Quando o glaucoma de Leila Batista foi identificado, ela tinha 6 anos e já havia perdido a visão esquerda. Logo depois ficou totalmente cega. “Sentia muita dor nos olhos e passei boa parte da infância internada entre uma cirurgia e outra.” Aos 39 anos, ela vai realizar o sonho de concluir o ensino médio e prestar o Enem.

Portador de deficiência motora nos braços, provocada por paralisia cerebral, Ivon Dias, de 33, vai prestar Enem e Fuvest. “Tive de reclamar do local de prova do Enem, era muito longe de casa. Mudaram para um mais próximo.”

Leila e Ivon integram o grupo de 24,6 milhões de brasileiros portadores de deficiência, que representam 0,14% dos universitários do País. Essa participação pode crescer se passar no Senado projeto aprovado em abril pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que cria cota de 10% de vagas nas universidades públicas para portadores de deficiência.

Leis obrigam vestibulares a garantir que deficientes façam os exames. O Enem terá provas em braile e com letras ampliadas para deficientes visuais, que serão acompanhados por ledores caso necessário. Intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras) vão ajudar deficientes auditivos e candidatos com dificuldades de locomoção terão salas de fácil acesso. Na Fuvest, Unesp e Unicamp, os procedimentos são semelhantes: os portadores de deficiência têm o direito de pedir uma hora a mais de prova, exames e locais adaptados às suas necessidades.

Dos 29.750 matriculados na USP no primeiro semestre, 157 se declararam deficientes. Em média, 220 deles se inscrevem por ano na Fuvest e cerca de 80 pessoas participam da preparação e aplicação do exame. No vestibular de janeiro da Unesp, 58 portadores de deficiência prestaram o exame. Na Unicamp, o número gira em torno de 50 por ano.

“Nossa parte é feita, o problema é depois que eles entram na faculdade. Nem sempre encontram condições ideais, pois os prédios são antigos”, diz o coordenador do exame da Fuvest, Roberto Costa.

[ ]Lucas Maia, que é cego e concluirá o curso de Jornalismo da PUC-RJ este ano, acha que as cotas podem facilitar o acesso, mas não sabe se terão efeito no mercado de trabalho. “Mais produtivo que cota seria garantir que deficientes tenham capacitação para entrar na universidade. Mas isso não existe no Brasil.”[/ ]

“Só fui aceito em escolas regulares após a Constituição de 1988”, lamenta Ivon, que se prepara no Cursinho do XI, do Centro Acadêmico do Direito USP. Leila estuda num supletivo oferecido

pelo Cursinho da Poli e a UniSant’Anna, em parceria com a Federação Brasileira de Bancos. Além dos docentes, intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e ledores auxiliam os 135 alunos.

Leila registra o conteúdo das aulas com a reglete, prancheta com régua de alumínio usada para a escrita em braile. Seu colega Wellington Santana, que perdeu toda a visão aos 18 anos, utiliza o notebook para as anotações. “O ledor dita o que o professor escreve na lousa. A maior dificuldade é analisar gráficos”, explica.

Para outra aluna do supletivo, Vilma dos Santos, de 29, que perdeu quase 100% da audição, o problema é a parte escrita de língua portuguesa. “O caso dela é o oposto do que ocorre com quem nasce surdo. Vilma foi alfabetizada em português e depois aprendeu a língua de sinais”, diz o intérprete Edilson de Andrade.


0,14%
dos universitários brasileiros são portadores de Deficiência

220

é a média anual de portadores de deficiência que prestam o exame da Fuvest