Vazamento do Enem Serviu de Alerta Para Responsáveis Por Grandes Vestibulares, Que Reforçaram Esquema Antifraude.

Foi chocante. No início do mês, a três dias do Exame Nacional do Ensino Médio, um alerta de vazamento da prova, feito pelo Estado, levou o Ministério da Educação a cancelar o Enem. Transtorno para alunos, sinal de alerta para coordenadores de vestibular. “Depois do escândalo, todos estão mais atentos”, diz Renato Pedrosa, coordenador da Comvest, organizadora do exame da Unicamp.

Para enfrentar o momento delicado, instituições de ponta do País reforçaram sistemas de segurança que já eram rigorosos. Os cuidados começam na preparação do exame. Quanto menos pessoas conhecerem o conjunto das questões, melhor. “Na 1ª fase, só eu e mais um colega tínhamos acesso à prova completa”, diz Leandro Tessler, antecessor de Pedrosa na Comvest. Em muitos exames, quem escreve exercícios de Física, por exemplo, não sabe quem está fazendo os de Matemática.

A digitação da versão final é cercada por todos os lados. Na Vunesp, que prepara o vestibular da Unesp, há uma espécie de bunker para esse fim. “Além da segurança armada no entorno do prédio, criamos um espaço em que só se entra após a checagem eletrônica das digitais”, diz Edwin Avolio, diretor de Planejamento e Desenvolvimento. Apenas oito pessoas, todos funcionários de carreira, participam desse trabalho. “Lá, todos os computadores ficam fora de rede, para evitar ações de hackers.”

O passo seguinte é a impressão, exatamente a etapa em que a prova do Enem foi furtada, temida por todos os organizadores dos vestibulares. “Quando vai para a gráfica, abre o flanco. Entram novas pessoas no circuito, como os operadores das máquinas”, diz Regina Denigris, que coordenou a seleção da PUC-SP de 1989 a 1999. Segundo ela, nessa fase, o mais importante é o acompanhamento de perto do trabalho. “Tem que ficar do lado de cada prensa. Uma equipe reveza com outra”, diz.

A escolha da gráfica também deve ser criteriosa. As mais experientes no setor de vestibulares isolam setores para o serviço, revistam funcionários e eliminam vestígios. “Todas sobras e aparas são trituradas”, diz Adriana Leal Vasconcellos, gerente de Gestão de Qualidade da Posigraf, maior empresa do ramo no País.

“No caso do Enem, fiquei surpreso com a fragilidade do esquema de segurança do consórcio na impressão”, diz um professor que cuidou do vestibular de uma grande universidade e pediu para não ser identificado. Ele afirmou que temia muito mais um vazamento na distribuição, quando a prova chegasse a locais distantes. “Já soube de prefeito no interior da Bahia que pressionou diretora de escola a dar atestado de pobreza para o filho ganhar bolsa do ProUni. Imagine o que pode acontecer com o Enem, que vale vaga na universidade pública.”

Em exames das universidades paulistas, o número de candidatos e locais de prova é bem inferior aos do Enem, o que reduz riscos. Normalmente, é a equipe de primeiro escalão dos órgãos organizadores que leva caixas lacradas aos locais de exame - eventualmente com escolta. No dia D, há uma cartilha a ser seguida, como a revista dos locais de exame. “A prova tem cinco versões, com as mesmas questões, mas em outra ordem. Alunos vizinhos nunca terão o mesmo gabarito”, afirma Maria Thereza Fraga Rocco, diretora-executiva da Fuvest.

Artifícios tecnológicos também estão sendo usados. A Universidade Federal do Paraná recorre à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que ajuda na detecção de sinais telefônicos nos prédios. “Também usamos detector de metais e coleta da digital no cartão-resposta”, diz Raul Von Der Heyde, responsável pelo processo seletivo.

Com tantas preocupações, a tensão vivida pelos coordenadores pode ser até maior que a dos candidatos. “Eu dormia uns dois dias na gráfica”, lembra Regina, da PUC-SP, que usava métodos pouco ortodoxos para se prevenir contra vazamentos. “Dizia para os funcionários irem aos bares perto do câmpus. Falava para sondarem a venda de gabarito. Se achassem, a ordem era: ‘Compre, que eu pago!’”