Por: Zero Hora - Marcelo Gonzatto e Sílvia Lisboa
Referência no ensino de Medicina no país, a Universidade Federal de
Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) vivencia um fenômeno
provocado pelo novo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Como
estudantes de todo o país podem disputar uma vaga na instituição gaúcha
usando a nota na avaliação, cresceu a proporção de alunos provenientes
de outros Estados.
O primeiro dia de aula na Universidade
Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), ontem, revelou um
fenômeno provocado pela nova forma de acesso ao Ensino Superior
brasileiro: uma invasão de estudantes com diferentes sotaques. Conforme
estimativa da reitoria, a substituição do tradicional concurso
vestibular pelo Sistema de Seleção Unificada (SiSU) deverá, no mínimo,
dobrar a proporção de alunos de fora do Estado na instituição. A
expectativa ilustra o impulso que a novidade deverá dar à migração
estudantil no país.
Como as últimas matrículas ainda estão sendo
efetuadas e a universidade não revisou o
perfil dos alunos já
registrados, os dados oficiais deverão ser conhecidos apenas a partir de
amanhã. A reitora Miriam da Costa Oliveira estima, porém, que mais de
um terço dos novos aprovados vem de outras regiões do país – nos últimos
dois anos, esse percentual havia ficado pouco acima de 10%. Um dos
maiores saltos deverá ocorrer no curso de Medicina, segundo indicam as
informações preliminares.
Isso ocorre porque, enquanto até o ano
passado o candidato arcava com os custos de uma viagem até a
universidade desejada para concorrer no vestibular, o SiSU permite que
ele lance sua nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) na internet e
concorra a uma vaga à distância e de forma gratuita. Assim, se contar
com média suficiente, pode optar por qualquer uma das 51 instituições
públicas que aderiram ao novo sistema.
No Rio Grande do Sul,
dois institutos e três universidades (de Pelotas, do Pampa e UFCSPA)
abriram vagas ao SiSU. A UFCSPA distribuiu 368 vagas em oito curso pelo
sistema. O
estabelecimento
porto-alegrense se destaca por ter se firmado nos últimos anos como a
segunda melhor instituição de Ensino Superior do país com base nas
avaliações do Ministério da Educação. O resultado é uma corrida de
alunos de regiões tão distantes como São Paulo, Bahia ou Goiás por um
lugar na universidade gaúcha.
– Esperamos selecionar ainda mais
os melhores candidatos. O nosso ponto de corte na Medicina (nota mínima
para a vaga), por exemplo, foi de 818 na primeira etapa, em um máximo de
900 pontos. Ficou entre as duas mais altas do país – observa a reitora.
Novo perfil vai exigir adaptação
Um
passeio pelos corredores da UFCSPA ontem à tarde permitia vislumbrar o
impacto que o novo método de acesso à universidade deverá provocar. Em
um canto do saguão no andar térreo, um grupo de quase uma dezena de
calouros do curso de Medicina conversava durante o intervalo do primeiro
dia de aulas. Perguntados se entre eles havia alguém de
fora do Rio Grande do Sul, um deles respondeu:
– Aqui é todo mundo de fora...
Como resultado, a reitoria
deverá fazer um estudo nos próximos dias para verificar que adaptações
precisarão ser feitas no sistema de assistência estudantil para atender
ao novo perfil do alunado. O Ministério da Educação, prevendo o
progressivo aumento na migração em busca de vaga, ampliou o recurso
destinado a projetos de apoio de R$ 126 milhões no ano passado para R$
300 milhões esse ano.
Conforme a assessoria de imprensa do MEC,
até o ano passado o percentual de universitários que estudavam fora de
seu Estado de origem era ínfimo – abaixo de 1%. A partir de agora, a
intenção do governo é multiplicar esse patamar. Dados mais precisos,
porém, somente serão informados após o fim do período de matrículas e de
feita a contabilidade do SiSU.
Enquanto isso, os pioneiros da
nova forma de seleção se adaptam como podem à vida longe dos pais e
amigos. As estudantes de Medicina Cristina Jatobá, Ana Paula Bastos e
Eloísa Bartmeyer (à esquerda), por exemplo,
encontraram abrigo em um mesmo pensionato da Capital.
– Quando
viemos para cá, já achávamos que teria bastante gente de outros Estados.
Mas não tanto – confessa Eloísa.
Alguns migrantes, como o
também estudante de Medicina Hugo Octaviano, chegam com planos de não
deixar mais o Estado.
