Por: Akatu - Mariana Chammas e Helio Mattar
O Instituto Akatu esteve presente na 15ª
Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas (COP-15), em
Copenhague. O objetivo era analisar como o consumo estaria sendo pautado
nas discussões de mudanças climáticas, além de buscar introduzir as
questões relacionadas ao consumo nos eventos paralelos.
Naturalmente,
dentro da linha trabalhada pelo Akatu, trata-se de introduzir a questão
do poder contido nos atos individuais de consumo, que podemos ser e
fazer a mudança de comportamentos para contribuir com a sustentabilidade
da vida no planeta. Nesse sentido, é uma reflexão sobre o estilo de
vida, sobre o espaço ocupado pelo consumo na vida contemporânea.
Estamos convencidos, no Akatu, de que não
haverá sustentabilidade sem uma mudança no estilo de vida das sociedades
expresso por mudanças nos comportamentos de consumo. Apenas as mudanças
tecnológicas não serão suficientes para fazer frente ao tamanho da
crise climática atual. No entanto, a questão do consumo praticamente não
foi abordada nas reuniões da COP-15.
Naturalmente, não se
esperava que o consumo fosse tratado nas salas de negociações, visto que
ali as questões eram mais técnicas e específicas, envolvendo NAMAs,
REDD, quanto os países do Anexo 1 deveriam ou não pagar aos países em
desenvolvimento, metas de emissão para 2020, entre outros temas. Mas,
mesmo nos eventos paralelos do Bella Center, local onde aconteceram as
negociações, praticamente não se falou de consumo, que foi mencionado
apenas em eventos específicos — por exemplo, onde se fazia a ligação
entre desmatamento e consumo de carne. No entanto, tanto quanto pudemos
perceber na lista dos eventos paralelos à COP-15, e mesmo nos Fóruns
externos ao Bella Center, o consumo não foi abordado sob a perspectiva
do indivíduo com capacidade de transformação de seu entorno.
Por
outro lado, um tema exaustivamente abordado foi o das novas tecnologias
mais sustentáveis, envolvendo desde novas formas de produção de energia e
novas tecnologias de produção até sistemas para equipar uma casa
sustentável.
Sem dúvida, as tecnologias podem contribuir no
combate ao aquecimento global. O risco, no entanto, é de uma acomodação
no sentido de se pensar que as novas tecnologias mais sustentáveis vão
permitir manter o modelo de consumo atual. Ao pensar assim, esquecemos
que as mudanças climáticas são um entre vários problemas ambientais que
tornam insustentável a sociedade atual, sem falar nos problemas sociais,
econômicos e individuais.
Inovações tecnológicas são
necessárias, mas não suficientes
Se, por um lado, é muito bom que
se desenvolvam tecnologias mais sustentáveis, as mesmas devem ser
tomadas como medidas de transição durante o processo de transição para
um novo consumo, um consumo diferente, um novo estilo de vida, em que a
sociedade como um todo deverá caminhar na direção dos produtos duráveis
mais que os descartáveis, para o local mais do que o global, para o uso
compartilhado de produtos mais do que o individual, para o virtual mais
do que o material, para o intangível mais do que o tangível, para a
qualidade mais do que a quantidade, para o necessário substituindo o
desperdício, para a moderação substituindo o excesso.
São
mudanças profundas que exigem tempo e implicam em uma mudança de
cultura, que, por definição, exigirá tempo da sociedade. Para isso, será
preciso educar as crianças e os jovens para o consumo consciente e a
sustentabilidade, como o Akatu já vem fazendo com o apoio da HP, e será
preciso continuar a sensibilização e a mobilização dos adultos para esse
novo modelo de consumo. Esse novo modelo deverá ser apreciado e
valorizado pela sociedade, sob pena de não se manter a mudança
necessária nos comportamentos de consumo.
O mero uso das
tecnologias reforça a inércia dos hábitos atuais, à medida que elas
permitem agir exatamente da mesma maneira em nosso consumo com menor uso
de recursos naturais, energia e água. No entanto, dado que já
consumimos hoje 35% a mais do que a Terra consegue renovar, e que 25% da
humanidade consome mais do que o necessário, enquanto 75% consome o
mínimo necessário ou abaixo desse mínimo, apenas a mudança no modelo de
consumo permitirá a inclusão no mercado de consumo das enormes
populações que a ele hoje não tem acesso.
Reproduzir os atuais
padrões de consumo, usando tecnologias sustentáveis, não permitirá que o
grande problema social de inclusão de toda a humanidade em um modo
digno de vida possa ser resolvido. Talvez até mesmo se resolva a questão
do aquecimento global, o que não parece provável, mas certamente o
mundo se deparará com outros limites naturais e sociais. Melhor começar a
mudança mais cedo e não mais tarde, conscientizando as pessoas para o
poder e o impacto social e ambiental de seus atos de consumo, e buscando
fazer com que um novo modelo de consumo seja gradualmente introduzido e
valorizado pela sociedade. Um modelo onde se consome para viver e não
se vive para consumir.