Acabou a colher de chá. Quem quiser entrar na universidade, que trate de caprichar na redação. Uma portaria do MEC tornou a prova obrigatória e eliminatória em todo e qualquer concurso vestibular. Para Reginaldo Pinto de Carvalho, consultor do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a decisão não poderia ser mais acertada.

Por que os alunos vão tão mal na redação?

Eis um belo mote para dissertação, com ingredientes de sobra para um debate acalorado. Por muito tempo, porém, em vez de procurar argumentos, defender pontos de vista e buscar soluções, muita gente preferiu fugir do tema. Até que, de tanto empurrá-lo com a barriga, a polêmica foi parar na tela do Fantástico. Em dezembro de 2001, o programa fazia uma denúncia-bomba: até um semi-analfabeto poderia passar no vestibular.O padeiro Severino da Silva, aprovado nas Universidades Estácio de Sá e Gama Filho, era a prova viva disso. Sua aprovação tinha duas razões. De um lado, os chutes certeiros nas questões de múltipla escolha; de outro, um motivo que nada tinha a ver com a sorte. É que os vestibulares tinham afrouxado tanto o peso da redação que até quem a entregasse em branco ainda tinha chances de conquistar uma vaga. Sobretudo no caso de Severino, em que o curso de Direito tinha mais vagas do que candidatos.

Culpa da expansão desenfreada das faculdades particulares? O MEC fazia vista grossa?

Para dirimir qualquer suspeita de conivência, o ministro Paulo Renato baixou uma portaria que tornou a redação obrigatória nos vestibulares. Será eliminado o candidato que tirar zero ou não atingir a nota mínima, a ser definida pela instituição que estiver promovendo o concurso. Faculdades isoladas, integradas e centros universitários não têm escolha: terão de incorporar, ao menos parcialmente, a nota da redação do Enem.

As regras só valem para os calouros de 2003. Mas, como a nota do Exame Nacional do Ensino Médio ganhou peso, muitos vestibulandos já marcaram na agenda o dia 25 de agosto, data do Enem 2002. Reginaldo Pinto de Carvalho, coordenador de correção do Enem, apóia a decisão. “Essa medida poderá fazer com que a sociedade exerça pressão sobre a escola para que ela cumpra sua obrigação de dotar os alunos das competências para produzir um texto coerente”, opina.

Para quem tem calafrios só de pensar em redação, ele garante que não há motivos para temer. Em vez de pegadinhas e surpresas, no Enem, ela será uma dissertação de tema “atual”, “nacional” e “com circulação garantida nas escolas de Ensino Médio”. Carvalho também fala dos critérios usados para garantir uma justa correção e das competências avaliadas. A primeira delas é o domínio da norma culta, que, segundo ele, é o que garante “o pleno exercício da cidadania e a apropriação do saber cultural, científico e social presente nos diversos tipos de textos”.

Segundo o Inep, o Enem compreende, entre outras coisas, “a competência de produzir textos no sentido amplo do termo”. Mas, na prova, há sempre apenas uma proposta de redação. A escolha de um tema único não é contrária a esse objetivo de uma avaliação ampla?

O modo como é feita a proposta, envolvendo diferentes textos e linguagens que tratam de temas atuais, sob uma ótica também diversa, permite essa avaliação ampla. Deve-se levar em conta que o participante tem várias possibilidades de abordagem do tema, tanto na opção por um determinado ponto de vista quanto na seleção de fatos, opiniões, informações e argumentos que sustentarão seu projeto de texto.

Nos moldes atuais do Enem, a redação permite avaliar as habilidades do aluno nas variadas formas de registro escrito da língua portuguesa?

A redação do Enem avalia a competência para fazer uso da norma culta da língua portuguesa em sua modalidade escrita. Com um mínimo de onze anos de escolaridade, ao término do ensino básico, espera-se que o participante esteja capacitado para ler e escrever, dominando a norma culta da língua escrita. O exercício pleno da cidadania exige a apropriação do saber cultural, científico e social presente nos diversos tipos de texto em circulação. Textos jornalísticos, didáticos, acadêmicos, administrativos, literários e outros são redigidos em norma culta, tornando-se indispensável o seu domínio. Quanto às outras variedades lingüísticas, o exame estimula o trabalho com elas em sala de aula, incorporando-as em questões da parte objetiva da prova, como se pode verificar em suas edições anteriores.

O Enem é um exame nacional, enquanto os vestibulares são exames regionais. Isso não dá margem a distorções? Por exemplo: a escolha de um tema mais urbano, em que um aluno de determinada região sai prejudicado porque, para ele, o assunto é menos familiar ou vice-versa…

Estamos convictos de que os temas propostos devem priorizar questões não só atuais, mas também nacionais. Devem ser, portanto, temas que transcendam a qualquer tipo de regionalização e que tenham circulação garantida nas escolas de nível médio, independentemente de sua localização.