A Nova Ortografia é um Bicho-Papão? É. E por isso mesmo não é preciso ter medo dela. Bicho-Papão não existe na realidade, só na nossa imaginação ou no nosso medo.  

Primeira prova de que na realidade o tal Bicho-Papão ortográfico não existe: nãoNova Ortografia. O que aconteceu foi um “acordo”, entre os países que usam a Língua Portuguesa, para eliminar diferenças entre seus sistemas ortográficos. Esse acordo gerou em nossa ortografia umas poucas mudanças. Mas nosso Sistema Ortográfico continua valendo na grande maioria dos casos. Que maravilha! Ainda sabemos escrever, mesmo sem conhecer o Acordo Ortográfico!

Muitos jornais e revistas estão usando o termo errado, portanto. Deveriam dizer “as pequenas alterações” da Ortografia, e não a “NOVA” ortografia. Há pessoas que parecem gostar de enfeitar o Papão só para assustar os estudantes! Seria muito mais didático e útil dizer “Olha, gente, houve um acordo entre os países de Língua Portuguesa, e vamos ter de mudar algumas coisinhas na nossa ortografia, tá?” Mas não, fizeram o contrário. Estão escrevendo até livros a respeito. Parece que a mania em nosso país é dizer que tudo é grandioso, até as pequenas modificações na ortografia, que atingirão apenas 0,47% das palavras.

Segunda prova de que o tal Bicho-Papão ortográfico não existe: seis regrinhas novas são para deixar de fazer e não para passar a fazer. Que bom! É mais fácil deixar de fazer o que se sabe do que aprender a fazer o que ainda não se sabe. Não é?

Assim, não se preocupe com essa questão da “nova” ortografia no seu exame vestibular, por três razões:

 Primeira – Ainda há tempo para começar a obedecer a essas regras: até dezembro de 2012. Até lá, ninguém poderá penalizá-lo por escrever sem as alterações do Acordo. Se você for do tipo “sossegadão”, deixe para pensar no assunto somente a partir dessa data.

Segunda – Não poderá haver, portanto, exigência dessas regras em nenhuma situação: concursos, vestibulares, etc. etc.

Terceira – Como você agora sabe, apenas 0,47% das palavras do português do Brasil serão modificadas na escrita. Isso não alterará em quase nada a ortografia de qualquer texto. Quer uma boa prova? Observe todo este texto do Blog, do título até este ponto. Nenhuma das palavras escritas até aqui é alcançada pela “nova” ortografia. Se o autor deste artigo não conhecesse as novas regrinhas, o texto seria exatamente o mesmo. Isso provavelmente acontecerá com as trinta linhas de sua redação no exame vestibular. Captou?

Então, não se preocupe. Esse Bicho-Papão não assusta nem criança. Mas se você é do tipo “ligadão” e não quer deixar para amanhã o que pode aprender hoje, vamos estudar o trema e a acentuação no Acordo Ortográfico de um jeito muito descontraído. São regrinhas do tipo “Deixe disso!”, isto é, deixe de botar o sinal.

Assim,

 1) DEIXE de usar o trema. O trema morreu, que os Anjos digam amém!

 Era um mal antiquíssimo criado por algum linguista louco e eloquente, uma coisa de equino que ninguém mais aguentava. Vamos ficar cinquenta vezes mais tranquilos e será ótimo depois de uma sequência de cinco anos comemorar um quinquênio sem tremar coisa nenhuma.

  2) DEIXE de colocar o acento agudo sobre a vogal aberta tônica dos ditongos -EI- e -OI- em palavras paroxítonas terminadas em -EIA, -EIAS, -EICO, -EICOS, -OIA,           -OIAS, -OIAM, -OICO, -OICOS, -OIDE, -OIDES, -OIE, -OIES, -OIEM, -OIO, -OITO, -OITOS.

 Que joia! Não me sinto mais um androide moloide que não sabia se devia acentuar ou não colmeia. Apoio e espero que você apoie e todos apoiem inteiramente essa ideia. Foi um esforço estoico e heroico acabar com essa paranoia.

 Mas, cuidado! Só as paroxítonas com esses ditongos ficam sem acento; as oxítonas continuam sendo acentuadas: Você vai continuar pagando aluguéis, usando anéis, pescando com anzóis, comendo caracóis, enrolando fios nos carretéis, ligando os faróis, tirando o chapéu, andando ao léu, lavando os lençóis, defendendo o réu e sendo um fiel entre os fiéis.      

 3) DEIXE  de acentuar o -U- tônico que surge após ditongo em palavras paroxítonas como baiuca, bocaiuva, boiuno, reiuna, reiuno, feiura. Para falar a verdade, a gente já tinha deixado de fazer isso havia muito tempo, não é? E ninguém notava!

             Mas, cuidado também aqui! Só as paroxítonas. As oxítonas continuam com o acento: teiú, teiús, sucuruiú, sucuruiús, tuiuiú, tuiuiús, Piauí.   

 4) DEIXE de usar o acento circunflexo sobre o -E- e o -O- tônicos de palavras paroxítonas terminadas em -EEM, -OO, -OOS: creem, deem, descreem, leem, preveem, releem, reveem (verbo rever), veem (verbo ver), abençoo, abotoo, acoroçoo, acorçoo, assoo, caçoo, coo, doo, enjoo, magoo, perdoo, reboo, ressoo, revoo, soo, voo.

 Não confunda: continua valendo a distinção gráfica entre a terceira pessoa do singular e a do plural no caso dos verbos “ter” (ele tem, eles têm) e “vir” (ele vem, eles vêm). E assim também correspondentemente em: mantém, mantêm; retém, retêm; entretém, entretêm; sustém, sustêm; contém, contêm; advém, advêm; convém, convêm; provém, provêm. Mas, como você já fazia isso, é só um lembrete.

 5) DEIXE de usar o acento diferencial em pólo, pôlo, péla, pêlo, pára, pêra. Agora é tudo polo, polo, pela, pelo, para, pera, não importando a pronúncia nem a classe de palavra. Veja como ficou fácil: Ele come uma pera e para para jogar polo. Sobraram apenas duas palavras em que é obrigatório: pôr (verbo) para diferençar de por (preposição) e pôde (pretérito perfeito) para diferençar de pode (presente do indicativo, com “o” aberto); e uma palavra que você poderá usar com acento diferencial, se achar que tornará mais clara a frase em que aparecer: fôrma, para diferençar de forma.  

 Ontem o padeiro não pôde pôr a massa na fôrma, porque estava amassada e perdeu a forma, mas hoje ele pode, por ter comprado duas fôrmas novas.

 6) DEIXE de usar o acento agudo no -U- tônico dos grupos -GUE, -GUI, -QUE, -QUI: apazigue, apazigues, arguem, argui, arguis, arguem, averigue, averigues, averiguem, oblique, obliques, obliquem, redargui, redarguis, redarguem.   

Muito fácil, não? Não é muita coisa.

Sim, mas a regra do hífen? Vixe! Essa é fera! É Papão mesmo. Como assustava até os gramáticos, tentaram deixar menor o bicho, mas ele aumentou, e agora até os criadores do monstro têm dúvidas. Vamos tocar no assunto noutra oportunidade, depois que sair a segunda edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa – VOLP.  A primeira ainda não resolveu tudo.