Um dos problemas mais sérios que encontramos ao estudar certasdisciplinas filosóficas, como a Ética e a Política, consiste norelativismo.

O relativismo é uma postura de interpretação da realidade que sugereque tudo deve ser encarado segundo o conceito da relatividade, ou seja,a percepção de determinado fenômeno está condicionada à realidade dointerlocutor, e não poderia, portanto, ser tomada como uma conclusãoválida no plano geral, e sim apenas no plano particular. Em outraspalavras, a verdade no relativismo é aquilo que eu percebo como verdade, independentemente da opinião alheia ou das conclusões obtidas pelos outros. O que é verdade para mimpode não ser verdade para o outro, mas isso não importa. E, assim comoeu não pretendo impor meu conceito de verdade a ninguém, também nãoaceito que ninguém me apresente ou imponha outra interpretação daverdade. Uma espécie de “cada um na sua” filosófico.

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É claro que a Filosofia não trabalha com imposições. Uma máxima muitoválida na Filosofia é a de que o filósofo só aceita “a força doargumento, e não o argumento da força”. Mas é necessário perceber que orelativismo é perigoso em certas áreas do relacionamento humano, e queas relações humanas precisam ser construídas sobre certos valoresuniversais, como confiança e comprometimento mútuo. Isso não só ésaudável como também não deve ser relativizado! Afinal, seria muitodecepcionante confiar um segredo a uma pessoa que considere “relativa”sua obrigação de guardá-lo, ou conviver com um colega de trabalho queconsidere “relativa” sua obrigação de respeitar o trabalho alheio. Oresultado disso seria correr o risco de ver seus segredos expostos oude conviver com traições e “puxadas de tapete”.

Neste caso, o relativismo deteriora as relações humanas e conduz a umambiente de desconfiança mútua. O mundo em que vivemos hoje e asrelações que construímos ao nosso redor trazem muito deste “pessimismo”em relação ao próximo, o que leva muitos de nós a declarar com certadose de orgulho triste: “eu não confio em ninguém”.

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Além disso, o relativismo aplicado à Política tende a levar as pessoasà omissão, por desistirem de insistir em ter seu destino em suaspróprias mãos. As decepções constantes, os maus exemplos e os sedutoresdiscursos dos políticos nos levam a crer que a verdade não estádisponível, e que nunca saberemos o que realmenteacontece nos bastidores do mundo político. Desenganados, perdemos maisuma vez a já combalida confiança que tínhamos nos outros e em nossaprópria capacidade de compreender a realidade. Costumamos dizer que odiscurso dos políticos é “perigoso”, pois “eles conseguem convencerqualquer um de qualquer coisa”. Será? Eles nos convencem ou nós nosdeixamos convencer porque não temos convicção da verdade?

Este é o preço do relativismo. Quando abrimos mão de nossos ideais, denossos valores e crenças, estamos abrindo a porta para que o inimigoentre. O próximo passo é desconfiar de nossas próprias verdades até,por fim, desistir delas. Neste momento, tornamo-nos amargos edesiludidos.

É claro que o radicalismo de opiniões também é anti-filosófico. Devemosouvir cuidadosamente os argumentos que nos apresentam os outros, masprecisamos de convicção a respeito do que é certo e do que é erradopara poder formular uma opinião que seja, ao mesmo tempo, equilibrada ecoesa. A reflexão é, portanto, essencial para superar o relativismo. Orelativista não reflete, porque o argumento alheio não lhe interessa.

Concluindo, o relativismo é um mal a ser superado, e somente aconsciência do homem pode fazê-lo. A convicção é um processo íntimo,que diz respeito a cada um em particular; mas nossas atitudes, nomomento em que tomam forma, devem ser resultado de uma longa ecuidadosa reflexão a respeito dos objetivos que pretendemos atingir edos meios que estamos dispostos a utilizar para estes fins. Os fins sójustificam os meios num mundo sem ética. Só aí o relativismo pode sedesenvolver. Não permita isso! Defenda a ética!