"As instituições de ensino superior (IES) brasileiras parecem estar sem rumo", disse Paulo Barone, presidente da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação, órgão do MEC, que esteve na PUCRS para ministrar o painel "Ensino de Graduação no Brasil: perspectivas futuras", dentro do ciclo de seminários sobre o Planejamento Estratégico Institucional.

Após a frase inicial de impacto, traçou um olhar panorâmico sobre a realidade atual, questionando a capacidade inovativa de segmentos da área acadêmica, mostrando mudanças irreversíveis no mundo do trabalho e apontando que não basta mais para a economia deter matéria-prima ou capital, pois o diferencial está no conhecimento. "A atividade universitária é a mais nobre da sociedade contemporânea", defendeu, mas para isso serão necessários "novas arquiteturas curriculares e novos modelos de formação".

Para Barone, doutor em Física pela Unicamp e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), os vetores de pesquisa-aplicação e de relevância e transformação por meio da inclusão social, existentes hoje, devem ser acrescidos de uma reforma pedagógica que introduza a inovação no ensino de graduação. Sobre a formação do estudante, disse que o conceito de "pronto" precisa ser trocado pelo de "preparado" para o mercado, lembrando um dirigente do Colégio de Jesuítas de Juiz de Fora. Ressalvou, porém, que as IES não podem responder ao ritmo das mudanças na mesma velocidade estabelecida pelo mundo corporativo. Como consequência, sinalizou para o ingresso precoce dos jovens aos bancos acadêmicos. "É preciso retardar a entrada no Ensino Superior, para enxergar um cenário melhor e tomar atitudes seguras. A formação deve ter caráter cultural, e não apenas instrumental", sustentou. Como tendência para a educação superior, Paulo Barone mencionou modelos europeus, contemplando um estágio inicial voltado ao nível básico de conhecimento, de forma generalista, e posterior aprofundamento e especialização na área escolhida.

No Brasil, o exemplo citado foram os cursos superiores tecnológicos, capazes de atender às necessidades de segmentos da população. "Essa é uma resposta possível aos desafios da sociedade contemporânea", disse. Outro caminho indicado pelo docente foi o aumento da interdisciplinaridade, flexibilidade e diversificação, estabelecendo conexões com distintas áreas do saber. Para isso ocorrer "as universidades precisam revisar seus princípios, centrados num padrão pouco variável, baseado em aula expositiva, no estudante como indivíduo passivo no processo educacional". Observou, ainda, que "o principal objetivo da universidade é preparar cidadãos para interagir com um ambiente complexo". Para o ensino superior ter valor estratégico, o representante do Conselho Nacional de Educação alertou para a importância de vislumbrar a inserção do Brasil num cenário econômico internacional, precisando haver "ligação entre a agenda de formação e investigação com a agenda do desenvolvimento regional". Os desafios a serem superados para isso ocorrer incluem atender a demandas não supridas pelo Estado, vendo isso como possibilidade de atuação, prover o novo profissional de recursos para interagir de maneira transformadora com a sociedade e incentivar a incubação de empresas, qualificando o trabalho destas e de outras.

Após remeter os gestores da PUCRS à reflexão, Barone defendeu o questionamento dos modelos de educação brasileira, pois "se não o colocarmos em dúvida, não agimos para melhorá-lo". Finalizou sua apresentação acenando como fundamentais as mudanças estruturais que permitam ver o estudante como agente pró-ativo, o mestre como alguém que dá o caminho, "e não um repetidor", as IES atuando como provedoras de estrutura formativa e uma sociedade que não se reduza às pressões das corporações. No espaço aberto às intervenções dos gestores da Universidade, foi questionado sobre como lidar com o aluno que ainda se coloca em sala de aula como alguém passivo e conservador, apenas recebendo o conteúdo. Em sua resposta, enfatizou a necessidade de utilizar metodologias práticas, redesenhando a organização do tempo da atividade do estudante. "É preciso enfrentar o conservadorismo de forma constante, e não ocasionalmente, criando um contexto cultural que mostre ao aluno que ele também pode tomar as rédeas do conhecimento em suas mãos", afirmou. Barone analisou que no Brasil o graduando quer que o docente reproduza os livros, "mas o professor não pode ser um papagaio de livro-texto".

Para ele, "não é preciso utilizar todo o tempo do estudante fora da instituição, mas é fundamental saber aproveitar todo o seu tempo dentro dela". Questionado sobre a redução do número de especializações em cursos como Administração de Empresas e Engenharia, algo defendido por ele ao longo da palestra como forma de oferecer uma formação inicial mais generalista, disse que "não se pode confundir generalidade como superficialidade".

Quanto à necessidade de diplomação para o exercício de profissões como biblioteconomia, jornalismo e docência em determinadas áreas, afirmou que isso não muda para a vida de muitas pessoas. Inclusive questionou o fato de muitas universidades requisitarem doutores em Direito para lecionar, enquanto "grande parte dos expoentes em Direito no Brasil não têm doutorado". O ciclo de seminários sobre o Planejamento Estratégico da PUCRS terá o segundo encontro em 3 de agosto, com a participação do vice-reitor acadêmico da PUC-Rio, José Ricardo Bergmann.