1. Introdução

No fim da década de 1920, os setores que contestavamas instituições da República Velha não tinham possibilidade de êxito:os tenentes, após vários insucessos, estavam marginalizados ou noexí1io; as classes médias urbanas não tinham autonomia para seorganizar. Todavia, uma oportunidade abrir-se-ia para esses setores:uma nova divergência entre as oligarquias regionais e o golpe sofridopelo setor cafeeiro com a crise mundial de 1929.

2. Fatores da Revolução de 1930

•A dissidência regional: a indicação de Júlio Prestes pelo presidenteWashington Luís como candidato do governo à Presidência na eleição de1930, ao que parece, para que sua política de estabilização financeiranão fosse interrompida, não foi aceita por Antônio Carlos Ribeiro deAndrade, presidente do Estado de Minas Gerais. Rompia-se a Política doCafé-com-Leite.

Antônio Carlos, a fim de enfrentar o governofederal, realizou uma aliança com o Rio Grande do Sul e a Paraíba. NoRio Grande do Sul, o Partido Republicano e o Partido Libertador tinhamchegado a um relativo acordo, o que fortalecia o Estado no planonacional. Ao Rio Grande do Sul foi oferecida a candidatura àPresidência, e à Paraíba, a candidatura à Vice-Presidência. Juntaram-sea eles o Partido Democrático de São Paulo e outras oposições dosEstados, dando origem a uma coligação denominada Aliança Liberal(1929). Dela faziam parte velhos políticos como Borges de Medeiros eAntônio Carlos Ribeiro de Andrade, e os ex-presidentes Epitácio Pessoa,Artur Bernardes e Venceslau Brás. Foram lançadas as candidaturas deGetúlio Vargas para presidente e de João Pessoa para vice.

Oprograma da Aliança Liberal satisfazia as aspirações dos setoresopostos ao cafeeiro, ao proclamar que todos os produtos nacionaisdeveriam ser incentivados, e não somente o café, cujas valorizaçõesprejudicavam financeiramente o País. Outrossim, pretendendosensibilizar as classes médias urbanas, o programa defendia asliberdades individuais, o voto secreto, a participação do PoderJudiciário no processo eleitoral, leis trabalhistas e anistia política.
Apesarda grande repercussão de sua campanha nos centros urbanos, oscandidatos da Aliança Liberal foram derrotados, pois a grande maioriados Estados alinhava-se com o presidente Washington Luís.

• A crisede 1929: embora seja certo que a crise mundial repercutiu com maisintensidade no Brasil em 1931, é preciso considerar que seus efeitosiniciais já abalavam o setor cafeeiro. Esse fato foi percebido pelosadversários da oligarquia cafeicultora, que nele viram uma oportunidadede derrubá-la.
Por outro lado, o setor cafeeiro e o governo federalestavam distanciados por este ter recusado auxílio no início da crise.Os grupos dominantes de São Paulo, embora tivessem marchado com acandidatura de Júlio Prestes, não estavam dispostos a uma luta armada.


3. O movimento

Coma derrota eleitoral, os velhos políticos da Aliança Liberal - comoBorges de Medeiros - pretenderam compor-se com os vitoriosos, comogeralmente acontecia na República Velha. Mas existia na Aliança uma alade políticos jovens (Maurício Cardoso, Osvaldo Aranha, LindolfoCollor, João Neves, Flores da Cunha, Virgílio de Melo Franco eFrancisco Campos) que não se conformava com uma situação na qual suaascensão política permanecia dependente. Portanto, optaram eles pelavia armada e, para isso, aproximaram-se dos tenentes, como JuarezTávora, Ricardo Hall e João Alberto.

A conspiração sofreu váriasoscilações por causa da posição conciliatória dos velhos oligarcas daAliança Liberal, inclusive do próprio Getúlio Vargas, o que provocouseu esfriamento. Porém, foi alentada pela "degola" de deputadosfederais eleitos por Minas Gerais e Paraíba (maio de 1930), quebrando aPolítica dos Governadores e pelo assassinato de João Pessoa (julho de1930) em Recife, por motivos ligados a problemas locais, masexplorado politicamente pelos conspiradores, e pela adesão do gaúchoBorges de Medeiros, em agosto do mesmo ano.

Os tenentes foramaproveitados por sua experiência revolucionária, mas a chefia militarcoube ao tenente-coronel Góis Monteiro, elemento de confiança dospolíticos gaúchos.

No dia 3 de outubro eclodiu a revolta no RioGrande do Sul, e no dia seguinte, sob a chefia de Juarez Távora, noNordeste. Dela participavam tropas das milícias estaduais e forçasarregimentadas por "coronéis". Das tropas do Exército, várias aderiramao movimento, algumas mantiveram-se neutras, e poucas resistiram. Emvários Estados os governantes puseram-se em fuga.

Quando se esperava umchoque de grandes proporções entre as tropas que vinham do Sul e as deSão Paulo, o presidente Washington Luís foi deposto, no dia 24, por umgrupo de altos oficiais das Forças Armadas, que tinham a intenção deexercer um papel moderador. Formou-se uma Junta Governativa Provisória,intitulada Junta Pacificadora, integrada pelos generais Mena Barreto eTasso Fragoso, e pelo almirante Isaías Noronha.

Após algumas hesitações, a Junta passou o poder para Getúlio Vargas no dia 3 de novembro.


4. Conclusão

Em1930, a crise que se configurara ao longo da década atingiu suaculminância: as oligarquias regionais dissidentes optavam pela lutaarmada, o descontentamento militar ganhava novo alento, as classesmédias urbanas, insatisfeitas, constituíam um amplo setor de apoio.Nesse momento, o setor cafeeiro era atingido pelos primeiros efeitos daCrise de 1929 e se distanciava do Governo Federal. Daí a possibilidadede vitória de uma revolução.

Portanto, um fator externo - a Crise Mundial de 1929 - combinou-se com o agravamento de contradições internas.
Osetor cafeeiro continuou representando o papel fundamental na economiado País, mas, com a derrota, perdeu a hegemonia política.

ARevolução levou a uma nova composição de equilíbrio entre setores daclasse dominante. Não houve uma ruptura no processo histórico, e simapenas uma acomodação de interesses e uma atualização de instituições.