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Uma conta que não fecha
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Nota:




A
crise do ensino superior brasileiro resulta de uma conta que não fecha.
De 1991 a 2007, o número de vagas disponíveis nas universidades subiu
446%. Mas a evolução do número de alunos não acompanhou este ritmo e
somente metade das vagas ofertadas foi ocupada.
A ociosidade
concentrou-se quase que integralmente nas instituições particulares,
que, por outro lado, foram responsáveis por 75% dos alunos
matriculados. Para piorar a situação, entre as vagas preenchidas,
muitas foram por alunos inadimplentes – a taxa de estudantes em dívida
com as faculdades é a maior dos últimos dez anos.
Com
tudo isso, só em 2007, 1.341.987 vagas ficaram ociosas em todo o país,
segundo o Censo da Educação Superior do Ministério da Educação (MEC). E
as universidades enfrentam situação financeira delicada, forçando o
governo federal a estudar um socorro. O Executivo já gasta cerca de R$
11 mil anuais com cada estudante matriculado nas universidades públicas
federais.
O quadro era bem diferente há dez anos, quando o debate sobre o ensino superior girava em torno da falta de vagas. Hoje, o baixo número de ingressos mostra que algo deu errado no caminho. A região brasileira campeã da ociosidade é a Norte, com 62% das vagas sem preenchimento. Em terceiro lugar está o Centro-Oeste, com 53%. O Sudeste vem logo atrás com 51%, o Sul com 40% e o Nordeste com 37%. E só 13% dos jovens brasileiros estão nos bancos universitários.
Dificuldades
A jornalista Danielli Pettennazzi Dias, 25 anos, é a prova de que quem deseja cursar uma universidade precisa de força de vontade. Ela sempre estudou em escolas públicas e quando terminou o ensino médio decidiu fazer vestibular para Jornalismo. Começou o curso ganhando pouco mais de R$ 200, mas tendo que arcar com uma mensalidade de cerca de R$ 600. Teve de fazer uma série de empréstimos para quitar as dívidas. A cada semestre sua inclusão no Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies) era um martírio. Ora exigiam fiador (algo muito difícil de se conseguir), ora a documentação estava incompleta.
O resultado é que um ano após a conclusão do curso, Danielli ainda acumula R$ 20 mil em dívidas. Agora trabalha em uma produtora e destina até 80% de seu salário para o pagamento das pendências. Há duas mensalidades atrasadas, dois empréstimos e mais o saldo devedor do Fies. Danielli foi a segunda pessoa de sua família a concluir um curso superior. “É uma conquista muito grande, mas que exigiu e ainda exige muito de mim”, diz.
O caso de Danielli não é exceção. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domícilio (Pnad) de 2007 revelam que apenas um a cada seis jovens vive em famílias com renda superior a dois salários mínimos e tem condições de pagar o estudo. Cerca de 14 milhões, ou 30% deles, são considerados pobres. Se por um lado o jovem não tem condição de pagar o ensino privado, por outro são justamente as particulares que absorvem a maior parte da demanda. Elas têm 75% dos alunos e quase 90% das vagas. O setor gera emprego, renda e contribui com cerca de 1% do Produto Interno Bruto (PIB). A universidade pública custa caro, cerca de oito vezes mais que o ensino básico e absorve, na maior parte dos cursos, pessoas com melhores condições socioeconômicas.
Socorro
O governo federal decidiu socorrer os cofres das instituições de ensino superior particulares. Não há indicativos nacionais da taxa de inadimplência no setor, mas, segundo pesquisa do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp), em 2008 foi registrada a maior taxa (24,5%) de alunos não pagantes desde 1999. Pautados nessa situação financeira das particulares, o Ministério da Educação (MEC) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) firmaram um programa de concessão de financiamento a instituições que apresentem bom desempenho acadêmico. O BNDES irá destinar R$ 1 bilhão para essa linha de crédito.
Mesmo diante do alto número de inadimplentes, o presidente da Associação Brasileira das Mantenedoras do Ensino Superior (ABMES), Gabriel Mário Rodrigues, desconversa quando o assunto é crise. “Vivemos um momento diferente. O ensino superior particular está se consolidando. Ainda tem instituições que não perceberam a mudança de mercado. Cada uma tem de saber para qual aluno trabalha”, diz. Rodrigues está à frente da associação que reúne 450 instituições de ensino superior, mas não sabe dizer ainda quantas vão recorrer à linha de crédito oferecida pelo BNDES. “É natural que as faculdades e universidades procurem recursos para se desenvolver. Não é só por causa da inadimplência que as instituições vão buscar recursos”, diz.
