Por: Jandira Pilar
No contexto atual, quando a redação de vestibular é
motivo de preocupação para alunos que prestam o concurso
vestibular, torna-se extremamente necessário que nós,
que ensinamos a redação voltada especificamente para esse
concurso, façamos uma reflexão sobre este tema.
Afinal,
a prática tem demonstrado que os livros didáticos utilizados
por nós para o ensino/aprendizagem desse tipo de texto não
têm sido suficientes para orientar um trabalho em nossas escolas
que possibilite ao aluno preparar-se para a prova de redação
no referido concurso.
Isso pode ser percebido pelo grande número
de alunos vestibulandos que procuram um trabalho de redação
fora do âmbito da escola, seja em cursinhos pré-vestibulares,
seja na forma de trabalhos particularizados de produção
textual.
Sem, no momento, discutir a idéia errônea que, muitas vezes,
perpassa o trabalho de produção textual e tampouco apresentar
considerações sobre o processo de ensino/aprendizagem
de redação em nossas escolas, gostaria de discutir uma
questão que tem incomodado, de maneira bastante particular, muitos
alunos que necessitam realizar a prova de redação: o posicionamento
do autor na redação de vestibular.
Para ancorar essa discussão,
serão utilizados alguns trechos de redações Nota
Dez, produzidas no concurso vestibular da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul, no ano de 1997.
2. A necessidade de posicionamento nas
redações de vestibular
Nossa experiência na escola de ensino médio e em cursos
pré-vestibulares tem demonstrado que os alunos que se preparam
para o concurso vestibular, ao produzirem seus textos, priorizam a estrutura
formal gramatical. Ao agir assim, eles não se inserem na discussão
proposta pela tarefa da prova, limitando-se "a fazerem cópias
disfarçadas dos textos dos outros, sem assegurarem sua entrada
no jogo que lhes permitiria exercerem a sua função-autor”
(Carmagnani, 1998, p.21).
Isso é comprovado pelas redações
produzidas por alunos pré-vestibulandos em nossas aulas. Um número
bastante significativo delas apresenta aspectos positivos e negativos
do tema abordado, sem configurar uma tese que possa sustentar a discussão
sobre o tema. Além disso, mesmo que a tarefa oportunize a eles
usarem experiências pessoais ou empregarem a primeira pessoa do
singular para discorrerem sobre o tema, é muito raro encontrar
esses elementos em redações produzidas por alunos vestibulandos.
No entanto, levando em conta tarefas propostas em provas de redação
de vestibulares, podemos dizer que a primeira condição
para a produção de um texto satisfatório é
a inserção do candidato na situação proposta
como tema, que é, por sua vez, fator essencial para a elaboração
da tese. Conforme podemos observar em tarefas propostas, os concursos
vestibulares dos últimos anos têm solicitado o posicionamento
do aluno em relação ao tema e a apresentação
de argumentos consistentes para defender esse posicionamento.
Na tarefa demonstrada abaixo, por exemplo, os candidatos a uma vaga
no concurso vestibular da UFRGS devem apresentar em seus textos uma
tese central que responda à questão proposta: “Que
reformulações deve haver no concurso vestibular da UFRGS?”.
Há muitas discussões sobre a reformulação
do Concurso vestibular. Alguns propõem sua extinção
sumária; outros defendem que seja substituído por concursos
isolados, para as diversas carreiras acadêmicas; outros ainda
advogam sua reformulação parcial, sugerindo pequenos ajustes
na forma atual ou propondo a exigência de questões apenas
discursivas em todas as provas.
Como membro da comunidade na qual esse concurso é realizado,
você certamente tem muito a dizer sobre a adequação
do vestibular ao tipo de candidato que normalmente presta os exames.
Além disso, ainda que jamais se tenha preocupado antes com o
vestibular, você está, nesse momento envolvido com ele.
Você acha que o vestibular, na sua forma atual, seleciona de maneira
eficaz os futuros alunos da UFRGS, valorizando adequadamente seus conhecimentos,
habilidades e aptidões? Ou você acredita que possa haver
uma maneira melhor de fazê-lo? Lembre-se de que qualquer proposta
relativa ao vestibular, se eventualmente adotada pela Universidade teria
reflexos extraordinários na sociedade como um todo, e não
é ao seu bem individual que a Universidade visa, e sim ao da
coletividade.
Pois bem: sua redação deverá desenvolver sua resposta
à questão “que reformulações deve
haver no concurso vestibular da UFRGS”?. Para isso, parta de sua
experiência pessoal, enuncie a(s) reformulação (ões)
que considera necessária (s) e apresente motivos para sua proposta.
Desde logo, fique claro que, para fins de atribuição de
nota, não será avaliado o mérito de suas opiniões,
mas sim sua capacidade de redigir um texto correto e articulado sobre
o tema.
Lembre-se de que você está sendo solicitado a redigir uma
dissertação, texto que se caracteriza por um esforço
de reflexão racional em torno de um tema. Valha-se de sua experiência
como ponto de partida, mas apresente-a articulada em um texto argumentativo,
organizado dissertativamente.
A dissertação deve ter a extensão mínima
de 30 linhas e máxima de 60 considerando letra de tamanho regular.
Inicialmente, utilize a folha de rascunho e, depois, passe a limpo na
folha de redação, sem rasuras e com letra legível,
o que você escreveu. Utilize caneta; lápis, apenas no rascunho.
Quadro 1 – Prova de Redação do Concurso Vestibular
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS/1997.
Podemos dizer que a “resposta” dos alunos-candidatos à
tarefa da prova implica uma tomada de posição, de inserção
deles no problema proposto. Assim, a resposta deve configurar uma tese
que indicará qual (ou quais) reformulação(ões)
é (são) necessária(s) no concurso vestibular da
UFRGS.
Não se pode esquecer, porém, que as teses apresentadas
pelos alunos, estão vinculadas à avaliação
do problema tratado na prova, isto é, à necessidade de
alunos em final de ensino médio prestarem o concurso vestibular.
Tanto a avaliação desse problema quanto a tese central
apresentada pelos alunos podem ser analisadas por marcas lingüísticas.