O vestibulando Luiz Tiago de Paula possui uma disfunção neurológica denominada câimbra do escrivão, ou seja, não consegue escrever de forma legível.

Para o exame precisa do computador e de não uma caneta. Já o candidato Rafael Tavares da Silva necessita de uma lupa para ampliar as letras da prova. Ele tem visão subnormal. A necessidade de Ricardo Rovere De Santi é de um profissional que escreva as respostas que ele dita, em função de uma espécie de dislexia.

Cada um superou inúmeros obstáculos para chegar até a segunda fase do Vestibular Unicamp 2006. As barreiras foram mais difíceis do que as dos candidatos de uma maneira geral. Luiz Tiago, Rafael, Ricardo, assim como José e Vitor, compõem o grupo de portadores de necessidades especiais e, por isso, realizam as provas no Centro de Estudos e Pesquisas em Reabilitação Dr. Gabriel Porto (Cepre), no campus de Campinas.

Mesmo com os problemas que enfrentam, a vontade desses jovens em conseguir uma das 2.954 vagas oferecidas pela Universidade é a mesma dos demais. Afinal, na hora da disputa o que vale é o conhecimento e o raciocínio lógico do candidato. E, para que os vestibulandos tenham todas as suas necessidades atendidas durante este período, o grupo recebe atendimento especializado de uma equipe diferenciada de fiscais.

Profissionais da área médica como psicólogos e fisioterapeutas ou mesmo interpretes de Língua de Sinais Brasileira prestam assistência aos candidatos na realização das provas. Existem casos em que é preciso providenciar mesas e cadeiras diferenciadas; em outros, equipamentos como computador e lupas. Tudo para que o vestibulando não se sinta prejudicado na disputa pela vaga.

Pessoas especiais – Vencer as dificuldades é algo que Luiz Tiago já se acostumou. Ele teve o diagnóstico da disfunção câimbra do escrivão na infância e depois melhorou. No Ensino Médio, porém, o problema retornou e, com isso, enfrentou situações inusitadas como, por exemplo, ter que levar notebook para a escola. As provas, inclusive, eram feitas pelo computador. Negro e estudante de escola pública na região do Distrito Industrial (Dics), Luiz Tiago pretende uma vaga de Geografia. Sabe que a disputa é grande, mas está confiante, pois sua irmã freqüenta o mesmo curso que deseja.

O fato de contar com a assistência da Unicamp é algo que Luiz Tiago agradece. "A Unicamp está de parabéns com o atendimento prestado aos candidatos com necessidades especiais. No ano passado prestei vestibular em uma universidade pública paulista e percebi uma resistência em relação aos vestibulandos desta categoria. Eles não ofereceram praticamente nenhum tipo de apoio e adotaram uma postura conservadora em relação ao assunto. A reclamação era geral. Na Unicamp, além de ter duas horas a mais para realizar as provas, temos profissionais que nos auxiliam", destaca. Os momentos mais difíceis para Tiago têm sido na hora do cálculo. "Explicar de uma forma didática como cheguei ao resultado exige um raciocínio ainda maior, pois no papel se faz rascunhos", lamenta.

No Ensino Fundamental, Ricardo tirava notas muito baixas, mesmo sabendo bem a matéria. Isso chamou a atenção de seus pais, que o levaram para uma série de exames. Conclusão: descobriu que tinha uma espécie de dislexia. No Vestibular, Ricardo consegue fazer adequadamente, apenas, os cálculos das provas, mas os resultados e as questões dissertativas são escritos por um profissional. Por isso mesmo, sua expectativa é entrar na Unicamp, no Cursão, que envolve as opções de Física, Matemática e Matemática Aplicada. Vitor Campos também tem dislexia e não consegue realizar a prova no tempo de quatro horas. No ano passado até que tentou, mas teve muitas dificuldades e ficou metade da prova sem fazer. Este ano, ele veio de Taubaté para a disputa do curso mais concorrido, Medicina. Ele utiliza as seis horas disponíveis para resolver todas as questões. "Agora é muito melhor", comemora.

A opção de Rafael é Ciência da Computação. Apesar de fazer o curso na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro, ele tem a esperança de entrar na Unicamp e, com isso, ficar mais próximo da família, na vizinha Americana. Por conta da visão subnormal, acredita que terá mais facilidade de locomoção. O caso de José Alexandre D'Abruzzo Pereira é diferente dos demais. Desde sábado ele está com pneumonia, mas não quis deixar de prestar o exame para tentar uma vaga no curso de Ciências Econômicas. A sala para a qual foi destinado é climatizada e, por isso, a organização do Vestibular entendeu que seria melhor que se deslocasse para o Cepre. Lá existe equipe médica que poderia prestar algum socorro, caso fosse necessário. O pai, Paulo José, apoiou a iniciativa e gostou de saber que o filho ficaria sob cuidados especiais.