Sair da faculdade com a preocupação de quitar uma dívida já impediu muita gente de ingressar em um curso superior. Os números da inadimplência (10% dos mais de 470 mil contratos ativos) e a dificuldade do mercado de trabalho assustam os estudantes. Mas, para quem quer estudar medicina ou pretende seguir a carreira do magistério, a conta poderá se diluir naturalmente, no exercício da profissão. A proposta está em um projeto de lei que deve seguir para o Congresso e atingir os novos contratos.

Para abater a dívida trabalhando, os futuros professores devem atuar em escolas públicas e os médicos, no Programa Saúde da Família (PSF), em regiões em que há carência de profissionais. Para cada mês trabalhado, será abatido o valor correspondente a 1% do total do financiamento.

O ministro de Educação, Fernando Haddad, diz que a nova lei seria a oportunidade de o país ganhar novos profissionais que estariam a serviço de cidadãos que hoje não têm esses serviços básicos. A proposta não anima quem está na faculdade e já sonha com a carreira, sobretudo na Medicina.

– Quero fazer cirurgia plástica. A proposta não vale a pena. Não faria uma especialização só para pagar a dívida – diz Eduardo Kasper Guerra, 27 anos, aluno do 5º ano do curso na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Eduardo é um dos 15 mil bolsistas do Fies na Medicina do país. Com o financiamento, ele conseguiu reduzir a mensalidade de R$ 2,5 mil pela metade. Quatro vezes por ano, paga R$ 50 para amortecer os juros (6,5% é o teto atual) e, quando completar seis meses de formado, recomeçará a pagar o curso por mais seis anos, com valores atualizados. O tempo previsto para a residência em cirurgia plástica é de cinco anos.

O apelo para que futuros médicos se interessem pela vida no Interior, com dois a três anos de estudo extra, já tem muitos aliados. Um deles é o próprio desempenho do PSF, estratégia consolidada que já reduziu a mortalidade infantil e o número de internações hospitalares em todo o país.

– No Estado, há médicos com dedicação exclusiva ao programa com salários de R$ 10 mil. São profissionais respeitadíssimos pela comunidade – diz Leonildo José Mariani, consultor técnico da saúde da Federação das Associações de Municípios (Famurs).

O que diz o projeto de lei
Quem poderá abater
a dívida do Fies
- Professor graduado em licenciatura em exercício na rede pública com jornada de, no mínimo, 20 horas semanais.
- Médico integrante de equipe de saúde da família (PSF), com atuação em áreas e regiões com carência e dificuldade de retenção de médicos, que serão definidas como prioritárias pelo Ministério da Saúde.
Como vai funcionar
- Beneficiará aqueles que estão em dia com os pagamentos e que ainda têm parcelas a pagar quando começarem a trabalhar na rede pública (de Ensino ou no Programa de Saúde da Família).
O abatimento mensal começará a partir do primeiro ano de trabalho.
- No período do abatimento, os profissionais ficam desobrigados da amortização do financiamento.
- O estudante que já estiver atuando na rede pública de educação básica (ensinos Fundamental e Médio) com jornada de, no mínimo, 20 horas semanais, por ocasião da matrícula no curso de licenciatura, terá direito ao abatimento desde o início do curso. O mesmo vale para quem cursar residência médica em áreas prioritárias.
- O estudante graduado em Medicina que optar por ingressar em programa de Residência Médica em especialidades prioritárias terão o período de carência estendido por todo o período de duração da residência.