No final de semana, fiz a prova do novo Enem. No primeiro dia, já comecei com uma impressão ruim da organização do evento. Fui a primeira a chegar à minha sala com a identidade, o cartão verde de confirmação e a folha óptica do questionário socioeconômico em mãos.

A fiscal me deu a folha óptica da prova de sábado e mandou assinar o caderno de presença. Então outra fiscal veio e disse que não era para assinar. Ficou um “assina, não assina”. Acabei assinando só ao final da prova. Entrei na sala e me sentei num lugar ao lado da parede. Outras meninas foram chegando e comentando que também estavam achando uma bagunça tudo aquilo. Uma delas comentou comigo que a fiscal não havia pedido a ela a apresentação do documento de identidade e a menina me disse:

– Como eles sabem que eu sou eu?!

Às 13h ainda vi gente entrando na sala. Na minha sala, as provas começaram atrasadas, às 13h07min. Então, antes de abrirmos os cadernos de prova, comentei com a fiscal que o horário que deveria acabar era às 17h37min e não às 17h30min, como estava escrito no quadro negro da sala. Ela riu achando que sete minutos não fariam diferença (o que discordo, pois se são aproximadamente três minutos por questão, em sete minutos poderíamos fazer duas questões a mais).

Durante a prova notei que em vários momentos a fiscal ficava de costas para os candidatos, na porta conversando com outros fiscais ou lendo revista, demonstrando completo descaso. Em um momento a menina que estava na minha frente se sentou de lado, dando perfeitamente para ela olhar a minha prova ou eu olhar a dela. A fiscal não falou nada. Notei também que podíamos nos levantar e ir ao banheiro sem nenhum acompanhamento dos fiscais. Quando fui ao banheiro tinha outra menina lá, podendo facilmente trocar informações se quiséssemos. Na minha sala podíamos comer durante a prova, deixar em cima da classe saquinhos de lenços de papel, comida – e não apenas lápis, caneta e borracha. Nossas bolsas podiam ficar embaixo da classe.

Quando faltava pouco tempo para a prova acabar, a fiscal disse que a prova não terminaria às 17h37min, mas sim às 17h30min. Levantei o braço e discordei dela pois sabia que tinha direito àqueles sete minutos. Ela me respondeu: “Se por sete minutos tu achas que vai te prejudicar,
então entra com um processo na Justiça”. Achei um desrespeito da parte dela, pois estudei o ano inteiro para aquela prova e sei que muitas vezes numa diferença de uma ou duas questões um candidato passa na frente de outro. A fiscal mandou entregarmos a prova. Como não havia terminado, chutei as últimas questões e a entreguei.

Quando saí da sala de aula fiquei na frente do colégio e após uns 10 minutos ouvi o sinal tocar, avisando o término do exame. Ou seja, no final acabei perdendo não sete, mas 17 minutos. Depois, conversando com alguns amigos, cada um me contava uma regra diferente em sua sala. Penso que se numa mesma escola as diferenças já existem, imagine no Brasil inteiro.

Processo de seleção unificado e centralizado em um país continental com tantas diferenças regionais como o nosso é uma atividade de elevado custo e elevado risco. Francamente inviável.

*Estudante de 18 anos, Julia fez as provas do Enem na Escola Municipal Vila Monte Cristo, em Porto Alegre