Estudantes de escolas públicas e privadas têm percepções diferentes sobre os conteúdos que estudam e suas necessidades em sala de aula. Enquanto na rede particular a noção de utilidade dos assuntos na vida diária e a preocupação com o vestibular é visível, os alunos de escolas públicas ainda reclamam por melhoras estruturais e de equipamentos no ambiente escolar. Em comum entre eles, está a vontade de aprender, mas em novos espaços. "É na frente de um computador que eles se sentem realizados", afirmou a supervisora educacional Orlaneide de Sousa Forte.

De acordo com o diretor de Gestão Curricular da Secretaria de Educação de João Pessoa, Marcelo Bandeira, não dá para comparar, pelo menos nos próximos quatro anos, os estudantes de rede pública e privada, porque o acesso às oportunidades entre eles é diferente. A estrutura da grade curricular da educação básica no Brasil atual é a mesma desde o ano de 2000, através dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e novas propostas estão sendo discutidas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) para trazer novidades e dinamismo para os conteúdos.

De acordo com o professor de literatura, Edmilson José, as crianças e adolescentes enfrentam diariamente uma enxurrada de informações, vindas de diferentes meios, e a escola deixou de ser o principal espaço para a educação e orientação deles. Através da mídia, seja ela televisão, rádio, cinema ou principalmente Internet, a juventude tem acesso às novidades de forma mais atrativa e prazerosa. Uso da Internet é um desafio Para a professora Alessandra Miranda Mendes, o desafio para os professores é utilizar de novas alternativas como a Internet para atrair a atenção dos estudantes para as disciplinas e conteúdos tradicionalmente veiculados em livros e quadro negro, que já são considerados pelos estudantes como algo ultrapassado.

A professora Nivaldete Nicácio revelou que os professores ainda não estão preparados para lidar com as tecnologias e isso vem dificultando a forma como o assunto é abordado com os alunos. "As crianças têm muita informação que vem de lá de fora, que conseguem em outros lugares que não são na escola, mas ainda não sabem transformar estas informações em conhecimento. Além disso, o professor ainda não está pronto para saber lidar com a tecnologia", afirmou Nivaldete.

"Os bons e os maus exemplos podem ser adquiridos em todo lugar e no dia-a-dia, na rua, na casa e na televisão. Mas quem tem conhecimento se dá muito melhor na vida do que uma pessoa com pouco aprendizado", disse o estudante Matheus de Aguiar, do 8º ano.

Para conhecer as necessidades e os interesses dos alunos na Paraíba, a reportagem solicitou de quatro escolas da Capital João Pessoa (duas da rede pública e duas da rede privada) que seus alunos produzissem uma redação sobre o tema. À vontade para escrever, os estudantes revelaram o que mais lhes interessam na escola e o que mais gostariam de estudar.

Temas do ensino fundamental são mais usados Alunos do ensino médio afirmam que assuntos ensinados no início do ensino fundamental são os mais usados por eles no cotidiano e professores buscam tratar de temas que envolvam a realidade e os aproxime do que vivem os estudantes no dia-a-dia, para atrair as atenções nos colégios de João Pessoa.

Os estudantes acham que muitos dos assuntos nunca serão usados em suas vidas e, por isso, só se interessam quando percebem alguma utilidade para eles fora dos muros das escolas. "Percebo que quando a realidade deles vêm para a escola, eles se interessam mais. Por isso, procuramos falar de futebol, novelas, Internet, para possibilitar um maior envolvimento dos alunos", disse Orlaneide.

Assuntos Os estudantes ouvidos na reportagem relataram não entender o porquê de tantos assuntos que são estudados na escola. Alunos de 1º ano acreditam que em matemática, por exemplo, as operações (adição, subtração, multiplicação e divisão) são os assuntos mais importantes e únicos utilizados diariamente fora da escola. Eles reconhecem a importância da língua portuguesa como meio de comunicação e do inglês como idioma universal e fundamental para o mercado de trabalho.

Além disso acham interessante conhecer a história do Brasil e afirmam que a educação física é importante para a saúde. "Pensamos que nunca vamos usar aqueles assuntos, mas de repente nos deparamos lembrando daquilo que foi visto na escola e os conhecimentos são importantes para a gente formar nossas opiniões", afirmou a estudante do 8º ano (corresponde à 7ª série) do Colégio Geo, Noêmia Camilla Rodrigues.

