No último 17 de setembro, a Cotec, comissão de profissionais responsável pela confecção e aplicação das provas do vestibular da Unimontes – Universidade Estadual de Montes Claros, notificou os candidatos sobre a inédita introdução de oito questões de Filosofia e Sociologia já no próximo processo seletivo, marcado para o dia 13 de dezembro. Os pré-vestibulandos, muitos dos quais desprovidos de qualquer familiaridade com as novas disciplinas, condenam a medida, justificando-se pelo curto prazo para assimilar os conceitos referentes a elas.

A mudança decorre da aprovação, neste semestre, de um projeto que tramitava há anos na Unimontes, cujo autor é o chefe do departamento de Filosofia da própria universidade, o professor Antônio Wagner.

Mestre pela PUC/RJ e doutorando pela UFMG em Filosofia, o professor, com exclusividade, concedeu a seguinte entrevista a O NORTE, na qual menciona diversos conselhos aos pré-vestibulandos.

- Com a inclusão das questões de Filosofia e Sociologia, quais as alterações sofrerá a prova tradicional do processo seletivo da Unimontes?

- Quanto à metodologia, não haverá grandes alterações. Apenas o acréscimo de quatro questões de filosofia e quatro de sociologia, todas de múltipla escolha e com peso 03 para cada uma dessas disciplinas.

- As provas do PAES (Programa de Avaliação Seriada para Acesso ao Ensino Superior) também serão modificadas?

- As provas do PAES não terão questões de filosofia e sociologia a serem respondidas pelos vestibulandos no 1º processo seletivo 2010, mas é possível que isso ocorra nos próximos vestibulares.

- Apesar da grande importância da filosofia e da sociologia, elas ainda são timidamente exploradas na maioria das escolas do país. Apesar dessa realidade, o que despertou a ideia de propor a inserção de questões de filosofia no vestibular da Unimontes?

- Essa inserção da filosofia no vestibular não deve ser entendida como algo pragmático, técnico ou utilitarista do ensino. A filosofia, pelo seu caráter reflexivo e profundamente comprometido com as causas do homem, situa-se no mundo, estando além das escolas e universidades. A escola precisa investir na educação do ser humano não apenas instrumentalizando-o para exercer uma dada profissão, mas para que o mesmo saiba interpretar e compreender a dinâmica da vida. Muitos alunos ingressam na universidade trazendo do Ensino Médio um total desconhecimento quanto aos conceitos e formulações teóricas dos grandes pensadores, o que às vezes dificulta a assimilação de questões relacionadas aos estudos. Em alguns países, por exemplo, o que o aluno aprende de filosofia no Ensino Médio equivale a quase uma graduação no Brasil. Todos os cursos da Unimontes possuem disciplinas filosóficas em seus currículos. Além disso, na última avaliação do Conselho Estadual de Educação (CEE), a Unimontes ficou com conceito A; dado seu corpo docente qualificado e composto, em sua maioria, por mestres e doutores. Portanto, o que despertou a ideia dessa medida foi a necessidade de possibilitar aos estudantes o exercício da reflexão e um maior contato com o universo da filosofia.

- Por mais que só se tenha oficializado a cobrança de tais disciplinas na prova da Unimontes há pouco mais de um mês, desde quando o Departamento de Filosofia, como proponente dessa inserção, luta por esse objetivo?

- A proposta de se inserir a disciplina de filosofia no vestibular da Unimontes começou mesmo a ser pensada em 2002, entre um grupo de alunos. Assumi a coordenação do curso de filosofia em 2005 e no ano seguinte resolvi colocar essa questão como uma das nossas prioridades.

- Do que dependeu a aprovação do projeto e qual o percurso tomado por ele até ser aprovado?

- Em 2006, juntamente com o professor João Roberto de Oliveira, ex-chefe do Departamento de Filosofia, organizamos o “I Seminário de Ensino em Filosofia”, cujo objetivo era discutir a situação do ensino de filosofia nas escolas de Ensino Médio e a possibilidade de inserção da disciplina no vestibular da Unimontes. A partir da realização desse evento, elaborei o projeto intitulado “Projeto de inclusão da Filosofia no processo seletivo da Unimontes” e apresentamos à pró-reitoria de ensino e à Cotec, que a essa altura já estava sob o comando do seu atual presidente. Coincidentemente, nesse período, foi aprovada a Lei Federal que institui a obrigatoriedade do ensino de filosofia e sociologia em todas as escolas brasileiras. Daí a Universidade julgou conveniente também contemplar a disciplina de sociologia no vestibular.

