O programa Fantástico, da Rede Globo, denunciou na noite deste domingo (2), o caso de três estudantes do curso de Medicina da Uningá que moram em bairros nobres de Maringá, e estudam com bolsa integral na universidade, além de receber benefício de R$ 300 por mês.

As estudantes denunciadas são Belisa Stival, Camila Colombari Medeiros e Milena Lacerda Colombari. Estariam no quarto ano de Medicina da universidade particular, que possui mais de sete mil alunos. O valor da mensalidade é de R$ 3.200, mas as três estudam gratuitamente, pois são bolsistas do ProUni ( programa do Governo Federal para universitários carentes).

Segundo informações do Ministério da Educação (MEC) à reportagem do Fantástico, Milena Colombari começou a receber bolsa integral do ProUni em 2005, quando fazia Biomedicina na Uningá. Em 2008, mudou para Medicina e continuou estudando gratuitamente.

De acordo com a reportagem, Milena mora com os pais e o irmão numa casa com piscina. O pai é dono de um bufê. Para uma festa de quatro horas com 200 convidados, o bufê cobra R$ 7 mil. “Esse ano até a gente passou por certas dificuldades. Nem viagem pra praia a gente não foi. Antes era comum de ir”, comenta Milena, à reporter do Fantástico.

Segundo MEC, para receber bolsa do ProUni o estudante necessita ter cursado o ensino médio em escola pública, ou ter sido bolsista integral em colégio particular, e comprovar que a renda mensal familiar, por pessoa, não passa de um salário mínimo e meio, o equivalente a R$ 765.

A reportagem do programa conversou com o pai de Milena, que confirmou que atualmente a família ganha mais do que esse valor. “Minha renda hoje está um pouco acima disso. Nunca mais ninguém pediu pra gente estar fazendo isso ou aquilo, apresentando esse ou aquele documento”, disse à reporter.

Camila Colombari Medeiros  vive num sobrado com a mãe e uma irmã. Segundo o MEC informou ao Fantástico, ela começou a receber bolsa em 2008. A  reportagem mostra que estudante vai para a faculdade em um carro que, novo, custaria pelo menos R$ 40 mil. Em conversa com a jornalista, a menina teria confirmado ser bolsista do ProUni.

A reportagem afirma que Belisa Stival estuda gratuitamente desde 2008 e que o pai dela anda num automóvel avaliado em R$ 50 mil. Segundo o programa, a família dela, de quatro pessoas, mora numa casa de dois andares. Em entrevista ao Fantástico, Belisa diz que recebe os benefícios do programa, pois foi bolsista em escola particular.

As três alunas deixaram de pagar, juntas, quase R$ 300 mil em mensalidades.

Parentes influentes


Segundo o MEC, cada instituição de ensino decide quem recebe a bolsa do ProUni. Segundo o Fantástico, as três estudantes denunciadas têm parentes em cargos importantes na Uningá. Belisa é filha de Ney Stival, o diretor de Ensino da Uningá. Camila é filha de Vânea Colombari, coordenadora de cursos profissionalizantes. Milena é sobrinha de Vânea.

Bolsa de R$ 300


As três estudantes recebem do ProUni uma bolsa permanência de R$ 300 por mês. O MEC informou ao Fantástico que Milena recebe este valor desde abril de 2008. Belisa e Camila, desde agosto de 2008.

Por telefone, a coordenadora da Uningá Vânea Colombari disse à reportagem do programa: que depende exclusivamente do rendimento da instituição. "Não tenho condições financeiras nenhuma de bancar a mensalidade da minha filha”, afirmou. A faculdade informou ao Fantástico que Vânea Colombari ganharia R$ 2.900 por mês.

O pai de Belisa, Ney Stival, e diretor de ensino da Uningá disse ao programa que as estudantes recebiam o benefício por haver bolsas sobrando.

Ricardo Benedito de Oliveira, diretor geral da faculdade, reinterou a afirmação. “A única procura que teve foi dessas duas moças, que casualmente são filhas de funcionários. Qual é o prejuízo das bolsas? Tem outra pessoa prejudicada por elas terem as bolsas? O fato é esse”, disse à reportagem.

O diretor alegou, ao programa, que a documentação apresentada pelas bolsistas atendia aos requisitos do MEC. “A instituição não tem uma equipe de investigação pra saber se o fulano que há um tempo morava de aluguel, hoje mora num palacete”, disse.

Pelas regras do ProUni, a faculdade tem obrigação de pedir ao aluno
que reapresente - pelo menos uma vez por ano - a documentação comprovando a baixa renda.

Na sexta-feira (30), um dia depois da entrevista do diretor geral, a Uningá enviou uma retificação dizendo que Belisa e Camila não tiveram o benefício mantido pelo ProUni em 2010, por não apresentarem a documentação necessária. O Ministério da Educação desmentiu essa informação ao programa, afirmando que a faculdade cancelou as duas bolsas apenas na sexta-feira, depois de saber que o Fantástico preparava esta reportagem.

Repercussão

“Se for constatada a irregularidade, a instituição vai ser desvinculada, podendo inclusive responder judicialmente e até criminalmente pelos fatos”, afirmou Simone Horta, coordenadora de supervisão do ProUni, ao programa da Rede Globo.

A reportagem do Fantástico também enfatizou o fato do MEC ter considerado o curso - criado em 2007 - deficiente e sem condições de funcionar. Apesar disso, a faculdade conseguiu um mandado de segurança. Mês passado, a Justiça determinou a transferência dos alunos para outras instituições e que o MEC tome providências.

Segundo o Fantástico, cerca de 450 mil universitários estudam graças ao ProUni. Ano passado, por causa de irregularidades, 1.700 bolsas foram canceladas e 15 instituições foram desvinculadas.

De acordo com a reportagem, além de não estudar mais de graça, as estudantes podem responder judicialmente pela situação. “A Justiça pode pedir, inclusive, ressarcimento dos cofres públicos durante o período que elas estiveram com a bolsa. Se for constatada má fé, elas podem responder criminalmente por esses atos”, avisa Simone Horta.