O ano começou. E agora? Temos diante de nós a perspectiva do novo. A maioria das pessoas fez suas promessas de mudança.

O começo de algo é sempre motivo de expectativas e mesmo os mais céticos chegam a acreditar: “... de repente, a felicidade existe”. E nós que vivemos num país de milhões de miseráveis e de uma minúscula elite opulenta, onde o crime organizado intimida e se impõe sobre o sistema de segurança nacional, onde a corrupção só é motivo de escândalo quando o sujeito não tem a chance de participar do esquema, onde jogar lixo pela janela do carro é algo insignificante e natural, onde ser celebridade é a meta comum dos adolescentes, onde a informação é dada por um único veículo para a maioria da população... É possível ser feliz no ano novo?

Podemos assumir atitudes diversas diante dessa questão. Podemos fingir que não é conosco e seguirmos firmes, frios e indiferentes em nossa sina de cidadãos mais ou menos consumidores e por conseguirmos sobreviver ao “sacrossanto direito e dever” de consumir, nos darmos por satisfeitos, não nos detendo nas mazelas do mundo.

Outra saída é ficarmos revoltados e fazermos “o que todo mundo faz”, tirando uma casquinha das oportunidades, afinal desde que o mundo é mundo “quem não aproveita a chance de se dar bem é otário”. Um grande parcela da população considera que o problema é externo: “ é o governo”, “são os outros” e por isso não dá pra resolver, o máximo que se pode fazer é ir para a janela e “ver a banda passar”. São muitas as possibilidades para encarar a realidade.

Entretanto, para nós que acreditamos que a história é movimento, é transformação, que acreditamos que somos sujeitos de nossas próprias vidas não dá para ser figurante em cenário tão lindo como esse que, contraditoriamente, é o nosso país e o nosso planeta. Não dá mais para pensar a nossa comunidade sem as teias que a conectam com o resto do mundo.

O nosso País é extraordinário. Indubitavelmente Gonçalves Dias ainda tem razão: “Nossos céus tem mais estrelas, nossas várzeas tem mais flores, nossas flores tem mais vida, nossa vida mais amores.”. É só ir ao Rio de Janeiro para citar um dos lugares mais emblemáticos e tudo isso se comprova, ou à Chapada Diamantina, ou à Ilha dos Amores, para ser mais fiel ao poeta citado...

Além de ser uma importante parte do planeta pela sua extensão e natureza exuberante; temos milhões de brasileiros que dignamente lutam sol a sol para garantir sua sobrevivência com garra e entusiasmo; temos a maior biodiversidade do planeta; existem pessoas nos mais variados ramos da produção científica que estão contribuindo para o avanço da qualidade de vida no mundo; porque existem milhares de pessoas engajadas em organizações que combatem as desigualdades sociais, criando oportunidades de educação, de trabalho...

São pessoas que acreditam que ser feliz é ser e fazer o melhor possível do lugar onde estão. São vidas cujo sentido não se esgota somente nas conquistas individuais fantasiosas e egocêntricas ( também importantes). Diante disso temos uma opção mais cidadã, no sentido mesmo de ser um Ser da pólis, é cada um assumir sua própria parte dentro do todo. É agir no aqui e agora com dignidade, com justiça, com responsabilidade pelo entorno e respeito a tudo e a todos.

É viver a generosidade nos pequenos gestos: Por que não sorrir primeiro, se sorriso atrai sorriso e bem-estar? Por que jogar o lixo pela janela, se manter a cidade limpa é saúde e conforto para todos? Por que dilapidar, destruir o patrimônio publico, se mantê-lo é garantia de uso imediato? Por que abusar dos recursos naturais, se usufruí-los com parcimônia é assegurar a continuidade da própria vida para a nossa e para as futuras gerações? Por que não ser justo com os demais, se a justiça é condição de legalidade e de harmonia social? Por que omitir a crítica ou posicionamento, se pode ser a contribuição para a mudança necessária?

É possível sermos felizes se buscarmos viver como protagonistas e em sinergia o presente. No ano que vem... seremos mais felizes ainda porque o “nosso mundo” já estará melhor.

Feliz aqui, agora e amanhã para todos.