O primeiro dia de aula costuma ser marcado pelo entusiasmo, ansiedade e expectativa dos alunos sobre os novos colegas, professores e lições. Mas, para um grupo em especial de crianças e adolescentes, o desafio nesta volta às aulas é ainda maior e será marcado pela promessa de se dedicar mais aos estudos.

Para a estudante Fernanda Souza Teixeira, 17, a reprovação gerou uma frustração ainda maior que o normal. Ela terá que repetir o 3º ano do ensino médio e, por isso, não pôde fazer o vestibular como os colegas de sala no final do ano passado. Mesmo com a frustração, a jovem reconhece que não se dedicou o suficiente e garante que, a partir de agora, vai se esforçar mais.

"Eu reconheço que malandrei um pouquinho e que só comecei a estudar de verdade nos últimos três meses, mas já era tarde e não deu mais para recuperar as notas. Eu sabia que podia repetir o ano mas, no fundo, tinha esperança de passar. O resultado final é sempre um choque. Em 2010, vou passar direto e sem recuperação", promete.

Fernanda conta que, como o resultado só foi divulgado pela escola depois das festividades da formatura, ela chegou a participar da missa e a viajar com os colegas para Porto Seguro, na Bahia, para comemorar a conclusão do ensino médio.

A promessa de dedicação é a mesma na casa de Lucas de Oliveira Modesto, 10. Neste ano, ele terá que repetir a 3ª série. "Fiquei muito triste e pedi desculpas para minha mãe, mas já prometi que vou estudar mais. Sei que se tivesse me esforçado poderia ter passado de ano. Nas férias, não pude passear, só fiquei em casa vendo filme e pensei que não quero tomar outra bomba", garante.

Lucas conta que irá estudar em horário integral, de manhã e a tarde, mas mesmo se estiver cansado irá estudar à noite quando chegar da escola. "Vou estudar muito", garante.

Susto. A jovem Ana Luiza Souza Vieira, 17, revela que ficou muito abalada com a notícia de que iria repetir o 2º ano do ensino médio e, por isso, decidiu mudar o seu comportamento dentro e fora de sala.

"Fiquei chateada e chorei muito. Essa pode ser uma oportunidade para eu amadurecer. Algumas vezes, arrependo-me da bomba, e outras vezes penso que pode ter sido bom para aprender de verdade a matéria. Já prometi a mim mesma e a minha família que vou estudar mais", diz.
Ela conta que, nos momentos de tristeza, contou com o apoio da mãe que percebeu que ela tinha aprendido a lição.

"Não é nada bom saber que meus colegas estarão fazendo vestibular e eu não vou poder fazer a prova. Além disso, terei que me distanciar um pouco dos meus amigos", lamenta.

Família. Para o psicólogo e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Cristiano Mauro Assis Gomes, os pais devem avaliar se a repetência foi por uma dificuldade de aprendizado ou por falta de esforço do filho. Ele diz que não há uma punição que possa ser aplicada para todos.

"A bomba não tem uma relação direta com o desleixo. A punição deve ser definida de acordo com os valores e costumes da família. O importante é garantir que a criança entenda o por que daquele castigo e construa uma lição para ela", explica.

Segundo Gomes, os pais precisam estar mais atentos e presentes no processo educativo dos filhos durante todo o ano. "Na nossa cultura é comum os pais acharem que os filhos podem caminhar com as próprias pernas, mas não é assim".

Segundo o especialista, se o aluno não demonstrou esforço, os pais podem, por exemplo, fazer atividades que os estimulem. Uma ideia é propor a montagem de um quebra-cabeça. "Se a criança consegue montar um de 50 peças, proponha um de 100 peças e incentive o garoto a não desistir e faça junto com ele", aconselha.

Para melhorar
Dica. Segundo a psicóloga Juliana Diniz, uma estratégia para estimular os alunos menos interessados é ter em casa um ambiente de estudo agradável e sem distrações.

O professor de física do ensino médio Anderson Alves Souza, convive todos os anos com alunos repetentes em sala de aula. Para ele, a famosa “bomba” é um trauma muito grande para o aluno que vê os seus colegas passarem de ano e se distanciarem dele. O professor explica que dentro de sala existem dois tipos claros de repetentes.

“Aqueles que são indisciplinados tendem a se tornar uma influência negativa dentro do grupo. Eles acham que são mais experientes e tumultuam a aula e correm sério risco de tomar outra bomba. Mas também tem aquele aluno que, por um descuido, repetiu de ano. Neste caso, ele tende a melhorar e aprender a lição. Este tipo de aluno tende a ficar mais seguro porque já viu o conteúdo e se dedica mais. Ele se sai melhor na matéria que os outros”, avalia.

Durante o ano em que o estudante está repetindo a série, segundo a psicóloga Juliana Dini,os pais devem exercer o papel de motivação e não de cobrança constante. “Eles também têm uma lição a aprender: a de que precisam dedicar mais tempo do seu dia para o acompanhamento da vida escolar dos filhos”. (TT)