CONTEXTO DA EUROPA NO FIM DO SÉCULO XV

No fim da Idade Média a Europa passou por diversas crises ligadas às pestes e às guerras. Os Países foram sendo despovoados e não havia desenvolvimento econômico tampouco social. Segundo Élisabeth Carpentier e Jean Pierre Arrignon, este período foi o:

Fim de um mundo antigo e princípio de um mundo novo. Nos séculos XIV e XV, a fisionomia da Europa transformou-se. Pestes, guerras, recessões e conquistas otomanas arruinaram o equilíbrio antigo, destruíram o Império Bizantino e abalaram os poderes que estavam aparecendo; no interior das cidades que polarizavam a rede econômica, e sob a autoridade do Príncipe que veio informar o Estado moderno, despontava já a aurora de um Renascimento.

Com o fim das crises, a Europa iniciou, durante o século XV, o período moderno, com avanço populacional, aumento das classes burguesas, bem como com o desenvolvimento das trocas comerciais. Para estas trocas eram utilizados os metais, como o ouro, a prata e o cobre. Todavia, o metal utilizado para fazer as grandes trocas comerciais, o ouro, começou a ficar escasso. Assim, o desenvolvimento econômico que os Reis pretendiam começou a não ser mais possível por conta deste fato.
Durante tal época, os principais produtos comercializados pela nobreza e pela burguesia européia eram as especiarias, ou seja, condimentos usados na culinária para proporcionar sabor diferenciado na comida, ou ainda, utilizados na fabricação de perfumes, óleos e medicamentos, como a pimenta, a noz-moscada, o gengibre, a canela e o cravo. Porém, devido ao clima europeu, estes produtos não eram cultivados naquele Continente, sendo então necessário importá-los da Ásia por meio das navegações.
Como precisavam conquistar novos espaços para conseguir as especiarias, também era necessário o ouro, como informa Alan Absire:

Ávidos de ouro, ei-los pois o caminho para encher os cofres desse metal precioso. Tudo porque falta ouro, porque o menos acidente, um contrato não cumprido, uma crise de confiança nos sistemas monetários de troca fundados na palavra ameaçavam as estruturas de todo edifício ocidental. Sem compromissos com o absoluto, a única conquista é a do ouro e do poder que lhe confere.

Portanto, era preciso iniciar o processo de conquistas para os Países europeus conseguirem a principal fonte de poder e de riquezas: o ouro.

A Situação de Portugal

Neste período, Portugal era um dos Países europeus com maior desenvolvimento, haja vista ter sido o primeiro País a centralizar o poder, a ascender a burguesia e a criar uma Escola de Navegações. Esta, a Escola de Sagres, foi criada em 1417, no município de Sagres, reunindo vários navegadores, cartógrafos, marinheiros e cosmógrafos, a fim de desenvolver conhecimentos no campo marítimo para as navegações realizadas à Ásia em busca das especiarias.
Então, somadas as questões da falta de metais na Europa, o alto conhecimento dos portugueses na navegação e o desenvolvimento do País, Portugal estava preparado para iniciar as Grandes Navegações. É o que demonstra o Professor de História Moderna da Oxford University, J. H. Elliot:

A nova dinastia mantinha vínculos estreitos com proeminentes comerciantes e era sensível à preocupação que revelavam com a aquisição de novos mercados e de novas fontes de suprimentos de corantes, ouro, açúcar e escravos. Mas aventuras ultramarinas de Portugal no fim do Século XV também eram guiadas por outros interesses, às vezes contraditórios. A nobreza procurava no ultramar novas terras e novas fontes de riquezas.

Assim sendo, consoante o mesmo autor, Portugal já em 1460 penetrou cerca de 2500 quilômetros na costa oeste da África e avançou para o Atlântico, estabelecendo sua presença nas ilhas de Madeira, dos Açores e de Cabo Verde.