- Também era diretriz do projeto anunciar a medida em um curto intervalo de tempo antes da prova?

- Não. A responsabilidade pela divulgação dessa medida ficou a cargo exclusivamente da Cotec, através de nota publicada no site oficial da Unimontes no último 17 de setembro.

- Parcela significativa dos pré-vestibulandos montes-clarenses não têm sequer uma noção do que seja a filosofia e/ou sociologia. Isso, obviamente, tem desesperado muitos dos candidatos. Uma vez levado em conta o curto espaço de tempo anterior à prova com que a Cotec notificou os estudantes, o senhor considera possível assimilar, nesse período, todas as informações tangentes a ambas as disciplinas a fim de se realizar uma boa prova?

- Infelizmente não. Tanto a filosofia quanto a sociologia possuem determinados graus de complexidade. Se o aluno estivesse inserido num contexto de valorização dessas disciplinas desde cedo, certamente agora ele estaria mais apto a lidar com elas. Na época do regime militar essas disciplinas foram excluídas dos currículos escolares e proibidas de serem lecionadas nas universidades. Vejam só que coisa bizarra! Hoje, porém, quando se pode escolher de maneira livre e criteriosa o que ensinar aos alunos, os sistemas educacionais continuam tratando essas disciplinas como algo insignificante e desnecessário.

- O senhor poderia esclarecer aos nossos leitores, de modo bem sucinto, os principais conceitos de filosofia e de sociologia?

- Conceituar filosofia e sociologia não é tão simples assim. São dois modos indispensáveis de conhecimento e absorção dos problemas humanos. Cada qual com as suas peculiaridades. A filosofia não é ciência como muitos pensam. Ela está além da ciência e, ao mesmo tempo, fundou a ciência. A filosofia é a manifestação da racionalidade descoberta pelos gregos, resultando na formulação de conceitos precisos sobre as coisas, o mundo, a realidade como um todo a partir de determinados métodos, o que a faz distinguir-se do senso-comum. É a pergunta que move do ato de filosofar.  Ocorre-me agora uma máxima de Voltaire que diz o seguinte: “devemos julgar um homem mais pelas suas perguntas do que pelas suas respostas”. Já a sociologia corresponde a uma ciência específica que visa analisar e aprofundar os fenômenos sociais, tendo, portanto, o estudo das sociedades como objeto imediato de investigação.

- Um fato que nos chamou a atenção foi o caráter vago do comunicado emitido pela Cotec no último 17 de setembro. Expuseram-se diversos tópicos referentes às duas disciplinas, mas sem ao menos indicar qualquer referência bibliográfica, o que contribui novamente para a insegurança dos estudantes. No que se refere a isso, que direcionamento o senhor proporia aos candidatos?

- Não há dúvida de que a Unimontes está no caminho certo ao exigir dos seus vestibulandos conhecimentos nas áreas de filosofia e sociologia. Para atingir melhor este objetivo, é necessário se ater a dois aspectos que devem ser considerados para os próximos concursos: a indicação de textos extraídos das obras dos filósofos e sociólogos para estudo dos vestibulandos e a elaboração de questões abertas e não de múltipla escolha, uma vez que tais disciplinas possuem um caráter eminentemente discursivo, o que facilitaria a avaliação da capacidade crítico-argumentativa dos candidatos. Para ser franco, não tenho um direcionamento a propor com relação a essa insegurança dos estudantes. Creio que agora o que se tem a fazer é freqüentar boas aulas e se dedicar aos estudos, baseando-se no que se apresenta no Programa de Conteúdo. O Departamento de Filosofia chegou a elaborar uma lista com indicação bibliográfica de quatro textos de filósofos (sendo eles, Platão, Santo Agostinho, Descartes e Foucault), porém a Cotec optou por não acatar essa indicação, o que é lamentável, pois outras renomadas universidades que incluíram filosofia em seus vestibulares indicam obras ou textos para leitura. A Universidade de Brasília (UnB), por exemplo, além de indicar obras, também indica filmes com conteúdos geradores de reflexão filosófica.

- Além dos próprios estudantes, a notícia surpreendeu também as instituições de Ensino Médio, que agora se vêem na obrigação de contratar professores, adquirir materiais didáticos, reconfigurar cronogramas em tempo recorde. O que o senhor poderia indicar a essas escolas comprometidas com o bom desempenho de seus alunos nos vestibulares?

