Em papo com o conceituado professor André Fozzy, falamos do Enem. Mal, naturalmente, porque o tal Exame Nacional inventado pelo MEC parece ter perdido até seu mérito inicial, que era o de avaliar o Ensino Médio, coisa que realmente faz falta.

A folhas tantas, disse o Fozzy que, examinando a prova que vazou na parte de Biologia, se conclui com serenidade que muita gente ia gabaritá-la, ia acertar cem por cento.

Sendo assim, tais alunos não iam ser diferenciados, para efeitos de classificação – porque o ENEM não se contentou em ser uma avaliação do Ensino Médio, tendo passado, pela força do orçamento e da política, à condição de exame de seleção para o ensino superior, já que várias universidades o adotarão como vestibular –, e portanto restaria à prova de redação a tarefa de distinguir entre os candidatos de ótimo rendimento.

Até aqui não teríamos maior problema, a não ser pelo gigantismo do Enem e pela sistemática empregada na avaliação da redação. Gigantismo: trata-se de um exame de admissão a que concorrem milhões de candidatos, logo, algo impossível de abordar com qualidade na área da redação, que requer um controle muito fino e muito rígido dos critérios de avaliação.

Sistemática: a avaliação das redações não será, como sempre tem sido em vestibulares sérios, com a equipe de avaliação reunida, com coordenação e capacidade de solver dúvidas e unificar procedimentos. Não: as redações serão escaneadas e enviadas para avaliadores que estarão sabe-se lá onde, sabe-se lá em que condições, sujeitos a sabe-se lá quais injunções e pressões. Dá pra confiar nesse sistema? Não.

E nem falamos de outro aspecto, que o ministro apresentou como um mérito excelso do Enem. É que os candidatos poderão inscrever-se para, digamos, vários cursos de Medicina Brasil afora, num sistema on-line que vai funcionar (se é que vai) como uma bolsa de apostas, em que a cada dia o sujeito vai poder aferir em que posição
está o curso pretendido, e assim vai poder mudar sua opção até a véspera do fim. Disse o ministro que vamos ficar mais parecidos com os Estados Unidos, em que muita garotada sai de sua terra para fazer faculdade.

Pergunto ao leitor: sabe quem vai se beneficiar desse sistema? Bingo: os alunos das principais cidades, por exemplo São Paulo, que tem ótimo Ensino Médio e muito poucas vagas superiores. Assim, as vagas dos cursos de Medicina em Palmas, Teresina, Pelotas, talvez Porto Alegre (na UFCSPA já ocorre isso), tenderão a ser preenchidas por aqueles alunos dos grandes centros, e não pelo pessoal da cidade e do Estado. Nada contra o trânsito e a migração interna, pelo contrário.

Mas devo perguntar: esses alunos, uma vez formados, permanecerão para devolver à sociedade local o que ganharam dela? Ou preferirão voltar ao concentrado mercado, digamos, paulista? E a universidade que arcou com as despesas desses alunos, vai ficar como?