Durante uma Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, tive a oportunidade de conversar com o escritor e médico Moacir Sclyar, gaúcho, que ocupa uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras. Ele acabara de proferir uma palestra em uma das reuniões literárias da Bienal e, após o evento, sentou-se à mesa para tomar uma cerveja onde se encontravam muitos de seus ouvintes, inclusive eu.

A conversa girou em torno da reedição de sua obra: "História da Medicina na Literatura". Uma questão suscitada por um dos presentes: quando nascera a medicina? A resposta de Sclyar foi mais ou menos a seguinte:

"Não há texto registrando o nascimento da medicina. A necessidade de tratar a doença antecede em muito o aparecimento da escrita. Nada sabemos, portanto, da experiência daqueles que primeiro enfrentaram a enfermidade, o sofrimento e a morte. Quando uma mão benfazeja tentou minorar a dor de um doente terá sido este o primeiro passo nessa direção".

Vocês conhecem a história de Agnodice, perguntou. Diante da negativa dos presentes contou o seguinte fato. Na Grécia antiga as mulheres eram terminantemente proibidas de praticarem a medicina.

Agnodice que desejava exercer a ?arte de curar? transferiu-se para Roma onde aprendeu a realizar partos e tratamentos ginecológicos. Como queria exercer a profissão na Grécia, travestiu-se de homem, ajudada por uma amiga egípcia que modificou, inclusive, seus traços fisionômicos.

Em seu país, sua competência logo atraiu numerosos clientes, o que despertou ciúme em outros médicos, que a acusaram de praticar atos obscenos, pois retirava a maior parte dos vestuários das pacientes, usadas durante os partos. Levada ao tribunal, concluiu que ia ser condenada à morte.

Tomou uma medida extrema:
tirou toda a roupa para espanto dos jurados, provando que mulher podia ser boa médica tanto quanto os homens. Desnuda, todos os olhos permaneciam fixados nela, até que o juiz, rispidamente, ordenou que se vestisse. Em reunião posterior, o juiz livrou-a da acusação de prática ilegal de medicina e fez mais: promulgou um

a lei determinando, que, a partir daquele momento, na Grécia, as mulheres teriam o direito praticar a medicina. As mulheres haviam vencido esse absurdo preconceito. Deixavam de ser, não somente doces e admiráveis criaturas tão credoras de afeto e carinho; aproveitaram a oportunidade para provar sua capacidade no exercício de profissões.

(*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.