- Creio que essa medida está realmente movimentando as escolas, mas se elas, desde antes, fossem mais preocupadas em valorizar a filosofia e a sociologia, oferecendo estas disciplinas aos seus alunos, promovendo eventos e atividades, seria mais fácil lidar com isso agora. Algumas escolas, além de destinar uma carga horária irrisória para estas disciplinas, ainda cometem o grande erro de designarem professores de outras áreas para lecionar filosofia. Isto é um absurdo! É necessário e urgente rever essa situação. É inconcebível o fato de haver professores de história, geografia, matemática, lecionando filosofia apenas como complemento de carga horária, pois eles não têm formação adequada e conhecimento para ensinar o que trata o pensamento de grandes filósofos. A escola deve colocar bons professores de filosofia para desenvolver um trabalho que desperte nos alunos a autonomia do pensamento crítico. A meu ver, cabe à Superintendência Regional de Ensino (SRE) procurar alternativas para acabar com esse desrespeito cometido contra os profissionais da área de filosofia e contra os próprios alunos que acabam ficando desprovidos da oportunidade de aprender. A Unimontes, a cada ano, forma professores de filosofia, tanto a nível de graduação quanto a nível de pós-graduação lato-sensu. Portanto, não vale o pretexto de que não há profissionais qualificados para o ensino de filosofia.

- Que outras universidades cobram filosofia e sociologia em seus processos seletivos?

- Além da Unimontes, as universidades brasileiras que já exigem filosofia em seus vestibulares são a UFMG, a UFLA, a UFSJ, a UFRJ, a UFU, a PUC/SP e a UnB. Quanto às que exigem sociologia, não sei dizer.

- O senhor acredita que as questões propostas pela Unimontes referentes às aludidas disciplinas se assemelhem com as formuladas pelas universidades citadas anteriormente?

- Por mais que não conheça as questões que serão cobradas no vestibular, é possível que a COTEC tome outras universidades como referência.

- Quais fontes de estudo o senhor indicaria aos candidatos?

- Em se tratando de fontes de estudo, sugiro inicialmente a leitura de um bom livro de História da Filosofia, já que o Programa de Conteúdo acabou ficando muito extenso. Creio que é importante o candidato possuir noções sobre a origem da filosofia e a sua relação com a mitologia, noções sobre ética, filosofia política, estética, teoria do conhecimento, procurando entender o que se propõe cada uma destas áreas da filosofia e as suas características. Além disso, uma fonte essencial é um bom professor de filosofia, para que ele auxilie no esclarecimento de alguns conceitos e elucidação dos conteúdos filosóficos.

- Levando-se em conta a sua experiência com a disciplina de filosofia, quais os assuntos o senhor considera mais prováveis de serem cobrados na prova?

- Considerando-se o fato de que se trata de uma primeira experiência para a Universidade, acredito que as questões a serem respondidas pelos vestibulandos serão bem elementares, sem muita complexidade, mas isto não significa em hipótese alguma que os candidatos não devam se preparar para as possíveis dificuldades. Devido a essa crise ética e política que o mundo atravessa - e de modo especial o nosso país -, pode ser que algo relacionado a isso seja um dos assuntos da prova a ser respondido a partir de alguma reflexão filosófica. Mas isto é apenas um palpite da minha parte.

- Que outros conselhos o senhor daria aos pré-vestibulandos para que eles obtenham um resultado satisfatório nas provas de filosofia e sociologia, seja no que se refere aos estudos, seja no que diz respeito ao momento da própria prova?

- O mais importante é o candidato se concentrar nos seus objetivos, não se dispersar. A prática da leitura é indispensável. Ninguém aprende sem ler, sem buscar o contato com o livro. Há muita gente que acha que é mais importante ver “Big-Brother Brasil” do que ler um livro. Perdemos muito tempo com futilidades e a filosofia nos ensina a sermos profundos. Entendo que os pré-vestibulandos têm que ter clareza das razões pelas quais estão lendo filosofia e sociologia para ingressar na Universidade. O caráter humanista da filosofia deve ser sempre claro para o aluno. Ele precisa saber que é necessário obter conhecimentos filosóficos não simplesmente para ser aprovado num vestibular, mas ao contrário, porque a filosofia é o fundamento de todas as ciências e a manifestação mais evidente da racionalidade humana. Como disse Blaise Pascal: “o pensamento é a grandeza do homem”.