O estresse pode ser considerado um conjunto de reações adversas do
organismo que ocorrem quando a pessoa necessita adaptar-se a alguma
situação, podendo ter efeitos positivos, como de motivação, ou
negativos, quando as pressões ou demandas são excessivas e o indivíduo
não consegue gerenciá-las.
Ter provas no colégio, discutir com os amigos, obedecer às
ordens dos pais e enfrentar a morte de algum familiar são alguns dos
eventos mais frequentes causadores de estresse em crianças e
adolescentes, segundo um estudo realizado pelo grupo de pesquisa
Cognição, Emoção e Comportamento, da Faculdade de Psicologia.
O excesso
de atividades e a pressão precoce por um bom desempenho em todas elas
também podem ser citados. Foi investigada a associação entre eventos
estressores, sintomas de estresse e desempenho escolar em uma amostra
de 220 adolescentes de uma escola da rede pública de Porto Alegre.
Constatou-se que 8,6% apresentavam o distúrbio. "Nenhum outro
transtorno mental tem essa prevalência. Esse índice é muito alto se
comparado a outros transtornos da adolescência", ressalta a mestre em
Psicologia Fernanda Busnello. Estima-se que a conhecida hiperatividade
infantil, por exemplo, atinge cerca de 5% da população i nfanto-juvenil.
As meninas que participaram da pesquisa estavam mais
estressadas que os meninos. Alunos reprovados também apresentaram
escores altos e índices mais elevados em todos os sintomas,
principalmente no grupo das Reações Psicológicas com Componente
Depressivo. Além da relação direta com o baixo desempenho escolar,
sintomas físicos podem ser observados, como dor de cabeça, dificuldade
para dormir e para se concentrar. Em longo prazo a memória também pode
ser afetada.
Os eventos estressores e as reações podem ser diferentes
entre as pessoas. Os resultados demonstram que as estratégias de
enfrentamento mais utilizadas pelos alunos são as de autocontrole,
afastamento, fuga e esquiva. Dentre os que apresentavam mais sintomas
de estresse, além das estratégias citadas, também se utilizaram de
confronto e suporte social de familiares, amigos e professores, entre
outros.
Na opinião de Fernanda é necessário que as famílias e as
escolas desenvolvam medidas de prevenção. "Às vezes há ausência dos
pais no processo educacional, eles têm de participar ativamente,
acompanhar de perto o seu filho", observa. "Muitas coisas poderiam ser
ensinadas nos colégios, como o treino da resolução de problemas e de
habilidades sociais, utilizando ferramentas lúdicas adequadas à
linguagem infantil", sugere.
Essa pesquisa faz parte também do recém criado Núcleo de
Estudos e Pesquisa em Trauma e Estresse (Nepte), vinculado à Faculdade
de Psicologia da PUCRS. O Núcleo agora formaliza uma parceria feita há
algum tempo informalmente entre os grupos dos professores Rodrigo
Grassi, Christian Kristensen (Psicologia) e Moisés Bauer (Instituto de
Pesquisas Biomédicas - IPB), unindo esforços para buscar resultados sob
variados pontos de vista.
O grupo de Neurociência Cognitiva do Desenvolvimento,
coordenado pelo professor Rodrigo Grassi, desenvolve várias pesquisas
sobre o tema. Uma delas prevê a análise genética do BDNF (responsável
pelo crescimento neuronal) e cortisol (hormônio do estresse) em
crianças com idade escolar acompanhadas desde o nascimento pela equipe
da médica Olga Falceto (Hospital de Clínicas). Há também a parceria com
o Hospital Conceição e com a professora Jerusa Salles, da UFRGS.
O
objetivo é avaliar a associação entre cuidado materno, BDNF, estresse e
desenvolvimento cognitivo.Os pequenos atualmente têm oito anos e passaram por quatro
avaliações ao longo da vida. As amostras de DNA e cortisol foram
feitas, mas ainda passam pelo processo de análise. Também foram
testados do ponto de vista neuropsicológico, para avaliar
principalmente o impacto do desmame precoce, e há vários vídeos feitos
de situações dos pais com as crianças ao longo dos anos.
"Os vídeos
darão maior confiabilidade aos dados, muito mais do que se fossem
entrevistados um dia sobre sua infância", observa o professor Grassi.Dentre os resultados iniciais percebe-se que nas famílias em
que houve alteração na estrutura (devido à psicopatologia dos pais) ou
pobre vínculo paternal, há mais chances de as crianças apresentarem
problemas de alteração comportamental e maior prejuízo da parte
cognitiva.Com os dados que serão avaliados será possível perceber se
há relação entre a negligência de afeto, social e física com a maneira
com que lidam com o estresse.
Uma das hipóteses é a de que o desmame
antes dos três meses pode provocar algum prejuízo na cognição das
crianças. "Verificaremos se isso está relacionado diretamente ao leite
materno em si ou ao vínculo com a mãe, o comportamento de maternagem do
qual são privados", conta. "Mesmo que seja comprovado que o fator
nutricional é menos impactante, é importante, como política pública,
estimular a amamentação, não pelo leite, mas por todo o cuidado que
envolve", observa o professor.