Uma avaliação sobre o novo sistema
Confira, com base em avaliações de quem defende ou critica o
novo sistema de seleção de universitários, possíveis impactos da
medida:
As vantagens
Seleção mais
qualificada
- Ao ampliar o universo de candidatos, o
sistema informatizado tende a aumentar o nível de qualidade dos
escolhidos. Isso poderia contribuir para melhorar o aproveitamento dos
cursos, o nível de pesquisa realizada pela instituição e a formar
profissionais com maior capacidade.
Democratização do acesso
- Ao reduzir
as barreiras geográficas, já que o candidato não precisa mais pagar uma
inscrição
ou viajar para prestar o concurso vestibular, o novo modelo de acesso
favorece a democratização do Ensino Superior no Brasil. Um sistema
semelhante é utilizado nos EUA.
Variedade cultural
- A tendência é de que as universidades mais concorridas se
tornem polos multiculturais, reunindo estudantes dos mais diversos
cantos do país. A troca de experiências e o contato com culturas
variadas pode ser um ponto a favor na formação geral dos novos
universitários.
As desvantagens
Desníveis
regionais
- Parte dos estudantes se queixa de que
eventuais desequilíbrios regionais na qualidade do Ensino Fundamental e
Médio oferecido ficarão mais explícitas ao concorrer diretamente com
alunos de outras partes do país onde a Educação Básica pode
eventualmente ser mais forte.
Condição econômica
- Embora
alunos de qualquer parte do país concorram em condições de igualdade a
uma vaga na universidade, quem não tem condições
de bancar uma viagem para outro Estado ou condições de se sustentar
longe de casa pode ser forçado a desistir da matrícula.
Destino
profissional
- Como um número crescente de formandos
deverá vir de outros Estados, estes profissionais poderão retornar para
seus Estados de origem depois de concluído o curso. Como resultado,
poderia ser reduzido o impacto regional das universidades no
fornecimento de profissionais qualificados.
Cursinhos
falam em invasão
A ampliação da presença de estudantes
de outros Estados na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto
Alegre (UFCSPA) desagradou aos diretores dos principais cursinhos
pré-vestibular do Rio Grande do Sul. Eles consideram que o fenômeno
contraria a política defendida pelo próprio Ministério da Educação de
ampliar o acesso à universidade.
Isso porque, ao permitir que
alunos de São Paulo e Rio de
Janeiro concorram em pé de igualdade com candidatos gaúchos, o Enem não
levaria em
conta as diferenças regionais, o que agravaria ainda mais desigualdades
sociais, na visão dos diretores dos cursos preparatórios.
–
Alunos oriundos de cidades economicamente menos favorecidas terão menos
chances de passar no Enem. Se o Enem fosse adotado por todas as
universidades federais, poderíamos no futuro ver o país dividido por
profissão. Só os paulistas seriam médicos, os gaúchos ficariam com a
Engenharia e o que sobraria para os nordestinos? – questiona Paulo
Renato Mottola, diretor do Mottola Pré-Vestibular, de Porto Alegre.
Alunos
de outros Estados poderiam ampliar evasão
Mottola diz
ter ficado preocupado com o desempenho dos alunos na prova do MEC. Mesmo
aqueles que obtiveram uma nota excepcional ficaram abaixo do ponto de
corte para ingresso na Medicina da UFCSPA e não conquistaram uma vaga.
Além
disso, ressalta, a proporção de alunos bem preparados de São Paulo, por
exemplo, é bem maior
que a do Rio Grande do Sul. Haveria, portanto, uma
distorção quantitativa na disputa, que acaba resultando no maior número
de estudantes de fora do Estado em universidades gaúchas.
–
Estamos entregando uma de nossas melhores universidades, feita pelos
gaúchos, para o resto do Brasil. E por que razão? Para a UFCSPA se
eximir de fazer um vestibular – critica o professor de Física Ênio
Kaufmann, diretor do Unificado.
Na avaliação do professor
Gilberto Kaplan, diretor do Universitário, a migração de estudantes de
outros Estados pode, no futuro, aumentar a evasão. Ele ainda aponta
outros problemas:
– A prova em si não é adequada. Não aborda
temas locais, deixa a desejar em termos de conteúdo e é muito, muito
extensa. Talvez estejam aí os motivos pelos quais nenhuma universidade
séria aderiu completamente ao Enem.