UFSM pode ter o primeiro cego a concluir graduação da universidade
Diante da banca, formada por três professoras, entre elas a que o
orientou, Rodrigo Gonçalves da Silva, 27 anos, descreve suas percepções
sobre a casa colonial, com arcos de estuque e pisos axadrezados de
mosaicos florentinos, em que o protagonista de Memórias de Minhas Putas Tristes passou a vida.
A
obra de Gabriel García Márquez foi a matéria-prima para o trabalho de
conclusão de curso do estudante de Letras/Espanhol da Universidade
Federal de Santa Maria (UFSM). Na quarta-feira passada, ele apresentou
a monografia que lhe exigiu, pelo menos, quatro meses de dedicação.
Rodrigo é amante da literatura, um curioso da língua espanhola – que
aprendeu a admirar escutando rádios argentinas na adolescência – fã de
esportes e cego desde que nasceu. A deficiência nunca aniquilou suas
ambições.
Enfrentou o vestibular quatro vezes, em tempos que nem
se falava em cotas, e na última tentativa, em 2004, conquistou a
aprovação. Desafiou a falta de estrutura das universidades brasileiras
para receber alunos com necessidades especiais e, assim, deve entrar
para a história da UFSM como o primeiro estudante cego a concluir um
curso de graduação.
Transcrever para o braile a história de amor entre um ancião e uma
menina, que marcou o retorno de Gabriel García Márquez aos romances,
foi o derradeiro desafio que o estudante se propôs a encarar antes de
deixar a universidade. Incentivado por sua orientadora, Luciana
Montemezzo, Rodrigo ouviu atentamente o audiobook (livro em áudio) da
obra do escritor colombiano.
A professora acompanhava a
narrativa na versão impressa, para que as imperfeições de pontuação e
acentuação fossem corrigidas. Mas uma simples transcrição não estaria à
altura da trajetória de Rodrigo na UFSM.
– Para mim, a grande sacada do trabalho era ele tentar explicar como via a obra sem os olhos. Ele topou a loucura e me deixou uma lição de vida. Quem na verdade é cego? – emociona-se Luciana.
A colação de grau e a festa de formatura de Rodrigo e seus colegas estão marcadas para o dia 12 de setembro.
As descrições e minúcias do texto de Gabriel García Márquez não perderam genialidade nem a surpresa no olhar de Rodrigo. A cor azul virou a cor bonita, mesmo na percepção de um colorado fanático. O preto se torna a cor pesada, e os pisos axadrezados da casa colonial do protagonista instigaram a imaginação de um cruzamento de cores, que só Rodrigo pode ver.
– A luz, eu não sinto, mas sei que existe. Há coisas que só conheço por conceitos que fui construindo ao longo da minha vida. Foi um trabalho de percepção não visual – resume o estudante, já com planos de fazer mestrado e começar logo a busca por um lugar no competitivo mercado.
A monografia de Rodrigo poderá ser publicada em livro, tão logo a revisão do último capítulo seja concluída. Luciana deve se empenhar para que isso aconteça especialmente porque o trabalho de conclusão inclui um histórico da vida do aluno, um exemplo incontestável de que as limitações podem ser encaradas como desafios a serem superados e que não é preciso ver para crer nas próprias capacidades.