Um estudo desenvolvido pelo Laboratório de Imunologia do
Estresse do IPB, em parceria com a Faculdade de Psicologia, comprovou
que o estado de saúde preservado protege os idosos dos efeitos do
estresse sobre o organismo, criando barreiras psicológicas. Coordenado
pelo professor Moisés Bauer, o trabalho comparou resultados de idosos
saudáveis cuidadores de pacientes com Alzheimer e de alguns cuidadores
de pacientes com outro tipo de demência com os de idosos saudáveis não
cuidadores.
Os cuidadores foram escolhidos por enfrentarem diariamente
situações estressoras, convivendo com um parente próximo, geralmente
cônjuge, numa situação muitas vezes descrita como de luto em vida, pois
vê a pessoa perder aos poucos funções corriqueiras.Segundo o professor Bauer a hipótese inicial de que os
cuidadores saudáveis reagiriam melhor ao estresse foi comprovada.
Apesar de se mostrarem mais ansiosos e depressivos que o outro grupo,
os cuidadores apresentaram níveis mais baixos de cortisol, hormônio
ligado ao estresse. Também foi detectada a proliferação de linfócitos,
peças centrais na resposta imunológica, ou seja, por estarem
clinicamente saudáveis reagiram bem.
A parte ruim foi a descoberta da
diminuição do sulfato de DHEA nos cuidadores, utilizado como marcador
biológico do envelhecimento. Em níveis baixos pode representar maior
incidência de algumas doenças, como cardiovasculares e tumores. Em
relação ao grupo de não cuidadores a diferença foi pequena Uma das
autoras do projeto, a professora Cristina Jeckel, da Faculdade de
Farmácia, observa a importância de se dar atenção também à saúde dos
cuidadores. "Quem tem o apoio social da família, amigos, grupos,
igreja, tem mais suporte emocional para levar adiante.
É preciso cuidar
de si mesmo, manter-se saudável para conseguir manter o padrão mesmo
sob estresse. Nunca sabemos quando vamos cuidar do próximo", observa.
Um artigo sobre o tema foi publicado recentemente no periódico NeuroImmunoModulation.
Conheça alguns dos sintomas do estresse (para ter certeza é indicada a consulta com um
profissional de saúde):
- Dificuldade de concentração
- Lapsos de memória
- Pensamento negativo
- Falta de motivação
- Irritabilidade
- Baixa autoestima
- Frustração
- Perda ou ganho de peso
- Dores musculares
- Cansaço
- Insônia ou pouca qualidade no sono
- Problemas de relacionamento
- Queda de desempenho no trabalho
- Problemas sexuais
- Mudanças na menstruação
Fonte: Isma-U
Estatísticas preocupantes
Pesquisa realizada pela International Stress Management
Association (Isma-BR), em Porto Alegre, entre outubro de 2008 e abril
de 2009, com 724 pessoas: 55% apresentavam nível de estresse entre
regular e preocupante. O trabalho é a maior fonte de estresse (61%). A
falta de tempo (71%), a violência (67%) e os relacionamentos
interpessoais (62%) são as principais causas de estresse.O tecnoestresse também aparece, com 32% dos casos.
81% apresentavam como sintomas dores musculares, incluindo dor de
cabeça. Dentre as maneiras utilizadas para lidar com estresse foram
mencionadas o consumo de bebidas alcoólicas (53%) e a conversa,
socialização (48%). 53% utilizam algum tipo de medicamento para
relaxar. A maioria (59%) aceita responsabilidades mesmo quando está
sobrecarregada. 64% não apresentam peso proporcional à altura.
Adultos despreparados para lidar com o mal
Nos adultos uma das maiores fontes de estresse é a vida
profissional, podendo ser provocado por fatores internos e/ou externos,
como relata a professora Dulce Hatzenberger, coordenadora do
Departamento de Psicologia do Trabalho da Faculdade de Psicologia.
"Colegas de um mesmo setor podem reagir de maneira diferente a um mesmo
fator, dependendo de características pessoais". Muitas empresas
preparam mal os gestores para detectar esse tipo de problema e ajudar.
Mais do que o tipo de trabalho que realizamos, é a própria organização
do trabalho que estressa: atitudes do gestor, distribuição de tarefas
percebida como injusta pelo colaborador e ausência de reconhecimento
são exemplos."Rendemos mais quando estamos felizes e nos identificamos
com o que estamos fazendo, o que é bom para nós e para a empresa",
ressalta. Dentre alguns grupos profissionais com maior nível de
estresse estão os bancários, bombeiros e profissionais da saúde. Um
projeto liderado pelo professor Christian Kristensen (Psicologia), em
parceria com o Grupo de Realidade Virtual, do professor Márcio Pinho
(Informática), pretende verificar se a realidade virtual pode auxiliar
no tratamento cognitivo-comportamental do transtorno de estresse
pós-traumático, de maneira eficaz e mais rápida. O foco são bancários
que vivenciaram assaltos em agências e apresentam esse distúrbio. No
ano passado esse trabalho foi semifinalista do Prêmio Santander de
Ciência e Inovação - Categoria Saúde - Regional Sul.
