Nem a previsão da meteorologia é tão instável e complicada quanto as bancas examinadoras dos vestibulares nos últimos tempos. Uma febre de mudanças tomou conta dos nobres professores que instauraram uma bagunça na cabeça dos vestibulandos nos digna da falta de planejamento que acomete a educação brasileira desde o tempo dos jesuítas.

Vale lembrar que o vestibular pode não ser bom, mas é um modelo consagrado no Brasil e as provas, por mais injustas que sejam, são eficientes instrumentos de seleção para o ingresso nas universidades do pais, já que, por incompetência ou incongruência, não há vagas suficientes para todos os que pleiteiam cursar uma boa faculdade.

Ninguém me tira da cabeça que o Ministro Fernando Hadad teve um delírio noturno de que iria se tornar um novo Napoleão e acordou acreditando que poderia fazer uma revolução. Como não havia nenhuma disponível no momento, acreditou que poderia acabar com o vestibular. Para que o seu sonho fosse propagado aos quatro ventos, contou com a conivência e a incompetência de muita gente, principalmente da imprensa amestrada. Sou professor de pré-vestibular há trinta anos e nunca vi tanta bobagem feita de uma só vez, porque o MEC conta com a passividade do estudante que não conhece a força que tem.

Não só não acabou com o dito cujo, como criou um outro vestibular ainda mais problemática, com logística complicada e uma concepção de prova que não passará de chuva de verão. Num primeiro momento, seria uma prova de raciocínio lógico. Num segundo momento, a prova contemplaria também conteúdos.

Aos quatro ventos, o Ministro propagou que quem está estudando para o vestibular, não encontrará dificuldades para resolver a prova. Então, por que motivo o não deixar as coisas como estão ou não fazer todas as essas modificações para o próximo ano? Quer uma resposta sincera? Porque não há como ter ganhos eleitorais com ela. As novas regras só funcionariam depois das eleições.

Revoluções, senhor ministro, começam pela base. Como um aluno irá provar que tem raciocínio lógico numa prova com 90 testes num dia e 90 testes e uma redação no outro? Não há um vestibular que eu conheça que comete esse tipo de desatino. Para piorar, como será essa prova? Porque o governo não edita um simulado nacional, para que as escolas possam entender a mágica que só o MEC tem em mãos?

Tenho certeza absoluta de que, no primeiro dia, todo mundo vai para ver o bicho papão; no segundo, haverá um número recorde de abstenções em várias regiões do país em que o aluno não tem uma boa preparação para competir nas melhores escolas. O aluno de escolas particulares sairá em grande vantagem, mais uma vez. No modelo antigo, o ENEM também era assim.

Mais uma vez, vamos imitar o sistema americano, como no Acordo MEC-USAID nos anos 70. Para quem não sabe, o MEC permitirá o ingresso nas universidades do aluno que, mesmo não tendo cursado o 2º grau, consiga aprovação com a prova do ENEM. Como haverá vestibulares em que essa prova será a única forma de avaliação, as chances existem. Talvez o Ministro, na ânsia de obter votos, não tenha visto uma série de pesquisas que dão conta de que 70% dos nossos universitários brasileiros são analfabetos funcionais. Para quem não sabe o que isso significa, analfabeto funcional é a pessoa que lê, mas não entende o que leu; escreve, porém não consegue corrigir o que escreveu.

Para mais espantar, a FUVEST também entrou nesse samba do vestibular doido. Ao reformular os conteúdos para as provas específicas de algumas carreiras, apareceu com algumas “invencionices” mexendo num sistema já consagrado que não sofria críticas devido à famosa lógica de raciocínio. No entanto, a banca retirou física para a carreira de Medicina e, sem nada que explique razoavelmente a mudança, a não ser a balela de que um médico precisa ter cultura geral, acrescentou geografia.

Dois meses depois de divulgar isso, voltou sobre os próprios passos e afirmou agora que a Medicina seguirá os passos da Odontologia, ou seja, na cidade de São
Paulo, a segunda fase continuará com prova de física e, no interior, continuará a de geografia.

A coisa é mais complicada do que parece: o candidato poderia, antes, fazer a primeira opção por uma faculdade e a segunda por outra, agora não poderá mais. Qual o motivo dessa diferença, se os currículos das duas faculdades são os mesmos? Física não seria mais importante para um médico do que geografia?

Várias escolas que acrescentaram aulas específicas de geografia para preparar o aluno, agora terão de mudar mais uma vez a sua carga horária. Continuo a bater na seguinte tecla: Por que todas essas modificações não foram feitas com um ano de antecedência? Por que não podem ser feitas para 2010? Será que a FUVEST descobriu que isso é a fórmula mágica para atrair os alunos fugidos dos seus exames, afinal 138 mil candidatos em 2009 representou um tombo e tanto para quem esperava 150 mil, no mínimo?

Um vestibulando é um ser muito parecido com nitroglicerina. Explode quando menos se espera. Não é para menos. Há muito despreparo, muita falta de maturidade e uma certa esquizofrenia no sentido de acreditar que tudo só acontece com ele e modificações são feitas apenas no ano em que ele está prestando os exames.

No entanto, dessa vez, acredito que a esquizofrenia mudou de lugar. Há uma grande confusão em torno dos maiores exames brasileiros. É um tal de vai e volta, que ninguém aguenta mais. Vamos esperar o manual do candidato para ver se há uma caixa de horrores dentro dele com mais alguma surpresa. Dessa vez, a FUVEST pisou na bola, como diriam nossos futuros universitários. Espero, sinceramente, que a banca não haja mais modificações substanciais, porque parece que, ao invés de esquizofrenia, o problema maior é o da esclerose. Chega por esse ano.