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A depressão dos jovens médicos
O jovem que faz vestibular
para medicina sabe que enfrentará muitos anos de estudo. Primeiro, os
seis da faculdade; depois de formado, pelo menos mais dois de
residência para se tornar especialista. Nesse início do curso, a emoção
que prevalece é o orgulho de ter passado na seleção para algumas das
vagas mais disputadas do País. Mas o que estudos recentes começam a
mostrar é que boa parte dos futuros médicos corre o sério risco de ter
depressão e até mesmo de pensar em largar o curso antes de pegar o
diploma. Um desses trabalhos, realizado na Universidade de Uberlândia,
em Minas Gerais, descobriu que 79% dos 400 alunos do curso de medicina
apresentavam sintomas depressivos. Cerca de 20% deles tinham um quadro
considerado grave.
A tendência à doença está sendo identificada
em mais universidades. Na Faculdade de Medicina do ABC, na cidade
paulista de Santo André, pesquisa coordenada pelo Serviço de Orientação
Psicológica ao Aluno revelou que 38% dos acadêmicos exibiam queixas
características desse tipo de distúrbio psiquiátrico, como tristeza,
falta de concentração, desânimo e um profundo cansaço. A pesquisa,
divulgada no portal internacional de publicações médicas Biomed
Central, serviu para evidenciar ainda mais a necessidade de entender o
que leva os jovens médicos a cair em depressão e o que as escolas
precisam fazer para ajudá-los a se recuperar.
No estudo de Santo
André, por exemplo, viu-se que o maior número de casos estava
concentrado nos dois últimos anos de faculdade, período conhecido como
internato, em que os alunos vivenciam na prática o que aprenderam na
teoria. Foi exatamente nessa fase que o estudante Álvaro Faria, 26
anos, sofreu com a doença. “Eu me sentia muito mal. Achei que medicina
não era para mim, que não suportaria mais aquele sofrimento”, lembra.
Em rodas de amigos, não tinha assunto que não fossem os problemas do
hospital. Seu limite de saturação foi a morte de um paciente diabético
que precisava fazer uma cirurgia de urgência. O doente morreu antes que
a equipe médica conseguisse estabilizar seus níveis de glicose – medida
que precisava ser tomada antes da operação. Por muito pouco poderia ter
sido salvo. “Não consegui tirar a cena da mente naquela semana. Entrava
no hospital me questionando se seria capaz de salvar alguém naquele
dia”, lembra. Diagnosticado por um serviço de apoio criado na escola,
ele foi tratado com antidepressivos e psicoterapia por cerca de um ano.
Além
do choque com a dura realidade do sistema de saúde brasileiro – repleto
de deficiências e limitações que vão da falta de leitos à ausência de
materiais básicos para o trabalho –, esses jovens ainda enfrentam as
exigências do curso. Para Heloísa Calazans, 22 anos, aluna do quinto
período de medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a
pressão pelo bom desempenho acadêmico incomoda mais do que o cotidiano
do hospital. E foi o que a levou a procurar ajuda médica. “É um
ambiente muito competitivo. Cheguei a faltar às aulas e a deixar de
estudar matérias que sempre gostei por conta do stress com as notas”,
diz. Os anos de estudo intenso também fizeram com que momentos de lazer
e de convivência familiar de Heloísa se tornassem mais raros. A cura
veio por meio de antidepressivos, usados por três meses. “Estou
recuperada”, diz.
Na opinião do psiquiatra Sérgio Baldassin,
professor da Faculdade do ABC e coordenador da pesquisa sobre a
depressão entre os estudantes, a expectativa que recai sobre os novos
médicos agrava seu mal-estar. “Espera-se hoje que o médico seja um
workhaholic, que conheça todos os artigos científicos recentes, tenha
disponibilidade 24 horas por dia e que, se possível, não cobre muito
caro”, afirma. “É uma situação de stress extremo vivenciada todos os
dias.” Características comuns de personalidade de quem escolhe a
profissão de médico também pesam no desencadeamento da doença. “São
pessoas exigentes, que passaram por um processo de seleção rigoroso e
têm de responder a expectativas próprias e sociais”, afirma Carlos
Henrique Alves de Rezende, orientador do curso de Uberlândia.
Em
um contexto rígido como esse, é mais difícil para os estudantes admitir
que têm alguma dificuldade e procurar ajuda. “Pelo menos uma vez por
dia recebo um aluno com sintomas depressivos. Muitos têm medo de ser
alvo de preconceito”, conta Regina Granato, coordenadora do curso de
medicina da Universidade Federal Fluminense. É um temor justificável.
Até hoje, a depressão ainda é vista, muitas vezes, como sinônimo de
fraqueza emocional – embora esteja mais do que provado que se trata de
uma doença. Em um ambiente competitivo como o da medicina, o equívoco
de julgamento pode se tornar um grande problema na vida do
profissional. Por isso,
Oferecer opções de tratamento a esses jovens é essencial. “As faculdades devem prestar apoio psicológico aos profissionais da saúde. Cerca de 80% das que estão sediadas no Sul e no Sudeste já fazem isso”, diz o psiquiatra Baldassin. Além disso, o atendimento precisa ser individualizado. “O que funciona para um caso não se aplicará necessariamente a outro”, explica.
No trabalho feito com os profissionais, um dos objetivos é ajudá-los a enfrentar frustrações como a morte de um doente. “Escolher a medicina é ter poder sobre a morte e a vida, é querer ser onipotente”, afirma Rezende. Mas não é fácil para os jovens ver essa ideia desmistificada. “Também é preciso criar mecanismos para não sofrer junto com o doente”, diz a médica Regina Granato, do Rio de Janeiro. “Continuamos nos compadecendo, mas é necessário criar uma defesa para não absorver a tristeza.” O jovem Álvaro Faria parece ter entendido a lição. “Por melhor que você seja, não conseguirá salvar todos. Mas hoje, depois do que passei, no fim do dia tenho a convicção de que fui bem-sucedido quando dei o meu melhor”.
Sinais distintos
Médicos em início de carreira podem ter sintomas diferentes dos manifestados por outras pessoas.
- Em vez de apatia, muitos se voltam ainda mais para o trabalho;
- Eles adotam um comportamento antissocial: acostumados a lidar com pessoas, começam a se isolar, afastando-se dos amigos;
- Há queda de rendimento escolar, mas não por falta de estudo - isso eles dificilmente deixam de lado -, mas porque têm mais dificuldade para se concentrar;
- Mesmo beirando o esgotamento físico, não reclamam nem pedem ajuda. Eles são treinados para aguentar pressão e levam isso ao extremo;
- Quem tem disfonia, um estágio inicial de depressão, pode se tornar agressivo, irritado e até cínico, resultado de uma frustração com o sistema de saúde.


