Em novembro de 2007, consumidores dos Estados Unidos poderão comprar PC. Teste aprovou o laptop. Agora, resta vencer o medo de usuários e da indústria.

Em novembro, será possível comprar nos EUA um laptop à prova de chuva, poeira, queda e derramamento de líquidos. Funciona sem ventilador, é silencioso e pesa um quilo e meio. Uma carga de bateria assegura seis horas de trabalhos mais pesados ou 24 horas de leitura.

Embutidos no laptop temos câmera de vídeo, microfone, slot para cartão de memória, mesa gráfica digitalizadora, controles remotos para jogos e uma tela com opção de configuração de mesa gráfica. E esse laptop custará US$ 188 (equivalente a R$ 345).

O computador, se você ainda não adivinhou, é o famoso "laptop de US$ 100" que vem provocando alarde e polêmica há três anos. Trata-se de uma iniciativa do programa OLPC, One Laptop Per Child, ou "um laptop por criança", cujo objetivo é desenvolver um computador extremamente barato, com grande potência e totalmente resistente, destinado a 2 bilhões de crianças desprovidas de educação de qualidade em países pobres.

O conceito: se uma máquina for projetada de maneira inteligente o suficiente, sem os recursos sofisticados (ou bloats) de laptops padrão, e vendida em volumes grandes o suficiente, o preço pode ser muito, mas muito reduzido. Talvez não seja possível chegar a US$ 100, como o OLPC em princípio esperava, mas pelo menos a um preço baixo o suficiente para que os países em desenvolvimento tenham condições de comprá-los, distribuindo um para cada criança.

O laptop agora se chama XO, porque, com um giro de 90 graus, o logotipo se assemelha a uma criança.

O OLPC modificou um pouco sua estratégia quando decidiu disponibilizar a máquina para venda ao público no mundo industrializado por um período de duas semanas, no mês de novembro. O programa se chama "Doe um, Ganhe um", e funciona da seguinte forma: você paga US$ 400 e recebe um laptop XO (e um abatimento fiscal) no Natal. O outro será enviado para um estudante de um país pobre.

Preferências

O grupo sem dúvida se preocupa com a possibilidade de as pessoas compararem o XO com laptops Windows ou Mac de US$ 1.000. As pessoas podem publicar textos na internet manifestando sua decepção, ameaçando assim a continuidade das negociações do OLPC com os governos do terceiro mundo.

É fácil entender por que isso poderia acontecer. O laptop não possui unidade de CD/DVD, nem disco rígido e a tela é de apenas 7,5 polegadas. O sistema operacional Linux não funciona com o Microsoft Office, o Photoshop ou qualquer outro programa padrão do Mac ou Windows. O teclado com vedação anti-derramamento é pequeno demais para digitação de um adulto.

Sem contar o visual do equipamento. É feito de plástico brilhante verde e branco, como os brinquedos da Fisher-Price, arrematado com uma alça. Com aquelas duas antenas que mais parecem orelhas levantadas, poderia perfeitamente ser o pequeno robozinho do Shrek.

E é óbvio: os bloggers e os ignorantes já começaram a desdenhar o laptop XO. "Cara, fala sério, por US$ 400 dá pra comprar um laptop Windows de verdade", como eles dizem. Sem dúvida, a missão do XO entrou por um ouvido e saiu pelo outro para esse pessoal.

Funcionamento

A verdade é que o laptop XO, agora em fase final de testes, é absolutamente incrível. E, de acordo com meus testes limitados, um atrativo irrefutável para as crianças. Tanto o hardware como o software revelam uma infinidade de avanços, muitos deles não disponíveis em nenhum outro laptop de US$ 400 ou US$ 4.000.

Nos lugares onde o XO será usado, muitas vezes há problemas de fornecimento de energia. Por isso, o laptop utiliza uma nova química de baterias, chamada fosfato de ferro-lítio. Funciona a um décimo da temperatura de uma bateria tradicional de laptop, custa US$ 10 para ser substituída e vale para 2 mil ciclos de cargas, comparadas com 500 de uma bateria comum de qualquer outro laptop.

 

Laptop não possui unidade de CD/DVD, nem disco rígido e tela é de 7,5 polegadas

O laptop consome uma média de 2 watts, comparados com 60 ou mais de um laptop de uso executivo comum. Esse é um dos motivos que explicam o prolongamento da vida de sua bateria. Um pequeno carregador a corda semelhante a um ioiô também é oferecido (um minuto de corda garante 10 minutos de energia); além de um painel solar de US$ 12 que, apesar de pequeno, fornece energia suficiente para recarregar ou fazer a máquina funcionar.

Falando em brilho da luz solar, a tela colorida do XO é clara e, contando com 200 pontos por polegada, possui ótima resolução (1.200 por 900 pixels). Mas possui uma identidade secreta: à luz solar, é possível desligar completamente a iluminação traseira de luz branca (ou backlight). A visualização resultante, preto em cinza claro, é tão nítida e legível que é praticamente como papel. Dessa forma, é claro, a bateria dura ainda mais.

