Está na pauta dos educadores e de nossos governantes a discussão sobre o fim da “decoreba”. Acreditam que é urgente fomentar nas escolas brasileiras uma aprendizagem mais lúdica e sem esforço, onde a autonomia e a espontaneidade tenham mais espaço.

Concordo plenamente. Penso, porém, ser preciso frisar que o sentido depreciativo da palavra decoreba — ação ou resultado de memorizar, sem o cuidado de compreender o que se estudou — poderá confundir o estudante com a falsa noção de que decorar é um mal. Segundo a educadora Judith Sucupira Lins, a aquisição do conhecimento, sua a retenção na memória e a subsequente generalização para raciocínios futuros são três fases necessárias para alcançar o conhecimento.

Quem galgou patamares acadêmicos mais elevados pode comprovar que a “boa decorada” é fundamental para, entre outras coisas, auxiliar na aprendizagem de diversas linguagens (línguas estrangeiras, música, literatura, artes etc.) como também para raciocinar mais rapidamente na busca de solução para os problemas.

Por outro lado, o movimento visando a acabar, no médio prazo, com o vestibular tradicional, privilegiando-se provas analíticas como as do Enem, é positivo. Sinaliza-se que a educação passa por um período delicado de transição. Que as aulas de “cuspe e giz” estão com os dias contados.

Que os cursos pré-vestibulares perderão clientela, ao não mais conseguirem, por carência de tempo, “adestrar” alunos para realizar provas que exigem trabalhar a informação em vez de manipulá-la em fórmulas ou técnicas. Que quem não despertar a tempo para o momento educativo nascente, ficará para trás. Mas, afinal, que novo tempo é este?

Até ao final da década de 80, a aquisição da informação era cara, trabalhosa e lenta. Com a revolução tecnológica, nos anos 90, os jovens estudantes têm, desde tenra idade, acesso às diversas fontes da informação. Por um lado, a aquisição do conhecimento se tornou mais barata, prazerosa e ultrarrápida.

Por outro, a retenção desse conhecimento, que antes dependia só de esforço e estudo, agora pode ser, em parte, substituída por recursos tecnológicos de armazenamento de informação. No entanto, boa parte da memorização continua a exigir bons hábitos de es­­tudo e reflexão.

É preciso, portanto, que toda a comunidade escolar tenha consciência dos riscos das novas tendências e não caia em ilusões educacionais. A primeira é acreditar que acabar com a decoreba torna mais fácil o ensino-aprendizagem.

Os futuros professores precisarão ser muito mais bem preparados e alinhar-se rapidamente às novas realidades. Para quem é aluno, é fundamental não desprezar os limites dos diversos campos das ciências (história, geografia, física etc.), pois só quando esses estão bem fixados na inteligência é possível passar para a interdisciplinaridade, exigência dos novos tempos. Caso contrário, o empobrecimento e a confusão intelectual serão uma realidade.

Um segundo aspecto que costuma iludir os alunos é acreditar que a facilidade de acesso à informação já lhes garante o conhecimento. A verdade é que o excesso de informação nunca chegará a ser verdadeira cultura se não houver um trabalho de assimilação e ponderação. Por isso, já afirmava Alejandro Llano de que “as relações eletrônicas têm uma índole fundamentalmente técnica, enquanto que as relações comunitárias ou familiares são basicamente humanas.

E as relações humanas são necessárias, por muito que avance a técnica. O crescimento da comunicação eletrônica globalizada deve ser acompanhado por um desenvolvimento equivalente da comunicação pessoal, por um cultivo das humanidades”. Esta análise muito aguçada do filósofo espanhol pode nos ajudar a entender o porquê de as pessoas atualmente buscarem se comunicar, mas sem ter o quê comunicar. E continua o filósofo:

“Quem recebe uma informação abundante e imediata, com velocidade e urgência, é quem mais precisa do critério para selecionar qual a informação relevante e qual a supérflua. Por isso, em vez de passar horas no celular ou ligado nos e-mails, o estudante precisa muito ler os clássicos para construir esse critério”. De fato, só com o conhecimento técnico, facilmente se cai no superficialismo ou na indiferença.

Em 2001, um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontava seis cenários possíveis para a escola do amanhã:
1) umas manteriam o status quo com ensino burocrático;
2) outras estariam no centro da coletividade, suprindo a ausência da família;
3) umas buscariam centrar-se na aprendizagem, muitas com novas tecnologias;
4) outras tornar-se-iam mero comércio, com tendências de educação a distância;
5) umas seriam assumidas por famílias e comunidades que procuram preservar seus valores;
6) outras sofreriam o êxodo dos professores e a desintegração do sistema por falta de motivação e condições ambientais.

Passados quase nove anos do relatório, se analisarmos o ensino privado brasileiro, poderemos constatar com pesar que o quarto cenário predomina. No ensino público, predomina o segundo cenário, com triste tendência para o sexto. É possível prever, portanto, que se não reagirmos lutando pelos cenários três ou cinco, os únicos que permitem a “boa decoreba”, dificilmente a educação sobreviverá a um futuro cada vez mais concorrido e exigente.


João Malheiro, doutor em Educação pela UFRJ, é diretor do Centro Cultural e Universitário de Botafogo (www.ccub.org.br).