O Frei espanhol Bartolomé de Las Casas acompanhou a conquista espanhola da América e descreveu os primeiros contatos:

As Índias foram descobertas no ano de mil e quatrocentos e noventa e dois e povoadas pelos espanhóis no ano seguinte. A primeira terra em que entraram para habitá-la foi a grande e mui fértil Ilha Espanhola ; essa ilha tem seiscentas léguas de circuito. Há ao redor dela e nos seus confins, outras grandes e infinitas ilhas que vimos povoadas e cheias de seus habitantes naturais, o mais que o possa ser qualquer outro País no mundo. A terra firme, que está desta ilha à uma distância de 250 léguas, ou mais, tem de costa marítima mais de 10 mil léguas descobertas e outras se descobrem todos os dias, todas cheias de gente como um formigueiro de formigas. De tal modo que Deus parece ter colocado nesse País o abismo ou a maior quantidade de todo gênero humano.

O gênero humano que o Frei espanhol cita são os chamados indígenas. Deram este nome aos habitantes do Novo Mundo por acreditarem que estavam em terras Indianas.

Carlos Frederico Marés de Souza Filho conta que os europeus sabiam da existência de pessoas naquela região, todavia acreditavam serem pessoas selvagens e indignas, como se segue:

As novas terras de América foram achadas, ou descobertas como se diz hoje, em momento de expansão européia e, provavelmente, já se sabia não só de sua existência, como de homens e mulheres vivendo. Os primeiros relatos não expressam surpresa com o encontro de gentes, mas com seus costumes, sua beleza e sua mansidão. Seguramente a idéia que se fazia na Europa era de homens e mulheres selvagens, violentos e desumanos, praticamente animais. Todos os primeiros relatos são pródigos de elogios à terra e às gentes e não se cansam de enaltecer a humanidade dos habitantes, inclusive sua beleza física, sua saúde e solidariedade.

Assim, os europeus estavam diante de um cenário oposto àquele que imaginaram, haja vista estarem diante de criaturas não selvagens e totalmente ligadas com a natureza e com os homens, como narrou Jean-Jacques Rousseau:

A terra, abandonada à sua fertilidade natural e coberta de florestas imensas que o machado jamais mutilou, oferece a cada passo celeiros e abrigos aos animais de toda espécie. Os homens, dispersos entre eles, observam, imitam sua indústria e se elevam, assim, até ao instinto das feras; com a vantagem de que cada espécie só tem o seu próprio, e o homem, não tendo talvez nenhum que lhe pertença, se apropria de todos, nutre-se ele igualmente da maior parte dos alimentos diversos partilhado entre os outros animais e encontra por conseguinte sua subsistência mais facilmente do que qualquer dos outros.

Todavia, apesar de ser um ambiente com uma diversidade biológica muito elevada, o ouro que os espanhóis tanto buscavam era encontrado em pouca quantidade. Assim, Cristóvão Colombo decidiu começar a levar os habitantes que viviam naquelas terras, os chamados de indígenas, para a Europa para serem comercializados como escravos, consoante leciona Elliot:

Esse sonho logo se esfaleceu. A quantidade de ouro que devia provir do escambo com os índios revelou-se bastante desapontadora, e Colombo, ancioso por justificar os investimentos a seus soberanos, tentou complementar a insuficiência com outra mercadoria atraente, os próprios índios. Ao enviar índios caraíbas para a Espanha para serem vendidos como escravos, Colombo colocou de forma aguda uma questão que iria dominar a história da Espanha na América nos cinqüenta anos seguintes: o status a atribuir à população indígena.

Desta forma, iniciaram-se os massacres contra os indígenas, que se perduraram por centenas de anos.

Os massacres contra os indígenas durante o século XVI na América Espanhola

Com a chegada dos espanhóis, os indígenas transformaram seu modo de vida, haja vista que viviam em uma mesma rotina há milhares de anos, a qual se transformou em algumas horas, como ensina Nathan Wachtel:

O trauma da conquista não se limitava ao impacto psicológico da chegada do homem branco da derrota dos antigos deuses. O governo espanhol, ao mesmo tempo em que fazia uso das instituições nativas, realizava sua desintegração, deixando apenas estruturas parciais que sobreviveram fora do contexto relativamente coerente que lhes havia dado sentido. As conseqüências destrutivas da conquista afetaram as sociedades nativas em todos os níveis: demográficos, econômico, social e ideológico.