Outra aluna explicou como usa os assuntos em sua vida. "Cada matéria é muito importante apesar de não acharmos. Ciências é importante para a gente conhecer nosso corpo; geografia para a gente conhecer os países, sendo ele rico ou pobre; história é importante para o conhecimento dos antepassados e matemática é muito usada no nosso cotidiano, como no ato de pagar algo e receber o troco", disse Rafaela Ramalho.

Livros não interessam De acordo com a supervisora educacional da Escola Municipal Senador Ruy Carneiro no bairro Mandacaru, Orlandeide de Sousa, os estudantes não se interessam mais pelos livros. "Qualquer livro que a gente trouxer não vai ser interessante para eles. Temos que discutir uma forma de trabalhar o assunto com as crianças, achar um meio de tornar os assuntos atrativos", disse. Orlaneide criticou também os livros fornecidos pelo Governo e afirmou que eles estão fora da realidade dos alunos.

Alunos afirmam que conteúdo do ensino médio incentiva "decoreba" Enquanto os conhecimentos adquiridos durante o ensino fundamental são os mais utilizados pelos adolescentes, eles afirmam que o ensino médio é feito para passar no vestibular. Em escolas da rede privada, a temida prova ainda direciona muito o que eles vão aprender ou "decorar". "Nem sempre o exigido em uma simples prova é o que realmente o aluno é capaz de fazer. A seleção das disciplinas de maior interesse depende da área escolhida pelo vestibulando. Vários são os assuntos que levam ao desinteresse dos alunos pela escola, como o atrito com os professores, a monotonia das aulas e os assuntos "decorebas" exigidos nos exames aplicados", afirmou um aluno do 1º ano do Colégio Motiva que preferiu não se identificar.

"Muitas vezes o que é passado pelo colégio não é do interesse do aluno. Os mesmos procuram uma aula mais dinâmica e prática, envolvendo assuntos específicos
para cada área escolhida, seja ela exatas, humanas ou saúde. Os professores deveriam se reciclar, atualizando suas idéias e trazendo experiências do dia-a-dia para que com isso, possam atingir maior compreensão e interesse dos alunos", disse o aluno do Motiva.

Todas as escolas de JP terão internet O diretor de Gestão Curricular da Secretaria de Educação de João Pessoa, Marcelo Bandeira, afirmou que a prefeitura está buscando atender à nova demanda de interesse dos estudantes e por isso, garantiu que, a partir do próximo ano, através do programa "Cidade Digital", todas as escolas da rede municipal terão acesso à Internet em banda larga.

"A prefeitura tem buscado estratégias para estimular o aluno. Em 2010, onde tiver escola municipal, terá Internet. E isso beneficiará não apenas as escolas, mas também a comunidade situada a um raio de 800 metros, que também terá acesso à banda larga gratuitamente através do satélite", disse. Ele afirmou que, dependendo da localidade, 100% da região poderá ser beneficiada.

Isso depende da proximidade entre as escolas municipais. "Como na Zona Sul as escolas são bem próximas umas das outras, a rede será disponibilizada para todos, já que a rede estará totalmente integrada. Na zona Norte, no bairro da Penha, por exemplo, as escolas são mais distantes e por isso, alguns locais não terão acesso ao benefício", disse.

Condição social influi De acordo com Marcelo, as necessidades de cada aluno estão pautadas no fator econômico. "Como os alunos da rede particular já têm isso em casa, as cobranças deles são outras. Eles já tem acesso à computadores, Internet e outros suportes em casa e por isso não sentem necessidades de pedir isso na escola. Já os alunos de rede pública só terão isso se a gente oferecer a eles, e nós temos que fazer isso para garantir os mesmos direitos de aprendizado entre todos os estudantes", afirmou.

"A informática abre as janelas para o futuro e nos dias de hoje, quem não souber utilizar o computador não consegue um emprego?, disse a estudante Camila Tavares. Sobre a qualidade do ensino, Marcelo Bandeira disse que não há muitas diferenças já que 70% dos professores da rede privada também dão aulas em escolas públicas. "O que diferencia eles, é o acesso aos meios. O desenvolvimento intelectual deles é diferente porque ainda existem muitas deficiências.

O acesso à banda larga por exemplo, deixará as escolas municipais mais avançadas neste sentido do que as privadas, mas pelo menos durante os próximos quatro anos, não se pode haver uma comparação entre alunos de mesmas séries das duas redes de ensino, já que as oportunidades garantidas a eles é diferente". concluiu Flávio Asevêdo