O vestibular de 2011 da Universidade Estadual de Londrina (UEL) pode ser diferente do modelo atual. No início deste mês, foi criada uma comissão para discutir mudanças nas provas. Na pauta da comissão, estão temas como a implantação da prova discursiva, processos seriados e o uso da nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como critério de seleção.

O grupo foi criado após o Ministério da Educação (MEC) lançar o novo modelo do Enem, em abril, e sugerir que as universidades adotem a nota da prova como seleção de alunos. Das 55 universidades federais, 45 já decidiram utilizar a nota, seja em substituição integral do vestibular ou para preencher vagas remanescentes.

A primeira reunião da comissão da UEL foi realizada no último dia 2. Do grupo, também participam representantes das escolas públicas e particulares de ensino médio. Conforme afirma a coordenadora de Processos Seletivos da UEL, Elaine Mateus, a conclusão do trabalho do grupo será apresentada em setembro, em um documento com propostas de mudanças. Para serem concretizadas, dependerão de aprovação do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) da UEL.

“A educação é um processo dinâmico e os processos seletivos das universidades são parte do processo de educação, portanto, também são dinâmicos”, justificou Elaine. Segundo a coordenadora, havendo mudanças, elas serão aplicadas somente do vestibular de 2011. “Não haverá surpresas [para 2010]. A mudança não é para gerar intranquilidade em quem está se preparando.”

A coordenadora rebate as críticas de que a UEL vem mudando muito as regras do vestibular. “A prova da UEL é feita a partir das diretrizes curriculares, que são o documento que orienta o ensino médio. Não temos interesse em surpreender. Tem gente que nos critica dizendo que não explicamos o que queremos que seja interpretado. Mas interpretar é interpretar, não necessita explicação”, enfatizou.

Prova discursiva pode ser adotada

A chefe da Coordenadoria de Processos Seletivos (Cops), Elaine Mateus, evitou detalhar os assuntos em pauta na comissão. Mas observou que alguns “naturalmente” estão sendo debatidos. Um que vem sendo discutido há tempo é a inclusão de prova discursiva, principalmente no que se refere a conhecimento específico.

Outro tema é a adoção do processo seriado, que passou a ser oferecido neste ano na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Nele, os candidatos fazem uma prova ao final de cada ano do ensino médio, “pulverizando” dessa forma a pressão a qual são submetidos no vestibular tradicional. No terceiro ano, o candidato escolhe o curso da graduação ao qual quer concorrer. Na maioria das universidades que adotaram o modelo, o candidato pode tentar os dois métodos (seriado e tradicional) e depois escolher o que lhe der mais chances de ingressar na instituição.

A uso da nota do Enem também está sendo discutido. Mas a coordenadora da Cops já adianta. “Não vemos razão para adotar completamente [em substituição ao vestibular]. Até porque nossa prova é melhor que a do Enem, está muito à frente da proposta do Enem”, disse.

Enem é usado para remanescentes

Por enquanto, a única decisão da UEL com relação à nota do Enem é utilizá-la para preencher as vagas remanescentes, aquelas do vestibular que sobram por falta de candidatos interessados ou aprovados. A nota poderá ser usada já na próxima seleção. Hoje, as vagas remanescentes são disputadas por interessados que já tenham curso superior, sem a necessidade de fazer vestibular. Neste ano, sobraram 100 vagas das 3.050 oferecidas pela UEL no vestibular. Apenas 19 foram ocupadas por alunos com graduação e 81 ficaram desocupadas, gerando ociosidade na instituição.

Professor aposentado tem proposta diferente

Professor aposentado da UEL e ex-coordenador do curso de matemática da instituição, José Carani, propõe que a universidade adote o processo seletivo interno para evitar a evasão escolar e a ociosidade de vagas. A proposta dele é que, no primeiro ano do curso, sejam oferecidas três vezes mais o número de vagas. Se um curso tem 50 vagas, começaria com 150 alunos. Os aprovados estudam durante um ano e ao final fazem uma prova. Somente os 50 melhores são aprovados para o segundo ano. “Os alunos desse primeiro ano já podem ter uma noção do curso. Se algum desistir por entender que não é aquilo que espera, ainda assim haverá outros para selecionar.”

A proposta já virou projeto de lei de autoria do deputado federal Alex Canziani (PTB) e tramita na Câmara desde 2005. Mas como as universidades têm autonomia, algumas já adotaram o sistema proposto por Carani. Na Universidade Federal do Paraná (UFPR), a proposta foi batizada de processo seletivo estendido e é empregada desde 2006 nos cursos de matemática, matemática industrial e estatística. No primeiro semestre, são ofertadas 2,5 vezes o número de vagas.

Para o coordenador de Políticas de Acesso e Permanência da UFPR, Robson Tadeu Bolzon, a medida é positiva. “O sistema ajuda o aluno a saber se se identifica com o curso, pois permite vivenciar o ensino da graduação escolhida”, afirmou. Segundo ele, o sistema é indicado para cursos com baixa concorrência e grande evasão.

Instituição particular não aceita Enem

Das quatro maiores instituições de ensino superior de Londrina, somente a Faculdade Pitágoras não aceita a nota do Enem como alternativa ao vestibular. Pontifícia Universidade Católica (PUC), Universidade Filadélfia de Londrina (Unifil) e Universidade Norte do Paraná (Unopar) dão essa opção aos candidatos. O diretor da Pitágoras, Tarcisio Manso Vilella, afirmou que a instituição não usa o Enem porque não é obrigatório. “Temos muitos alunos que não prestaram o Enem. Nossa preocupação é não dar dois pesos e duas medidas na seleção”, disse. “Com a universalização, que é o objetivo do MEC, podemos adotar. Estamos aguardando a discussão entre as universidades públicas sobre a adoção do Enem para que possamos usar”, afirmou. As instituições que oferecem a alternativa do Enem afirmam que ela não é muito usada porque o calendário para ingresso nas universidades não bate com a divulgação da nota do exame nacional, que é posterior.

Mudança na UTFPR será já em 2010

Em Londrina, a única instituição que irá substituir totalmente o vestibular pela nota do Enem é a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Para o diretor Marcos Imamura, a medida foi tomada porque “o novo modelo do Enem mede bem o conhecimento do aluno” ao privilegiar questões interdisciplinares e a capacidade de interpretação. Também é positiva porque permite que estudantes de outras regiões do País concorram a uma vaga nos cursos de engenharia ambiental e de tecnologia de alimentos. Mas ele faz uma ponderação. “A instituição deixa de ter o controle do processo de seleção e por isso é importante a garantia de que não haverá nenhuma falha de segurança na aplicação da prova do Enem, pois há cursos bem concorridos e a seleção não pode ser prejudicada”, disse.