Semana passada o mundo foi sacudido pela notícia da renúncia do líder cubano Fidel Castro. Os principais meios de comunicação brasileiros noticiaram a morte de Castro. Afinal, todo jornal que se preze deve ter uma matéria na agulha, pois, de uma hora para a outra, Fidel pode decidir, finalmente, morrer.

Não foi dessa vez. Para a tristeza dos políticos americanos mais conservadores e dos cubanos exilados em Miami, o resistente líder vive.

Quando todos esperavam que já não fosse mais notícia, eis que surge Fidel, como se descesse novamente a Sierra Maestra rumo à Havana, mostrando ao mundo possibilidades que o mundo não vislumbrava e não admitia. Seu senso de oportunismo impressiona. Seu poder de comando também.

É inegável que a sucessão cubana definiu-se há mais de um ano, com o aval do convalescente presidente. Raul Castro, o irmão que não se importa em viver à sombra do mito e que prima pela discrição, é o novo presidente cubano – só porque Fidel permitiu.

Poucas vezes na história, alguém pôde exercer tamanha liderança e tomar decisões tão claras deitado na cama de um hospital. Fidel vai morrer. Mas só na hora certa e se isso for de algum proveito para sua Ilha...

No dia em que isso acontecer teremos uma resposta mais clara para a pergunta de como a história tratará Fidel Castro. Como no filme de Bergman, parece que Fidel joga xadrez com a morte e com a própria história.

Quando foi preso, logo após a fracassada tentativa de assalto ao Quartel Moncada, num dos primeiros atos do grupo revolucionário MR-26 de Julho contra a Ditadura de Fulgêncio Batista, proferiu um famoso discurso que terminava com a sentença: “A história me absolverá!” No calor da Revolução, talvez pensasse que tinha a história nas mãos. Mas a história é do mundo, é construída pelos homens, mas sobrevive a eles, e, por isso, não pertence a ninguém. Contudo a história pode ser dócil e influenciável, dependendo de quem a conta.

Imagino que atualmente seja difícil encontrar algum artigo que enalteça a figura de Castro, fora da imprensa oficial cubana. Isso não é novidade. Criou-se uma divisão muito clara de papéis na Revolução Cubana. Existe uma Revolução de Che e outra de Fidel.

A Revolução de Che Guevara passou por um inegável processo de despolitização. Normalmente é analisada fora de contexto e o mito criado ao redor do médico argentino, que tinha vida confortável, e que se entregou pela causa revolucionária cubana, supera os fatos. Che ingressou no imaginário popular como o legítimo herói latino-americano. As causas pelas quais lutava eram universais.

Seus inimigos eram a pobreza, a miséria e a falta de perspectivas. Seu sonho maior: uma América Latina solidária, como alavanca para uma transformação do próprio homem. Sim, ele acreditava no novo homem, desprovido do egoísmo mesquinho engendrado pelo capitalismo extremado. Ele acreditava em uma sociedade mais justa, a começar pela sociedade cubana.

Che assumiu ministérios, desenvolveu projetos, foi responsável pela propaganda revolucionária, foi homem-forte da Revolução, ombro a ombro com Fidel. Mas sempre foi maior que tudo isso. Sua causa era mundial. Foi para a África, lutar no Congo. Queria mil Vietnãs!!! Voltou para a Bolívia para tentar criar novos focos guerrilheiros.

Em meio a dificuldades inomináveis foi emboscado e assassinado. Vê-se desnudado o herói latino. É no sofrimento que nossa solidariedade reside. O fracasso nos é familiar. Por isso a identificação de Che com grupos tão diferentes como a torcida do Flamengo e as bandas de rock. Nos identificamos até com a asma do Che.

Já a Revolução de Fidel é diferente. Castro simbolizou o lado pragmático da luta. Seus discursos mudaram de acordo com os contextos. Fidel virou o anjo mau. Participou do jogo sujo da Guerra Fria. Do jogo sujo dos homens.

 

Não acreditava no novo homem. Acreditava na Revolução. Em Cuba. Logo na tomada do poder, em janeiro de 1959, afirmou: “Eu não sou socialista nem capitalista. A única coisa da qual tenho certeza é de que sou cubano!”. As reformas iniciais beiraram o populismo latino, recheado com suas demagogias habituais. O sucesso do marketing foi impressionante.

