Os resultados do Sistema Permanente de Educação Básica do Ceará (Spaece) que apontam baixos índices de aprendizagem dos alunos do Ensino Médio, em Português e Matemática, repercutiram amplamente no dia de ontem, após o Diário do Nordeste ter publicado, com exclusividade, a pesquisa sobre a dificuldade dos alunos em realizar leitura de textos e operações matemáticas básicas.

Durante o Encontro Estadual de Política e Administração da Educação, aberto na tarde de ontem, no auditório Banco do Nordeste, professores, diretores de escolas e coordenadores, discutiram o tema “Gestão da escola e da aprendizagem”, com aversão aos indicadores revelados na matéria.

“A atual condição do ensino no Ceará, que foi sendo consolidada ao longo de 40 anos devido a uma expansão massificada, é deplorável. A conseqüência foi deixar um legado de gerações despreparadas”, disse a presidente da Associação Nacional de Políticas e Administração da Educação, Maria Luiza Chaves, ao referir-se a reportagem.

Do mesmo modo, o conferencista Elízio Pazeto, doutor em Planejamento e Avaliação Educacional, retrucou o resultado e disse que o problema de aprendizagem inclui diversos fatores psicossociais que precisam ser acompanhados pelas escolas. “A aprendizagem significa, sobretudo, ter condições de aprender. Se a saúde não vai bem, se a família está desajustada, se existem problemas em outras ordens, eles vão interferir em todo o processo. Diante disto, é necessário um acompanhamento psicossocial. Uma equipe multidisciplinar deve atuar dentro das escolas para gerir todas a informações oriundas destas avaliações”, ressaltou.

A secretária da Educação Básica do Estado, Izolda Cela, disse que já existem projetos com este propósito. “Trata-se da figura do Diretor de turma, projeto piloto que já acontece em todas as escolas de educação profissional e deve se expandir para a toda a rede estadual”.
Cada sala tem um professor diretor de turma, que dentro de sua carga horária reserva um espaço para acompanhamento individual dos alunos, conhecendo a vida de cada um. “A família precisa estar mais na escola, não aceitar determinadas coisas como normais, tal como a falta de professor de Português”, disse a secretária.

Segundo Pazeto, como se não bastasse, os conteúdos curriculares não são adequados. “Aulas expositivas e unicamente teóricas são inadequadas aos dias de hoje, elas não trabalham na prática as reais dimensões de leitura, interpretação, escrita e fala dos alunos. Desde a década de 1940 o modelo escolar sempre foi o mesmo, de modo que todo o conhecimento sempre foi voltado para a teorização e não para a experiência”, denuncia.

Ainda de acordo com o especialista, o erro vai desde o conteúdo que é dado nas escolas até a metodologia que é aplicada. “As aulas de Português, por exemplo, devem ir para além dos muros das escolas; a aprendizagem deve ser vivencial. Os índices de avaliação que temos hoje trazem resultados por escola, terminando pro não dar conta de retratar a aprendizagem individualizada”.

Proficiência
Secretária reconhece dificuldades

A secretária da Educação do Estado (Seduc), Isolda Cela, reconheceu a importância de os estudantes dominarem as competências de leitura, assim como a necessidade de um acompanhamento mais aproximado dos resultados das avaliações. “Durante algum tempo observou-se que os resultados eram conhecidos, mas realmente tinham pouca repercussão nos sistemas e dentro das próprias escolas. Nos deparamos com professores que sabiam muito pouco dos exames, como também diretores e coordenadores. Uma das medidas fundamentais é fazer com que eles se debrucem sobre este material de análise”.

Isolda lembra que os resultados do Spaece são vistos há mais de dez anos e “mais do que nunca devem ser tratados pelas escolas como meta de superação. O que inclui também o acompanhamento por parte da Seduc. Para isto dispomos de um serviço chamado Superintendência Escolar, com equipes que observam a escola, os indicadores, a metas e a evolução das unidades.

“Hoje o nosso sistema avançou, para que cada escola tenha um boletim, com a exposição dos níveis de turma, de aluno por aluno. De modo que a escola também tenha a oportunidade de comparar o próprio desempenho com outras escolas da região e do Brasil. Ainda assim, o Ceará se situa na melhor condição com relação aos demais estados do Nordeste”.
 
A secretaria lembrou que a escolha da não reprovação foi adotada por muitos professores, o que trouxe resultados desastrosos. “Muitos dos alunos do Ensino Médio vem de processo de aceleração de aprendizagem, fazendo todas as series do ensino Fundamental II em um ano. Não podemos condenar esse programa, mas o nível de proficiência trouxe índices muito mais baixos do que o esperado, um resultado fruto de processos aligeirados, que tem o preço do quadro que hoje se apresenta”.

A orientação da Seduc é que cada escola monte o seu planejamento para superar os atuais resultados.