O XO oferece dois tipos de conexão à internet: a comum sem fio e a chamada rede de malha, pela qual todos os laptops se vêem entre si, instantaneamente, sem nenhuma instalação adicional, até mesmo quando não há conexão por internet.

Com o simples apertar de um botão, um mapa é exibido. Os logotipos individuais do XO, codificados por cores para diferenciá-los, representam outros laptops na região. Para se conectar, basta um clique (não existe duplo clique no sistema operacional visual extremamente simples do XO. Basta apontar o mouse ou clicar uma vez).

Esse recurso possui uma utilidade impressionante. Se apenas um laptop possuir conexão de internet, por exemplo, os outros das proximidades também conseguem acesso on-line, graças à rede de malha. Além disso, quando o OLPC divulgar atualizações do software, um laptop pode enviá-las para outros laptops das redondezas.

Diferenças

Os usuários acostumados a equipamentos potentes vão bufar com as especificações desta máquina. Possui apenas 1 GB de armazenamento, tudo em memória flash, sendo 20% disso ocupado pelo software do sistema XO. O processador é fraco pelos padrões convencionais. A inicialização demora dois minutos e a troca entre um programa e outro é demorada.

Depois de entrar em um programa, porém, a velocidade é boa; o que acontece é que um processador leve é mais do que suficiente se o software for gravado de modo compacto e inteligente (o OLPC ressalta que, apesar dos gigantescos avanços em termos de potência de processador, os laptops de hoje não são mais rápidos do que os de alguns anos atrás. Os programas e sistemas operacionais adicionaram tantos bloats que acabam absorvendo os ganhos de velocidade).

Os programas que vêm com o computador não são menos inteligentes. Existe processador de texto, navegador de web, calculadora, leitor de textos em PDF, alguns jogos (cópias do Tetris e do Connect 4), três programas de música, um aplicativo de desenho, um programa de bate-papo e assim por diante. O módulo de câmera permitirá que os professores, pela primeira vez, enviem mensagens para pais analfabetos dos alunos.

Existem ainda três ambientes de programação com diferentes níveis de sofisticação. Por incrível que pareça, apenas um toque de tecla revela o código interno de quase qualquer programa XO ou página web. Os estudantes podem não só estudar como seus programas favoritos foram gravados, mas também fazer experiências com algumas alterações (caso baguncem tudo, podem restaurar o original).

É de fato brilhante essa ênfase em compreender o computador em si. Muitos países do mercado do XO carecem de recursos naturais e a necessidade global de trabalhadores da informação aumenta a cada dia.

A maioria dos programas do XO são compartilháveis na rede de malha, que é outra engenhosa inovação. Sempre que estiver usando o processador de texto, gravando música, tirando fotos ou lendo um livro eletrônico, você pode clicar no botão "Compartilhar".

Seu documento é exibido ao lado do seu ícone no mapa da rede de malha, assim as outras pessoas podem ver o que você está fazendo ou podem trabalhar com você. Os professores podem supervisionar sua redação, os colegas podem colaborar com um documento, amigos podem jogar Connect 4 com você ou alguém do outro lado da sala pode acrescentar uma melodia à sua bateria no programa de música.

Você nunca viu nada como isso.

Os dois laptops que analisei tinham um software de gerenciamento de energia inacabado, softwares em versão beta e alguns defeitos cosméticos. Mas o OLPC e seu exército mundial de programadores (voluntários) de fonte aberta esperam estar com tudo redondo até o início da fabricação em massa previsto para novembro.

Medo

Não, o maior obstáculo para o sucesso do XO não é a tecnologia, pois esta já demonstrou ser uma maravilha, mas sim o medo. Os ministros da educação dos países têm medo de que a mudança do status quo possa colocar seus empregos em risco. Renomadas fabricantes de computador têm medo que o XO lhes tome um mercado de 2 bilhões de pessoas que elas estão deixando passar.

Os críticos do programa temem que os países mais pobres precisem muito mais de comida, tratamento contra malária e água potável do que de computadores (o fundador do programa, Nicholas Negroponte, rebate: "Ninguém que eu conheço diria, 'A propósito, que tal deixarmos a educação para depois'. A educação é, na verdade, a solução para todos esses problemas crônicos").

Mas o XO merece superar esses medos. Apesar de todos os obstáculos e de críticos incrédulos, o OLPC desenvolveu um laptop resistente e simples o suficiente para locais quentes, úmidos e empoeirados; bacana o suficiente para atrair a atenção da molecada, na escola e em casa; além de aberto, flexível e colaborativo o suficiente para apoiar um milhão de métodos de ensino e aprendizagem diferentes.

Sem dúvida alguma é uma grande guinada tecnológica. Resta-nos apenas esperar que ele consiga romper as barreiras humanas.