Não era comum ver hotéis de luxo que lavavam o dinheiro de mafiosos poderosos dos EUA serem ocupados por favelados. Tampouco ver terras de poderosas empresas serem confiscadas para fins de reforma agrária. O vento que vinha do norte soprou forte.

Castro tentou negociar indenizações. Veio o Bloqueio Econômico e a expulsão da OEA. O tempo era o da Coexistência Pacífica, o­nde americanos e soviéticos sacrificavam o enfrentamento em nome do crescimento econômico. Cuba virou uma pedra no sapato de ambos.

Kruschev não podia abandonar a oportunidade de angariar um aliado, mesmo que ele fosse minúsculo, a 150 quilômetros da Flórida. Aproximou-se. Assinou acordos para comprar açúcar, vender petróleo e fornecer armas. Os americanos patrocinaram uma invasão, em 1961, para tentar derrubar Castro. Fracassaram de maneira retumbante. Vieram os mísseis nucleares soviéticos.

O mundo quase acabou. Em nome da Coexistência, Kruschev recuou em troca de um compromisso de que a Ilha não sofreria novas invasões. Fidel cortou relações com os russos, acusando-os de traição. Logo após mudou de idéia, percebendo o óbvio: fora das asas da galinha o pintinho é presa fácil.

E a galinha cuidou do pintinho.

Cuba foi integrada ao bloco socialista. Fidel até confessou que a Revolução encarnava um desejo pelo socialismo desde o início. Patrocinado, promoveu uma política social impressionante. Uma comparação com países caribenhos, faria a Ilha parecer uma verdadeira jóia. Havia distribuição de alimentos, de casas e terras. O sistema educacional foi todo reformulado, garantindo a erradicação do analfabetismo. Para cada rua um médico de família.

Campanhas de vacinação contiveram as epidemias mais resistentes. Cuba promoveu campanhas internacionais pelo socialismo. Enviou tropas para Angola e auxiliou grupos de resistência às ditaduras militares latino-americanas. Nesse mesmo período, sob o discurso da constante ameaça externa e da possibilidade de conspirações internas, a política sofreu violenta centralização.

Foi construído um Estado Totalitário, com uma política duvidosa, para usar um eufemismo, em relação aos direitos humanos. A imprensa foi controlada e acabou a liberdade de expressão. Gays foram presos e a religião foi banida. Os dissidentes eram fuzilados ou fugiam desesperados para os EUA, na tentativa de criar o contragolpe. Fidel transfigurou-se no ditador latino. Diferente do paradigma que cerca outros ditadores latinos, mas ainda assim ditador.

Passaram-se trinta anos e a galinha morreu sem fazer o pintinho virar galo. A falência soviética pegou os cubanos de calças na mão. Perderam os ovos de ouro. Não havia indústrias, e a exploração das riquezas minerais era rudimentar, a dependência externa era enorme. O pior é que o Bloqueio americano se intensificou, como se fosse o tiro de misericórdia.

Veio a lei Helms-Burton, que punia empresas que insistiam em fazer negócios com os cubanos. Os exilados de Miami, numa ironia do destino, começaram a mandar num dos mais poderosos colégios eleitorais americanos, a Flórida, o­nde possuem uma comunidade unida e anticastrista de coração. Faltou petróleo e energia.

A miséria fez os cubanos se prostituírem. Surgiu a nova esquerda latino-americana, e com ela Hugo Chávez. O petróleo voltou a Ilha em troca da carona na história de Castro e de Cuba. O PIB voltou a crescer, a miséria diminuiu. Foram realizadas reformas econômicas. E Fidel sobreviveu...

Sofreu diversas tentativas de assassinato, manobrou no cenário internacional, viu o povo morrer de fome. Teve sua morte anunciada inúmeras vezes, mas contra todos os prognósticos, sobreviveu. Sobreviveu no poder. Talvez isso faça dele um herói.

Um herói moderno, com todas as contradições que isso acarreta. Como julgar de maneira definitiva um ditador violento que doou suas próprias fazendas para os campo-neses pobres?  Por isso é impossível admirá-lo ou endeusá-lo, como a Che. Nem a história dará uma resposta definitiva. Fidel continuará transitando entre o poeta gay torturado e a velhinha maravilhada que aprendeu a ler aos 80 anos.