Além da transformação da rotina, os indígenas passaram a ser perseguidos, ganharam novas doenças, às quais não tinham imunidade, foram torturados e muitos levados como escravos para o continente europeu.
Os espanhóis conquistaram a América de forma extremamente violenta. Em alguns Países, como o Peru, havia grande quantidade de ouro, como relatou Júlio Verne:

A região era povoada; mas o que seduziu sobretudo os espanhóis, e o que os fez acreditar que tinham chegado ao País maravilhoso de que tinham falar, era a abundância de ouro e prata, metais que eram usados não só nas roupas e enfeites dos habitantes, mas também em vasos e utensílios comuns.

Por esta razão massacraram os indígenas, a fim de apoderarem-se de todo o seu ouro. Eles eram submetidos a trabalhos forçados e algumas etnias foram dizimadas pelas guerras, pelas doenças e pelos massacres, como narram Flávio de Campos e Renan Garcia Miranda:

O descobrimento das ricas minas de ouro e prata no México e Peru impulsionou a conquista da América pelos espanhóis. Entre 1519 e 1540, praticamente todo território continental da América Central estava em mãos dos espanhóis. Em meados do século XVI havia cerca de 100 mil europeus na América espanhola. Uma associação desigual definiu a conquista espanhola. O estabelecimento do trabalho forçado, as doenças, as guerras e os massacres dizimaram a população indígena.

Os indígenas não eram escravizados, mas eram considerados encomiendas, ou seja, passaram a ser “encomendados” aos conquistadores e colonizadores para serem catequizados. Em troca dos ensinamentos religiosos eles deviam trabalhar constantemente e de forma não remunerada em suas próprias terras.
O Frei espanhol Bartolomé de Las Casas foi para a América a fim de ser um encomiendeiro, porém acabou se transformando em um dos maiores protetores dos indígenas, conforme ensina Eduardo Bueno:

Em 1511, de regresso à Ilha Espanhola, depois de uma estadia de quatro anos na Espanha, recebeu na localidade de índios, tornando-se assim encomiendero. Foi nessa condição que escutou o sermão de Antônio de Montesinos (cujos protestos, meses depois, foram calados por ordem do superior dominicano Alonso de Loyasa). Apesar de profundamente abatido pela prédica de Montesinos, Las Casas deu prosseguimento a sua vida de descobridor conquistador. Dois anos mais tarde, participou da conquista de Cuba, comandada por Diego Velásquez e Panfilo de Narvaéz. Durante os combates, Narvaéz mandou degolar sete mil índios nas proximidades de Caonao. Depois dessa conquista, Las Casas recebeu novas porções de terra e outro repartimiento de índios, em Jaguá, Cuba. Foi durante sua residência de um ano na ilha que tomou a decisão de abandonar suas posses, seus lotes de escravos e consagrar sua vida à defesa dos indígenas do Novo Mundo.

Portanto, passou a dedicar sua vida em prol dos indígenas. Começou a ser chamado de “Apóstolo dos Índios”, ou “defensor e protetor universal de todos os indígenas”, como se autodenominava. Escreveu diversas obras acerca dos massacres contra estes povos. Uma de suas principais obras foi “Brevíssima Relação da Destruição das Índias”, em que narra diversas mortandades, entre elas a que se segue:

Certa vez, os índios vinham ao nosso encontro para nos receber, à distância de dez léguas de uma grande vila, com víveres e viandas delicadas e toda espécie de outras demonstrações de carinho. E tendo chegado ao lugar, deram-nos grande quantidade de peixe, de pão e de outras viandas, assim como tudo quanto puderam dar. Mas eis incontinenti que o Diabo se apodera dos espanhóis e que passam a fio da espada, na minha presença e sem causa alguma, mais de três mil pessoas, homens, mulheres e crianças, que estavam sentadas diante de nós. Eu vi ali tão grande crueldades que nunca nenhum homem vivo poderá ter visto semelhantes.

No contexto dos massacres, muitas etnias indígenas da América espanhola foram destruídas, como os Incas no Peru e os Astecas no México. Porém, Bartolomé de Las Casas foi um dos homens que evitou maiores barbáries na época colonial, vez que acreditava que todos, inclusive os indígenas, tinham de ter o direito à vida e à liberdade, como expõe Carlos Frederico Marés:

Bartolomé de Las Casas, a partir de um instrumento próprio, entendeu que cada povo, cada ser humano, tinha que ter sua chancela de viver como povo. Combateu a barbárie que foi a ocupação da América, o que fez com que ele se tornasse o fundador do Direito Internacional.(Informação Verbal)