matar o Presidente do Brasil...
...E quando eu chego em casa o que eu vejo na TV?
Primeira-dama chorando perguntando por quê?
Ah, Dona Rosane, ... não é de hoje que seu choro não convence...
...Ele ganhou a eleição e se esqueceu do povão
E uma coisa que eu não admito é traição”
COMPANHEIRO BUSH
O século 21 começa
com os ataques ao World
Trade Center (foto) e ao Pentágono,
nos Estados Unidos. Para os
brasileiros, dois fatos marcam a chegada do novo século: a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a conquista do Penta na Copa do Mundo da Coreia do Sul e do Japão. Esses dois últimos momentos podem ser relacionados com a música A Festa, cantada por Ivete Sangalo. Os ataques e a Guerra do Iraque, com a canção
Companheiro Bush, de Tom Zé:
“Se você já sabe quem
vendeu aquela bomba pro Iraque,
Desembuche
Eu desconfio que foi o Bush”
Fonte: Brasil século XX: ao pé da letra da canção popular, de Luciana Salles Worms, Wellington Borges Costa. Editora Nova Didática.
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba.
São Paulo dá café,
Minas dá leite,
E a Vila Isabel dá samba.”
O BONDE DE SÃO JANUÁRIO
Composta em parceria entre Wilson Batista e Ataulpho Alves em 1940, a canção foi censurada pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP)
do Estado Novo. A letra
original ironizava os sindicatos
atrelados ao governo:
“O Bonde de São Januário
Leva mais um sócio otário
Sou eu que vou trabalhar”
A música foi liberada pelo DIP
após alteração que mudou seu
sentido, tornando-se um hino
ao trabalhismo do governo
Getúlio Vargas (foto):
“Quem trabalha é quem tem razão
Eu digo e não tenho medo de errar
O Bonde São Jenuário
Leva mais um operário
Sou eu que vou trabalhar”
MEU MUNDO CAIU
Música de Maysa (foto)
criada após a 2ª Guerra
Mundial, quando as canções
de “dor de cotovelo”
estavam em alta. Ela retrata
uma época marcada pela
tristeza do pós-guerra,
pela derrota na Copa do
Mundo, pelas mortes de Getúlio
Vargas e de Carmem Miranda:
“Meu mundo caiu
E me fez ficar assim
Você conseguiu
E agora diz que tem
pena de mim
(...)
Se meu mundo caiu
Eu que aprenda a levantar”
CHEGA DE SAUDADE
A Bossa Nova surgiu no fim da década de 1950, quando Juscelino Kubitschek estava no poder. A auto-estima do brasileiro nunca esteve tão alta quanto nesse período. No esporte,
o Brasil ganhou a Copa do Mundo de 1958 e a tenista Maria Esther Bueno foi bicampeã do Torneio de Wimbledon, na Inglaterra. O capital estrangeiro passou a dominar a indústria do país na tentativa de realizar um crescimento econômico acelerado. Nesse contexto, a música Chega de Saudade, de Vinícius de Moraes e Tom Jobim e famosa na voz de João Gilberto (foto), decreta o fim da fossa vivida no pós-guerra. A primeira parte da canção é em tom menor, realçando o tema da tristeza. Na segunda parte, ocorre uma reviravolta na letra e no tom – que passa a ser maior. O clima da música, nessa segunda estrofe, é de alegria.
“Vai, minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer
(...)
Mas se ela voltar
Se ela voltar, que coisa linda!
Que coisa louca!
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos
Que darei na sua boca”
OPINIÃO
Em 1964, no ano do golpe militar, o show Opinião estreou no Rio de Janeiro. Augusto Boal, criador do teatro do oprimido e morto em maio deste ano, foi quem dirigiu o espetáculo. Opinião tornou-se referência a quem procurava repertório para fazer oposição à ditadura (foto). A música que dá nome ao show é de Zé Kéti, um representante dos morros cariocas.
“Podem me prendem
Podem me bater
Podem até deixar-me sem comer
Que eu não mudo de opinião
daqui do morro eu não saio não”
O BÊBADO E O EQUILIBRISTA
Composta em 1979 por João Bosco e Aldir Blanc, a música é considerada o hino da mobilização popular pela anistia. O “irmão do Henfil”, citado na letra da canção, é o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que atuou na resistência contra a ditadura e que foi para o exílio no começo da década de 70. Henfil (foto) foi um dos cartunistas mais atuantes na resistência ao regime militar. O verso “choram Marias e Clarisses” pode ser interpretado como homenagem às mães e esposas dos exilados e mortos por motivos políticos. O nome da mãe de Henfil e de Betinho era Maria; o da viúva do jornalista Vladimir Herzog, Clarisse.
“(...) Meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora a nossa pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil”
O ELEITO
Lobão e Bernardo Vilhena lançaram, em 1988, a canção O eleito, que criticava o Plano Cruzado e o fato de José Sarney não ter sido eleito para a presidência diretamente. O slogan do plano era Tem que dar certo, Lobão colocou em sua música: “Tudo parece estar errado/Mas nesse caso o erro deu certo”. A letra também faz referência ao programa de rádio de Sarney, chamado Conversa ao Pé do Rádio:
“Ele é esperto e persistente
Acha que nasceu pra ser respeitado
Ele é incerto e reticente
Acha que nasceu pra ser venerado
O palácio é o refúgio mais que perfeito
Para os seus desejos mais secretos