A Polícia Federal prepara um relatório sobre as falhas no esquema de segurança do consórcio responsável pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para evitar vazamentos como o que levou ao cancelamento da prova, no dia 1º.

Dois jovens, de 20 e 21 anos, tiraram na semana retrasada os cadernos de prova da gráfica onde foram impressos. Um deles levou o exame na cueca; o outro, enrolado em uma blusa. Nenhum dos dois foi revistado.

Para a PF, o furto das provas não exigiu muito planejamento daquele que é apontado como seu “mentor”, Felipe Pradella, de 32, contratado pelo consórcio Connasel para fazer a conferência, manuseio e embalagem dos cadernos, impressos na Gráfica Plural. “Ele percebeu certa fragilidade no esquema de segurança e recorreu a dois amigos ”, disse o delegado de Repressão a Crimes Fazendários da PF, Marcelo Sabadin Baltazar.

Os “amigos” são Marcelo Sena, 20, e Felipe Ribeiro, 21. A exemplo de Pradella, eles foram contratados pelo Instituto Cetro, uma das empresas do consórcio, para trabalhar durante dez dias. Receberiam R$ 600 cada um. Os furtos aconteceram nos dias 21 e 22, uma semana antes de Pradella ter procurado O Estado S. Paulo para oferecer o exame, por R$ 500 mil. O jornal comunicou imediatamente o caso ao ministro Fernando Haddad (Educação).

No dia 21, Pradella convenceu Ribeiro a retirar da área de impressão da gráfica o caderno 1 do Enem - com 90 questões que seriam respondidas no sábado por 4,1 milhões de candidatos - e sair com ele da gráfica escondido na cueca. No dia seguinte, segundo Sabadin, Pradella “sentiu-se mais confortável”.

Ele furtou o caderno 2, com as 90 questões da prova de domingo. Levou o exame para uma área de estoque de material da Plural e o escondeu na blusa de Sena. Coube a Sena sair com a “encomenda” da gráfica e guardá-la no carro de Pradella.

“Temos imagens dele indo até o carro”, disse o delegado, referindo-se às gravações do circuito interno da Plural. A PF divulgou ontem trechos dessas gravações, parte de um lote de 136 cópias de DVDs, repassado pela Plural.

Sabadin não adiantou o conteúdo do relatório sobre a segurança. “A saída de dois cadernos já é um indício muito forte dessa fragilidade.” Na avaliação dele, “amadores” desviaram o exame.

O superintendente em exercício da PF em São Paulo, Fernando Duran Poch, afirmou que no relatório a PF vai fornecer “subsídios de forma detalhada” ao Ministério da Educação (MEC). “A fragilidade foi da empresa contratada, que ganhou a licitação. Não houve fragilidade do governo.” Ele descartou qualquer tipo de motivação política no crime.

O Connasel não comentou as afirmações da PF, mas hoje deve se manifestar oficialmente. Além dos três contratados pelo consórcio, a PF indiciou o DJ Gregory Camillo Craid, de 26 anos, e o empresário Luciano Rodrigues, que trabalhou durante 15 anos na área comercial da Agência Estado. Segundo a PF, Pradella e os outros implicados disseram que Rodrigues “simplesmente passou os contatos da imprensa”.

“Primeiro a PF tem que provar”, disse a advogada Claudete Pinheiro, que defende Pradella. “O grande pecado da gráfica foi instalar um sistema de imagens excelente, mas sem monitoramento. Gravavam tudo, mas não havia acompanhamento on line da segurança. As imagens mostram uma menina que também aparece pegando a prova. Outras pessoas colocaram as provas sob as roupas.”

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