Esse transtorno pode ser causado por eventos traumáticos
fortes. Nos bancários que passaram pela situação citada as
consequências apresentadas geralmente são o não comparecimento ao
trabalho, depressão, uso de substâncias, como o álcool, lembranças
recorrentes e pesadelos, perda de interesse por atividades e
hipervigilância (não conseguem relaxar, dificuldade de concentração),
entre outros. "Se não passarem por um tratamento o transtorno tende a
se manter, trazendo prejuízos no trabalho e na vida pessoal", observa
Kristensen. "Depois de um assalto a banco, o ideal seria que uma equipe
fosse até lá e acompanhasse o grupo ao longo das cinco primeiras
semanas, quando seria possível perceber quem tem estresse
pós-traumático e quem não tem", conta.
O tratamento comumente é feito por meio de psicoterapia e,
dependendo do caso, com o uso de medicamentos receitados por um
psiquiatra. Na psicoterapia é feita a terapia de exposição, que expõe o
paciente, gradualmente e de forma segura, à situação semelhante à que
causou o trauma para que, aos poucos, tenha uma resposta de mais
adaptatividade. Com a realidade virtual é possível criar um cenário e
manipular as situações, conversar com o paciente e auxiliá-lo a
reavaliar o que aconteceu. O grupo do professor Márcio Pinho está
finalizando a criação da agência virtual. Como num jogo, o usuário pode
interagir com clientes, fazer procedimentos semelhantes aos de um banco
e, num determinado momento, lidar com um assalto. Por meio de um
aparelho de monitoramento fisiológico será possível medir as respostas
de ansiedade das pessoas.
Sob orientação dos professores Kristensen e Pinho, alunos de
mestrado e doutorado da Psicologia e da Informática estão fazendo uma
avaliação com bancários que já vivenciaram essa situação e
desenvolvendo um questionário de presença para medir o quanto a pessoa
se sente dentro do ambiente virtual. "É mais fácil alguém sofrer de
estresse pós-traumático depois de situações como essa do que em
catástrofes, porque o sujeito se autorresponsabiliza. A pessoa fica se
culpando. Tudo vai depender de como ela interpreta o que aconteceu, se
acha que faz parte da causa ou não, se poderia ter feito algo para
evitar ou não. Quem tem uma visão negativa de si mesmo fica predisposto
a reforçar essa crença disfuncional com relação a si e ao mundo",
explica.
PUCRS oferece auxílio psicossocial a universitários e professores
Em 2006 a PUCRS criou o Centro de Atenção Psicossocial
(CAP), vinculado à Pró Reitoria de Assuntos Comunitários e coordenado
pela psicóloga Jacqueline Moreira, Pró-Reitora. Nele uma equipe
interdisciplinar, formada por profissionais da Psicologia, Serviço
Social, Educação e Medicina atendem alunos e professores buscando
minimizar dificuldades que estejam complicando o processo de
ensino-aprendizagem.
Muitos fatores acabam sendo fontes de estresse para
estudantes universitários, segundo maior problema diagnosticado pela
equipe depois da depressão. O início e o final do curso são etapas
particularmente estressantes para os acadêmicos. No início geralmente
entram muito jovens, com dúvida se o curso que escolheram é realmente o
que querem e têm medo de trocar. Alguns sofrem pressão da família para
ingressar em determinada Faculdade. Há também o problema da solidão
enfrentado por alunos que deixam suas famílias para estudar em outra
cidade. Dentre os que moram com as famílias pode haver casos de
violência intrafamiliar, psicológica ou física. Ao final há o tão
temido Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), uma tarefa que fazem
sozinhos e da qual sua formatura depende. Somado a isso há os estágios,
aulas práticas, o medo do desemprego. "O aluno entra achando que vai
mudar o mundo e acaba se deparando com a realidade", o bserva o
professor e psiquiatra Alfredo Cataldo Neto.
Entre os sintomas apresentados podem ser observados a
dificuldade de concentração, de ler e manter o foco, além de problemas
com a memória. Estudantes de Medicina estão entre os mais propensos ao
estresse, devido às situações e momentos vivenciados durante o curso,
como a adaptação ao novo método de estudo, contato com a morte,
privações de horas de sono e lazer, as responsabilidades frente ao
sofrimento dos pacientes, além do perfeccionismo. "Geralmente esses
acadêmicos estudaram muito para ingressar na Faculdade, foram os
primeiros lugares. Acabam competindo entre eles. Lembro de uma aluna
que chorou muito porque tirou 8,9 numa prova porque nunca havia tirado
menos do que 9, não sabia como explicaria à família", conta o professor
Cataldo.