Números e relatos atestam sucesso do Braille Virtual
O professor de geografia Everton Vasconcelos teve a ideia de mostrar
para seus alunos como funciona o sistema Braille. Para isso, utilizou
um programa desenvolvido pela Faculdade de Educação (FE) da USP. A
iniciativa foi bem recebida pelos estudantes, que assim puderam
conhecer melhor a linguagem de escrita e leitura dos cegos.
Vasconcelos,
bem como seus alunos e a escola em que leciona, está em Santa Maria,
município do interior do Rio Grande do Sul localizado a cerca de 300
quilômetros de Porto Alegre.
O meio que ele utilizou para
aproximar seus estudantes do Braille - e também da USP - foi o projeto
Braille Virtual, criado pela FE e que comemora cinco anos em 2009. O
programa, que pode ser acessado pelo seu site ou ser “downloadeado”
para utilização em ambientes offline, ensina de maneira rápida e
simplificada a linguagem Braille.
Compreensão
O
público-alvo do Braille Virtual são as pessoas não-cegas. Ou
“videntes”, na terminologia mais adequada. O programa tem como
objetivos maiores a universalização e a desmistificação do Braille - ou
seja, fazer com que mais gente conheça a técnica e que a encare como
algo mais acessível do que uma primeira impressão pode sugerir.
Essa
meta, no caso do Braille, é essencial. Por mais que haja significativos
avanços na inclusão e educação das crianças cegas, permanecem alguns
“temores” de professores e colegas de classe no convívio. E entender o
que significam as “bolinhas” manuseadas pelas crianças que não enxergam
é um ótimo passo para que a inclusão seja mais plena.
A equipe
responsável pelo projeto ressalta que lançar mão da internet como
ferramenta para disseminação do curso é imperativo em um País com as
características do Brasil - de grandes distâncias e também com baixos
índices e ferramentas de acesso à cultura.
O Braille Virtual
também ambiciona que pais dos jovens cegos conheçam melhor as
ferramentas de comunicação dos filhos. Afinal, a criança cega, tal qual
a vidente, também precisa da ajuda dos pais em tarefas cotidianas, como
fazer um dever de casa. “Se o pai não consegue entender o que está
escrito no caderno do filho, ele não consegue ajudar. E com o Braille
Virtual, nós deixamos claro que o entender é um processo relativamente
simples”, conta a professora Nely Garcia, uma das coordenadoras do
projeto.
Simplicidade é realmente o tom do Braille Virtual. O que se
vê em duas dimensões: a primeira, no sistema Braille propriamente dito.
O Braille nada mais é do que a transposição do alfabeto convencional
para um em que as letras, numerais e sinais de pontuação se formam numa
combinação entre dois pontos na horizontal e três na vertical. Não há
novas letras, novos sinais, nada de específico da linguagem.
E o
outro elemento em que a simplicidade se faz presente é no manuseio e
interface do Braille Virtual. O curso completo pode ser feito em 12
horas. O programa tem o alfabeto transcrito para o Braille, frases
completas, exercícios e jogos, que colaboram para a fixação dos
conceitos. Não exige recursos pesados e nem um computador dos mais
potentes para ser rodado. Pode ser baixado, para reprodução em outros
computadores - e vale ressaltar que ele é aberto e tem sua replicação
autorizada e estimulada pelos criadores. E está disponível também nas
versões inglês e espanhol.
Início
A
motivação para criação do Braille Virtual nasceu quando a professora
Nely Garcia realizou, no começo da década, uma consultoria para o
Ministério da Educação. Na ocasião, a professora constatou que o
desconhecimento do Braille era endêmico e que prejudicava sensivelmente
o aprendizado das crianças cegas. “A linguagem Braille era ignorada
pela maioria dos professores. Num exercício em sala de aula, por
exemplo, jamais a redação de uma criança cega era avaliada”, conta.
As
pesquisas da professora levaram à criação do software Vide Braille I,
que ensinava a linguagem de maneira similar ao Braille Virtual. Mas a
falta de boas estratégias para divulgação fez com que o programa
acabasse por permanecer desconhecido.
Com o uso da internet, a
criação do Braille Virtual possibilitou a disseminação do sistema. “E
hoje ouvimos muitos professores dizendo que não dependem mais de
ninguém pra fazer a transcrição”, diz.
Sucesso
O
Braille Virtual foi lançado em 2004 e não contou com nenhuma estratégia
formal de divulgação. A existência do site foi repassada entre os
interessados via boca-a-boca. Ainda assim, logo nos primeiros meses
“O mundo todo está ampliando o acesso ao programa”, conta a professora Tizuko Morchida Kishimoto, também responsável pelo Braille Virtual. Há referências ao Braille Virtual em páginas de empresas e instituições governamentais de diferentes países, sem contar um posicionamento em todas as regiões do Brasil. A adaptação do programa aos idiomas inglês e espanhol levou o Braille Virtual a ser significativamente acessado nos continentes norte-americano e europeu.
Com isso, os depoimentos elogiosos e experiências positivas com o programa se criam em escala exponencial. Os relatos que chegam à equipe da FE trazem frases como “o curso veio de encontro à minha necessidade como educadora”, “nós que temos familiares com deficiência visual sabemos da importância desse trabalho”, e “sou cega e gostaria de parabenizar todos os envolvidos na realização do projeto. Iniciativas como esta são fundamentais se queremos uma sociedade mais inclusiva”.
A diversidade dos elogios reflete a variabilidade do público que chega ao site. Familiares de cegos, educadores, “curiosos”, militantes - embora de diferentes vertentes, pessoas que acreditam na inclusão dos cegos e que também apostam na tecnologia como uma ferramenta eficaz para superar as barreiras costumeiras. Barreiras como a da distância, posta abaixo pela união entre um sistema bem desenvolvido e a disposição de pessoas como o professor Everton Vasconcelos, do interior do Rio Grande do Sul. “Ainda que eu não tenha contato direto com pessoas cegas, acredito que diminuir preconceitos é tarefa de todo educador. Por isso utilizei o Braille Virtual com os meus alunos, e afirmo que todos os professores deviam adotar práticas semelhantes”.