Expansão
Para os especialistas, a principal explicação para o quadro é a expansão descontrolada de universidades privadas, aliada à falta de investimentos públicos. Professor da Universidade de Brasília, Erasto Fortes Mendonça diz que na década de 1990 o Brasil teve de se adequar às regras de organismos internacionais de financiamento e por isso os recursos focaram o ensino fundamental. Durante oito anos, nenhuma universidade pública foi aberta. Isso permitiu a difusão de instituições particulares. E nem sempre houve aumento na qualidade. “Houve um boom na oferta de vagas e baixa demanda por pouca capacidade de pagamento.”
As mensalidades representam uma fatia grande do salário dos jovens e
a relação custo-benefício acaba sendo cara demais. “Essa conta não
fecha porque estamos falando de um país pobre e culturalmente
empobrecido. As pessoas não vão para o ensino superior porque o país
não dá condições”, diz a coordenadora do curso de Pedagogia da
Universidade de Campinas (Unicamp), Maria Márcia Sigrist Malavasi.
“Se tivéssemos o panorama dos países europeus, todos iriam à
universidade. Mas quanto mais o jovem avança nos estudos, mais percebe
que precisa trabalhar e tem de escolher entre uma coisa ou outra.” A
reportagem tentou, por vários dias seguidos, ouvir a secretária de
Ensino Superior do MEC, Maria Paula Dallari Bucci, mas não obteve
retorno até o fechamento dessa edição.
Paraná acompanha tendência nacional
O Censo da Educação Superior do MEC não apresenta dados específicos por estado sobre a ociosidade das vagas nas instituições particulares. A reportagem da Gazeta do Povo entrou em contato com dez universidades privadas do Paraná para tentar traçar um panorama. Seis responderam às perguntas. É possível constatar que o estado acompanha os números do país. No Grupo Educacional Uninter, por exemplo, 70% das vagas eram preenchidas em 2002. Em 2007, foram apenas 28%. Neste período a instituição ampliou a oferta, passando de 2.045 para 7.611 vagas. Em 2009 a oferta reduziu, passando para 5.233, e o porcentual de matriculados melhorou, atingindo cerca de 50%.
Foram consultadas, ainda, a UniPositivo, a UniCuritiba, a Unibrasil, a Essei, a Unipar, a Universidade Tuiuti do Paraná, a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), a Uniandrade e a Opet. As quatro primeiras não responderam. Na Opet, a ocupação caiu 15% de 2002 a 2007 e a inadimplência dobrou. Para tentar reverter a situação, a instituição aderiu ao Prouni (Programa Universidade para Todos) e ao Fies, do governo federal, instituiu um programa próprio de financiamento e participa de um financiamento privado, o Pravaler. “A ociosidade e a inadimplência são os grandes desafios atuais de todas as instituições de ensino”, diz a superintendente de marketing e negócios corporativos do Grupo Opet, Cristina Swiatovski.
Na PUCPR, os índices de ociosidade e inadimplência estão abaixo da média nacional, mas a universidade não revelou os porcentuais. O pró-reitor de administração, planejamento e desenvolvimento, Valdecir Cavalheiro, diz que a abertura de cursos não acompanhou a demanda. Outro aspecto que deve ser observado é a capacidade de pagamento dos estudantes. “Por isso é preciso criar condições para que esse aluno possa entrar na universidade”, afirma. Cavalheiro aponta neste sentido que o Prouni foi uma iniciativa importante do governo federal.
A Tuiuti e a Unipar só revelaram o porcentual de inadimplência, que é, respectivamente, de 20 e 22%. A Uniandrade informou que o número de vagas é o mesmo desde 2002, mas que em alguns cursos o ingresso diminuiu em função da concorrência. A diretora pedagógica da instituição, Ana Maria Vogt, diz que o problema é que as faculdades não podem impedir a frequência dos alunos em função da falta de pagamento. “Um exemplo: nos cursos anuais, os alunos não pagam as mensalidades até o final do período e a instituição não possui um respaldo legal para impedir o acesso às aulas.” (PC)
1 Comentário:
|
Sep 12, 2009
Nota:
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Luciana disse:
Olá! tenho dificuldades
Agradeço, por |

Autor/Admin)