A Situação da Espanha

A Espanha, por sua vez, com o fim da Guerra da Reconquista, em 1492, que expulsou os mouros da Península Ibérica, passou a ter suas cidades abertas para vastas perspectivas comerciais, conforme foi explicado por Elliot:

A Reconquista – o grande movimento dos reinos cristãos da Península Ibérica para o sul, para regiões mantidas pelos mouros – ilustra um pouco a ampla gama de possibilidades nas quais se poderiam buscar precedentes. Travada ao longo da fronteira que dividia o Cristianismo do Islã, a Reconquista foi uma guerra que ampliou os limites da fé. Foi também uma guerra em busca de expansão territorial, conduzida e regulamentada, mesmo que nem sempre controlada, pela coroa espanhola e pelas grandes ordens religioso-militares, que no processo, obtinha vassalos junto com vastas áreas de terra. Foi uma típica guerra de fronteira, numa tática de ataques e específicos em busca de saques fáceis, oferecendo oportunidades de lucro com resgates e escambos, e de recompensas mais intangíveis, como honra e fama.

Com o fim desta fase, os espanhóis não possuíam mais a problemática dos saques e do clima de guerra, então estavam finalmente dispostos a avançar a economia e a se desenvolver. Por isso é que, baseados na experiência de Portugal de avançar o além-mar, a Espanha, em 1492, mesmo ano em que encerrou a referida Guerra, decidiu iniciar as navegações.

O Início das Grandes Navegações Rumo à América

Cristóvão Colombo, genovês, conheceu o mar com quatorze anos e participou de expedições marítimas comerciais nas quais os comerciantes genovenses vendiam lã e compravam açúcar e especiarias. Desta forma, aprendeu a navegar e passou a interessar-se pela cartografia. A partir de então, gestou a idéia de alcançar o “fim do Oriente.” Para isso, passou a ser exímio conhecedor das navegações e começou a traçar uma rota de navegação, passando do Oriente ao Ocidente pelo Oceano Pacífico, como elucida Fredéric Mauro:

A sua nova profissão predispõe-no para investigações eruditas. Lê muito: a geografia de Ptolomeu, por exemplo. O manuscrito do astrônomo alexandrino (século II d. C.) fora reencontrado no começo do século XV: descrevia o mundo conhecido dando, para todos estes lugares, as suas coordenadas em graus; a edição em princeps, utilizada por Colombo, possuía 27 cartas. Apoiando-se em Aristóteles, afirma a esfericidade da Terra e pretende que mesmo oceano banha as costas da Espanha e as da Ásia, o que leva Colombo a tentar calcular a largura deste oceano. A sua conclusão; ‘entre o fim do Oriente e o fim do Ocidente não existe mais que um pequeno mar.

A Espanha, que estava disposta a iniciar as navegações, decidiu apoiar a idéia de Cristóvão Colombo, por meio da Rainha Isabel de Castela. François Lebrun narra este fato, até a data em que Colombo partiu das terras européias:

Cristóvão Colombo, supondo – mas erroneamente – que o Japão e a China se encontravam perto da Europa, pensou, por sua vez, que seria possível atingi-los directamente navegando para oeste. Convenceu Isabel de Castela do interesse do seu projecto e a rainha aceitou financiar-lhe a expedição. Colombo partiu a 3 de agosto de 1492 com três caravelas, fez-se a oeste e alcançou terra a 12 de outubro, persuadido de ter chegado à Ásia. Tinha, porém, desembarcado numa das ilhas Bahamas, num ponto a que depois se chamou de San Salvador. Durante as três viagens que depois realizou, tocou em algumas das Antilhas e também no litoral do próprio continente americano. Morreu em 1506 em Valladolid sem suspeitar, ao que parece, que não havia chegado às Índias da Ásia mas que, em vez disso, tinha descoberto um mundo até então desconhecido pelos Europeus. No entanto, depressa a verdade veio à tona e no ano de 1507 um cartógrafo baptizava esse novo mundo com o nome de América – do nome de um navegador que sucedeu a Colombo, Amerigo Vespucci.

Desta forma, pela primeira vez os europeus chegaram à América e então iniciou-se o processo de conquista do denominado “Novo Mundo”.