Mesmo satisfeitos com a escolha da profissão, quase metade dos médicos nordestinos (40 entre 100) está pessimista, sem perspectivas de futuro. O Diario de Pernambuco vai mostrar os principais motivos que transformam os médicos da região em cópias da hiena Hardy, antigo personagem de desenho animado conhecido pelo bordão: "oh, céus, oh dia, oh azar!".

Grande parte dos profissionais (57%) está cada vez mais incerta em relação ao que está por vir. A realidade, para os doutores, está bem distante do que sonharam quando ainda se preparavam para o vestibular mais concorrido do país.

O estado que exprime uma melhor situação de alto astral é a Paraíba. Mas, ainda assim, os profissionais otimistas chegam a pouco mais de 21 entre 100 (21,6%), bem longe da metade. Já Pernambuco e Bahia são os mais pessimistas do Brasil, ao lado do Rio de Janeiro,no Sudeste do país. Os dados são do livro O médico e o seu trabalho - resultados da região Nordeste, publicado pelo Conselho Federal de Medicina. Realizado em 2005, é o mais recente perfil da categoria.

Na prática, os salários fazem parte das queixas mais frequentes para 55% dos doutores da região. O que um médico vale, na verdade? Esse é sempre um debate da classe e entre os professores com dissertação de mestrado e doutorado na área. Nas entrevistas feitas pelo Diario no período de 28 de abril a 10 de junho, todos se disseram insatisfeitos por ganharem menos que delegados, promotores e juízes, embora tenham uma carga de trabalho bem maior e uma rotina mais estressante. A principal justificativa dada é que se dedicaram por quase dez anos para se formar, mas não estão sendo reconhecidos.

Embora uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas reforce que esses profissionais são os mais bem remunerados do mercado, eles justificam precisar de inúmeros empregos e plantões para alcançar o padrão de vida desejado - comdireto a casa, carro e consultórios próprios. Em virtude da baixa remuneração alegada, os médicos se desdobram em jornadas exaustivas e que fazem adoecer.

Cerca de 36,3% dos 2.250 profissionais nordestinos trabalham de 41 a 60 horas, enquanto mais 21,8% deles se desdobram entre 61 a 100 horas semanais, mais que o dobro do trabalhador regido pela CLT. Ainda assim, dizem receber menos que os médicos do Norte, Centro-Oeste, Sul e Sudeste. De 100 profissionais,
só 48% dos nordestinos recebem mais de R$ 7 mil, abaixo de todas as regiões do país.

De volta ao passado - O peso do salário na vida do médico tem explicações no passado, segundo a professora Gislene Farias de Oliveira, com doutorado em Psicologia Social na Universidade Federal na Paraíba e tese sobre O Trabalho e o bem-estar subjetivo dos médicos. De acordo com ela, historicamente esse profissional possuiu prestígio por conta da relação individualizada com os pacientes. Ele era o médico da família, a pessoa procurada para curar qualquer tipo de problema.

Com o passar do tempo, apesar de ter se enquadrado ao modelo capitalista, esse doutor não tardou em se deparar com a instabilidade do emprego, jornadas extensivas, contratações precárias, perda de autonomia profissional. "Para manter o status, eles mergulharam numa busca desenfreada por muitos trabalhos. E isso terminou provocando insatisfação, infelicidade e adoecimento", observou Gislene.