Vai faltar água?

Segundo as projeções mais recentes da ONU, no ritmo de uso e do crescimento populacional, nos próximos 30 anos, a quantidade de água disponível por pessoa estará reduzida a 20% do que temos hoje. Cerca de 480 milhões de pessoas são hoje alimentadas com grãos produzidos com extração excessiva dos aqüíferos.

A Guerra pela Água

O mundo está descobrindo que a escassez de água não é uma questão exclusiva de quem mora em regiões desérticas. Guerras por fontes de energia - como o petróleo - já se tornaram corriqueiras. Neste século, a água está se tornando a questão central por trás dos grandes conflitos no planeta.

Brasil - um país privilegiado, mas desigual

O Brasil é um país privilegiado num planeta sedento. Tem cerca de 14% de toda a água doce que circula pela superfície da Terra. Mas a distribuição dessa abundância é desigual.

A região norte onde localiza-se a bacia Amazônia concentra 80% da água disponível no país e apenas 3% da população, em contraste com a área da bacia do Prata no Sudeste, onde se concentra 32% da população, grande parte da atividade econômica e somente 6% da água disponível afirma um novo estudo sobre a crise da água, divulgado pela ONU, voltado especificamente para os países da Bacia do Rio da Prata (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia).

Tendência Mundial - Privatização

Os países debatem hoje a melhor forma de gerenciar a água, um recurso cada vez mais escasso. A tendência mundial é recorrer à iniciativa privada. Em 1980, o mundo tinha 12 milhões de domicílios atendidos por concessionárias privadas.

Hoje, são 600 milhões. A Inglaterra, a França e o Chile foram pioneiros. Quase todo o negócio mundial de gestão de água está nas mãos de duas empresas francesas.

A maior delas, a Veolia, faturou US$ 13 bilhões no ano passado. A segunda, a Suez, ganhou US$ 7,5 bilhões em negócios com água. Os defensores da privatização afirmam que só ela é capaz de gerar recursos para a exploração e gestão da água. Trata-se de um fator essencial no caso de países como o Brasil, onde o desafio ainda é garantir água tratada para todos.

China - Água e Crescimento Econômico

A China está pagando pelo descuido ambiental. Cerca de 70% dos rios estão poluídos e 320 milhões de pessoas bebem água contaminada. Cuidar da gestão da água é essencial para garantir os recursos necessários ao crescimento econômico.

A Experiência Chinesa

Basta analisar a experiência da China. O país, que resgatou milhões de pessoas da miséria nos últimos anos, agora enfrenta os limites de seus recursos hídricos. Para sustentar a superpopulação de 1,3 bilhão de habitantes e o consumo crescente das indústrias, a China usa água de forma insustentável - e paga o preço.

 

Os lençóis subterrâneos da capital, Pequim, diminuem 2 metros por ano. Um terço dos poços da região metropolitana já secou. A agricultura também está comprometida. Na região que se estende do norte de Xangai ao norte de Pequim, responsável pela produção de 40% dos grãos chineses, o lençol freático cai a uma taxa média de 1,5 metro por ano.

Os fazendeiros do norte enfrentam perdas tanto pela exaustão dos aqüíferos quanto pelo desvio da água para cidades e indústrias. A demanda levou a China a construir canais para transpor as águas do Rio Yang-Tsé para o Rio Amarelo. A obra, de US$ 60 bilhões, é considerada uma das maiores do mundo.

A Experiência Chinesa II

A China também paga pela poluição de seus poucos recursos hídricos. Estima-se que 70% dos rios locais estejam poluídos. Cerca de 96% da população rural despeja seu lixo a céu aberto. A sujeira é carregada pelas chuvas, elevando o número de doenças.

Hoje, 320 milhões de chineses bebem água com detritos animais e altas doses de arsênio - causador de problemas na pele, cânceres e doenças circulatórias -, de acordo com a organização não-governamental Amigos da Natureza, com sede em Pequim.

Em novembro do ano passado, os habitantes de Harbin, capital da província de Heilongjiang, no norte do país, descobriram isso de forma dramática. O Rio Songhua, que corta a cidade, amanheceu coberto por uma mancha de substâncias químicas cancerígenas com 80 quilômetros quadrados. O despejo no Songhua foi causado pela explosão de uma central petroquímica. Os 3,8 milhões de habitantes de Harbin ficaram cinco dias sem água.

A experiência Indiana

Na segunda estrela emergente da globalização, a Índia, o combate à pobreza é prejudicado pela escassez de água. Um sexto da produção indiana de alimentos só é possível graças ao bombeamento da água do lençol subterrâneo, que se esgota rapidamente.

No Estado de Tamil Nadu, mais de um terço dos aqüíferos são explorados de forma insustentável. Mais água é retirada deles do que reposta pelo ritmo de recarga natural das chuvas. Em Punjab, uma região agrícola altamente produtiva, considerada o celeiro da Índia, os lençóis freáticos caem à velocidade de 1 metro por ano. Segundo estimativas do Banco Mundial, até 2050 a demanda de água na Índia ultrapassará os suprimentos disponíveis.

A Tragédia Africana

A falta de água também explica algumas tragédias do continente africano. Quem vive em países como Gâmbia, Mali ou Somália tem menos água por dia que a usada por um americano para escovar os dentes. Na Líbia, as reservas subterrâneas da costa do mediterrâneo, onde ficam as principais cidades, como Trípoli, ficaram salobras.

O país, financiado pelo petróleo, está gastando US$ 25 bilhões para construir um rio artificial de 1.000 quilômetros de extensão, para transferir água de depósitos subterrâneos ao interior do continente. Essa fonte não dará conta do consumo atual para sempre e deverá secar em, no máximo, 50 anos.