Confusões geradas pelo Enem e falta de critérios para programa que concede bolsas a mais de 150 mil estudantes atrasam em pelo menos um mês matrícula dos que dependem do benefício.

Os tropeços do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) espirraram no Programa Universidade para Todos (ProUni). A demora na divulgação dos resultados do exame e a falta de definição sobre os critérios de seleção do programa vão atrasar, em pelo menos um mês, a matrícula dos estudantes nas instituições particulares de ensino que oferecem bolsas de estudo. A essa altura do calendário, as aulas já começaram na maioria das faculdades e os futuros bolsistas do ProUni terão que amargar o prejuízo de aulas e trabalhos escolares perdidos e conteúdo atrasado. Para acalmar os nervos dos candidatos, o Ministério da Educação (MEC) promete publicar, até amanhã, uma portaria com todas as regras do programa que, este ano, vai oferecer 165 mil bolsas de estudo integral e parcial em todo o Brasil.

Para ter uma ideia dos transtornos, a lista de alunos selecionados para o ProUni em 2009 foi divulgada em 5 de janeiro do ano passado. Em 2010, mesmo estando em fevereiro, os estudantes ainda não sabem sequer se a nota obtida por eles no Enem será suficiente para pleitear uma bolsa de estudo. Além disso, há dezenas de dúvidas sobre critérios de seleção e prazos de inscrição. Nos anos anteriores, os candidatos a uma bolsa de estudos precisavam fazer o cadastro no site do MEC, informando até cinco opções de instituições de ensino, cursos e turnos entre os disponíveis no sistema do ProUni, e a nota considerada para o programa era soma dos totais obtidos nas provas de redação e de conhecimentos gerais do Enem dividida por dois.

Mas, com certeza, haverá mudanças este ano. Pela primeira vez, a nota do exame foi dividida por áreas (linguagens e códigos, matemática, ciências humanas e ciências da natureza) e o cálculo da média depende de um complexo sistema de computador, que usa modelo estatístico baseado na Teoria de Resposta ao Item (TRI). Para complicar ainda mais, muitos estudantes estão confusos diante de uma pergunta crucial: é possível se cadastrar no ProUni depois de fazer a inscrição no Sistema de Seleção Unificada (Sisu)? Pelo menos essa questão tem resposta certa. Segundo o MEC, os dois processos são independentes e um mesmo candidato pode concorrer a uma bolsa de estudo em universidades particulares credenciadas ao ProUni e também a uma chance no Sisu, que oferece 47,9 mil vagas em 51 instituições públicas de ensino.

Mas nem todo o turbilhão de incertezas e dúvidas tira dos alunos a vontade de concorrer aos benefícios do ProUni, considerado pelos especialistas um dos melhores programas de inclusão social nas universidades já criados no país. A estudante Célia Regina Moreira e Silva, de 20 anos, faz parte desse time. De olho numa vaga em medicina, ela aguarda ansiosa pela definição das regras do programa. "Minha prioridade é conseguir esse benefício do ProUni. Como as aulas já começaram, receio ficar um pouco atrasada, mas mesmo assim não vou desistir", diz Célia.

As universidades reconhecem os prejuízos para os alunos, mas prometem soluções alternativas para não penalizá-los demais. No Centro Universitário Newton Paiva, que deve oferecer cerca de 1,5 mil bolsas do ProUni este ano, o atraso na matrícula será recompensado em plantões de professores. "As aulas começaram e com certeza há perda para os estudantes, sobretudo nas aulas expositivas. Mas vamos dar monitorias para orientar os estudos autônomos e promover atividades para que os alunos não percam conteúdo. As reposições são sempre um sacrifício, mas vamos fazer concessões para não prejudicar os bolsistas", garante o pró-reitor acadêmico da instituição, Sudário Papa Filho.