Por: José Flávio Sombra Saraiva - Professor de Relações Internacionais da UnB
O mundo se curvou aos fatos. O esforço humanitário é urgente para
garantir o mínimo diante das conseqüências indeléveis do terremoto no
Haiti. A cooperação é o lema e todos querem estar junto aos difíceis
trabalhos de salvamento e proteção de desamparados pela imperiosa
natureza e pela imprudência dos homens.
A tragédia haitiana, no
entanto, se faz dentro da reedição das duras disputas da política
internacional do momento. Depois de Copenhague, onde pesou o arranjo
sino-americano, o Haiti é o novo palco para a exibição dos interesses e
das quedas de braço do sistema internacional em momento de redesenho de
hierarquias. Abandonadas pelas grandes potências, que minguaram
recursos e esforços diplomáticos para o alívio da pobreza no Haiti e em
países miseráveis que o mundo ainda abriga, são essas mesmas potências
que agora coordenam a operação do aplainar os cemitérios do país
caribenho.
Silenciou-se repentinamente o discurso monocórdio do
combate irracional e linear ao chamado terrorismo internacional,
conceito ainda não bem definido, de Bush a Obama. Tudo agora é
humanitarismo nas lágrimas de crocodilos dos líderes cínicos quando
apenas agora, já tarde, ouvem-se discursos de desdobrada atenção ao
drama do Haiti. Atores e músicos famosos fazem o cordão de proteção ao
humanitarismo renovado do Norte. Não faltarão festivais em estádios e
cordões de solidariedade romântica aos pobres haitianos.
Politiza-se
a ajuda internacional, como no caso do clima, dos direitos humanos, e
outros temas da agenda renovada das relações internacionais, quando o
que importa é o esforço de salvar vidas. Os chineses foram os primeiros
a chegar à ilha caribenha. Inflacionaram o aeroporto combalido da
capital do país e deixaram apenas espaço modesto para aeronaves dos
Estados Unidos, da Europa, do Canadá e do Brasil. Os Estados Unidos
correram atrás dos chineses uma vez que o Caribe é área natural de
hegemonia natural e concêntrica dos ianques. Apresentaram-se como os
únicos capazes de salvar os flagelados.
Acompanhar a cobertura
internacional, das agências britânicas, francesas e alemãs, na Europa
desses dias, é hilário. O Haiti preencheu o noticiário monótono do frio
polar e da neve.
É como se no Haiti não houvesse passado, mas apenas
terra arrasada, em descoberta tardia das responsabilidades
internacionais antes não reconhecidas. O silêncio das grandes potências
em relação aos projetos brasileiros, apresentados anos atrás, de
construção de infra-estruturas e autonomia energética no Haiti, é
gritante.
O Brasil - em seu esforço de governo, da sociedade
organizada e suas ONGs, mas em especial dos sacrifícios pessoais dos
militares brasileiros, em missão convertida e gerenciada pela ONU no
Haiti – vem sendo apenas discretamente reconhecido.
Obama agora quer
oferecer os famosos 100 milhões de dólares que o Brasil já havia
solicitado para obras de infra-estrutura no país. Aqui, na Europa, nada
se sabe acerca da obra de Zilda Arns no Haiti, nem que ministro
brasileiro foi a primeira autoridade internacional a pisar o solo
tremente da ilha. A lógica é mostrar Obama, Sarkozy e outros líderes do
Primeiro Mundo isolados, a domesticar a opinião pública e os interesses
eleitorais. Espero que o Brasil não faça o mesmo.
A coordenação
dos esforços de construção do Haiti deve ser multinacional, a recordar
que o esforço humanitário é apenas uma etapa para o longo prazo, de
fortalecimento das instituições e da cidadania, ao lado da reconstrução
social e econômica do país. Passada a comoção do momento, valerá
acompanhar o dia seguinte.
O esquecimento é em geral o que se espera.
Pois que se tome uma lição do Haiti para a política internacional: o
pêndulo está excessivamente angulado no realismo global e nos egoísmos
nacionais. Era hora de movê-lo para a dimensão humana das relações
internacionais, que prescinde do humanitarismo, para ser apenas humana
a face desejável dos sonhos de um mundo melhor.