Em depoimento à PF, DJ afirmou que é amigo de homem que teria sido contratado por consórcio responsável pela prova. Com ela em mãos, eles foram até um empresário, que fez o contato com jornalistas. Para a polícia, são ‘amadores’

A Polícia Federal indiciou ontem dois suspeitos de fraudarem o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem): o empresário e publicitário Luciano Rodrigues e o DJ Gregory Camillo de Oliveira Craid. A PF está convencida do envolvimento deles na trama do vazamento das provas.

Rodrigues e Gregory foram interrogados à tarde na superintendência regional da PF em São Paulo. Depois dos depoimentos, eles foram liberados. A polícia não vê necessidade de pedir a prisão dos dois à Justiça. Gregory afirmou que Felipe Pradella foi quem obteve as provas e as repassou a ele.

Ainda não se sabe se Pradella é segurança do consórcio contratado para aplicação e logística do exame (o Connasel) ou se tinha a função de coordenar o manuseio dos cadernos de questões.

Ontem, a reportagem esteve na Gráfica Plural, onde foi rodado o gabarito do Enem. Pelo menos quatro funcionários disseram que Pradella fazia parte da equipe da segurança da editora. Não souberam dizer, no entanto, qual função ele exercia. “Diariamente, passa muita gente por aqui”, disse um profissional.

O acusado foi reconhecido pela fotografia publicada ontem pelo Jornal da Tarde. Segundo um deles, a empresa que presta serviço de vigilância para a empresa foi trocada há pouco mais de um mês. “É muito estranho tudo isso: trocarem a segurança há um mês do exame do Enem”, afirmou um profissional da editora.

O plano era vender os documentos “para repórteres” e “levantar um dinheiro”. A PF acredita que o escândalo que levou ao adiamento do Enem, que aconteceria neste fim de semana, foi protagonizado por “um grupo amador”. Após 72 horas de investigação, o inquérito está praticamente fechado na avaliação da PF. Falta localizar Pradella.

A PF quer saber se ele agiu sozinho ou se teve auxílio de alguém em posto mais graduado na equipe que atua no consórcio. Alguém que tivesse acesso ao cofre onde os papéis estavam guardados. A PF pretende estabelecer se Pradella conseguiu acesso aos papéis “no exercício do cargo” ou se furtou os documentos com a cumplicidade de algum superior.

Equipes policiais percorreram endereços do investigado. Se até amanhã ele não se apresentar, a PF vai requerer formalmente à Justiça Federal sua prisão e mandados de busca. A PF tem pressa. A Presidência da República pediu uma resposta o quanto antes. Por determinação de seu diretor-geral, delegado Luiz Fernando Corrêa, a PF quer concluir a missão no início da semana.

Na noite de sexta-feira, a equipe do delegado Marcelo Sabadin, que conduz a apuração, começou a procurar Gregory. Primeiro, os agentes foram a uma danceteria em Osasco, na Grande SP. Depois, bateram à porta da MySpace, balada da Rua Tabapuã, no Itaim. O DJ atua rotineiramente nesses endereços.

Às 3 horas de ontem, a PF fez contato com o advogado Antônio José Craid, pai de Gregory. Os dois estavam na casa da família, em Barueri, também na Grande São Paulo. “Estou me inteirando dos fatos”, disse o advogado à PF. O delegado convenceu Craid a apresentar o rapaz. Também foi antecipado o depoimento de Luciano Rodrigues, inicialmente marcado para amanhã. O empresário e publicitário foi à PF acompanhado de seu advogado, Luiz Vicente Bezinelli.

Sigilo

Luciano Rodrigues e Gregory foram enquadrados no artigo 325 do Código de Processo Penal, que define o crime de violação de sigilo funcional - revelar fato de que tem ciência em razão do cargo e que deva permanecer em silêncio. A pena prevista, em caso de condenação, é de 6 meses a dois anos de detenção. Eles foram indiciados também no artigo 327 que considera funcionário público, “para os efeitos penais”, quem, embora de maneira transitória ou sem remuneração, exerce cargo, emprego ou função pública - neste caso a pena será aumentada da terça parte. Gregory relatou à PF que, de posse das provas que lhe teriam sido entregues por Pradella, procurou o Rodrigues, seu amigo e dono de uma pizzaria nos Jardins. O encontro na pizzaria ocorreu na terça-feira à noite.

Gregory disse que está desempregado. Contou que Pradella é seu amigo “há mais ou menos 4 ou 5 anos” . “Esse amigo da gráfica sabia que eu tinha contato com a imprensa porque sou DJ e conheço repórteres”, disse. Segundo a PF, ele admitiu que pretendia vender a prova.

Rodrigues afirmou que não sabia da venda dos documentos. Disse que pretendia levar à imprensa o que considerava “um furo jornalístico de grande importância”. “Ele foi indiciado por divulgar documento público, não foi indiciado por ter participado do furto ou do vazamento”, declarou o advogado Bezinelli. “Estou achando um absurdo o indiciamento . Tanto que vou impetrar habeas corpus para trancar o inquérito contra ele.”

QUEM É QUEM

GREGORY CAMILLO DE OLIVEIRA CRAID, 26 ANOS
Foi um dos que tentaram vender o Enem à reportagem de O Estado de S.Paulo e fez os contatos telefônicos. É DJ em casas noturnas como Moon Disc e The Week, e organizava uma festa na Daslu para este mês. Tem seu perfil e foto em vários sites de relacionamentos e costuma arrumar convites vips para boates. O pai, advogado, é diretor jurídico da Câmara Municipal de Barueri. Tem 26 anos e era o mais educado durante conversa com a reportagem. Alega que não se envolveu com o roubo da prova e que Felipe a trouxe para que os dois negociassem. Já foi indiciado pela polícia.

FELIPE PRADELLA
Também foi um dos que se encontraram com a reportagem de O Estado de S.Paulo. Segundo Gregory, seria ele quem teria tirado a prova da gráfica, já que trabalharia como segurança da empresa contratada para supervisionar o processo. Ainda não foi localizado pela polícia. Aparentava 30 anos e tinha comportamento mais agressivo.

LUCIANO RODRIGUES, 39 ANOS
Publicitário e empresário, dono de uma pizzaria nos Jardins, na zona sul de São Paulo. Tem grandes tatuagens no braço direito e a cabeça raspada. Foi quem forneceu nomes de jornalistas e deu telefones para que a dupla fizesse contato. Ele alega que não sabia que Gregory e Felipe pretendiam vender a prova do Enem. Diz apenas que viu um timbre oficial no material que um deles levou à pizzaria e acreditava estar somente contribuindo para um “furo jornalístico” ao indicar pessoas da imprensa.