Há uma polêmica atual no Brasil sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal, que dispensa a obrigatoriedade de o cidadão possuir diploma de jornalismo para exercer atividades na mídia. De um lado, posicionam-se os que têm o curso de comunicação ou fazem-no, e, do outro, os que não são formados nessa área e que representam a maioria.

A classe de jornalismo puxa brasa para a sua sardinha, pois deseja para si a exclusividade de mercado das funções midiáticas. Já os bacharéis de outros cursos superiores, de que se compõe a grande massa dos intelectuais do país, defendem também o seu direito de expressão escrita e oral nos veículos de comunicação.

É sagrado esse direito de o cidadão expressar em público suas preferências filosóficas, ideológicas, políticas, econômicas, religiosas, esportivas e outras. E é mesmo uma aberração contra a liberdade de expressão, e que é própria dos regimes ditatoriais, amordaçar o cidadão, impedindo-o de transmitir ao grande público seus princípios culturais, o que só é possível através da mídia. Será justo e lógico exigir-se de todo brasileiro, mesmo que ele seja um adamantino na ciência e em cultura geral, um diploma de jornalismo para ele manter intacto esse seu direito de se expressar em público?

Como ficariam os nossos jornais sem os textos de alto nível literário, filosófico e cultural de Trigueirinho, Vittorio Medioli, Murilo Badaró, João Batista Libanio, Laura Medioli, Gilda de Castro, cônego Vidigal, Sylo Costa, Elias Murad, Sebastião Nunes, Fátima Oliveira (deixo de citar outros por não saber se eles não têm mesmo curso de jornalismo). E, se tal lei excêntrica, que foi derrubada pelos ministros do STF, existisse no passado, os leitores de jornais não se poderiam ter deliciado com a linguagem e a cultura dos textos dos grandes de nossa literatura, como os de Machado de Assis, o maior mestre da língua portuguesa, de Rui Barbosa, Euclides da Cunha, Coelho Neto, Manoel Bandeira, Agripino Grieco, Alceu Amoroso Lima e outros.

Realmente, se essa tal de lei do interesse exclusivo dos formados e formandos em jornalismo vingasse, ela seria semelhante à que limitaria o direito de publicar livros apenas aos bacharéis em literatura, ou à lei de que somente os possuidores de diploma de pintura pudessem expor à venda para o público os seus quadros pintados por eles, ou ainda à de que só as composições musicais de autoria de um compositor formado em música pudessem ser apresentadas pelas rádios e TVs.

Uma democracia, para ser verdadeira, tem que permitir que todos os seus profissionais e amadores da arte da palavra escrita e oral, quaisquer que sejam seus cursos superiores, tenham acesso plenamente livre aos veículos de comunicação de massas, mesmo porque muitos jornalistas não têm o dom da arte de escrever e falar bem, ou se o têm, falta-lhes frequentemente o domínio da língua portuguesa, o que só se consegue ao longo dos tempos, com muito esforço, muito amor e muita dedicação à difícil língua de Camões. O curso de jornalismo tem o seu valor, sim, mas não é bastante para a mídia moderna dum mundo globalizado. E há muitos jornalistas cultos, sim, mas nisso pouco pesa o seu curso universitário de comunicação.

Se ficássemos à mercê duma mídia composta só de jornalistas, quem iria se interessar, do ponto de vista cultural, científico, filosófico e religioso pelos jornais, revistas, rádios e TV?
Realmente, se assim fosse, nossa mídia seria pobre de ciência, letras e cultura geral!