Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, osEstados Unidos assistem à emergência de outro "rival" governado por umPartido Comunista, a China, ironicamente o país que mais se beneficiouda globalização que saiu vencedora da Guerra Fria.

Opaís asiático já possui muitas das credenciais de superpotência: armasnucleares, assento no Conselho de Segurança da ONU, programa espacial,liderança no quadro de medalhas olímpicas e uma economia que não parade crescer.

Mas à diferença da ex-União Soviética, os americanos têm com a Chinauma relação de extrema integração e dependência econômica, que tornamais complexo o vínculo entre a atual potência mundial e a que está emascensão.

Prestes a ultrapassar o Japão e assumir o segundo lugar no rankingdas maiores economias do mundo, a China é o principal credorinternacional dos EUA, com pelo menos US$ 800 bilhões em títulos doTesouro americano. Também tem o maior volume de reservas internacionais- US$ 2,27 trilhões -, o que a deixa extremamente vulnerável àsoscilações do dólar.

Depois do início da crise econômica global, em setembro, os doispaíses passaram a protagonizar uma disputa involuntária de "modelos"econômicos e políticos. Com forte presença do Estado na economia e umgoverno autoritário, a China foi capaz de mobilizar recursos paraevitar um colapso do crescimento, que se recuperou rapidamente graçasao pacote de estímulo de US$ 584 bilhões anunciado em novembro.

A debacle dos países ricos acelerou o processo de emergência chinesae deu aos dirigentes de Pequim confiança suficiente para defender seusinteresses na arena global. No início do ano, as autoridades chinesasabandonaram sua tradicional discrição para propor a substituição dodólar como moeda de reserva de valor mundial. Ao mesmo tempo, Pequim dáos primeiros passos para promover o uso internacional de sua própriamoeda, realizando acordos de swap cambial com vários países, entre osquais a Argentina.

Fora da esfera econômica, a China ampliou seu poderio militar eexibiu seu novo arsenal no desfile de celebração dos 60 anos daRevolução Comunista, em 1 de outubro. O país já integra o seleto grupode detentores de armas nucleares e tem assento no Conselho de Segurançada ONU, ao lado de EUA, Rússia, Grã-Bretanha e França.

CORRIDA ESPACIAL

Outro terreno que assiste à ascensão de Pequim é a corrida espacial,que durante anos teve como protagonistas os dois antigos adversários daGuerra Fria. Em 2003, a China transformou-se no terceiro país do mundoa enviar uma missão tripulada ao espaço, depois dos soviéticos e dosamericanos. Mais emblemático é o fato de que a China poderá ser opróxima país a despachar um astronauta para a Lua. Se os chinesesmantiverem o atual ritmo de desenvolvimento de seu programa espacial, aagência espacial americana acredita que eles poderão aterrissar na Luaem 2017 ou 2018, antes da próxima expedição dos EUA, prevista para 2020.

Apesar das rivalidades, os dois países cooperam em várias áreas e osamericanos se esforçam para "engajar" a China em seu mundo. O paísasiático integra todos os organismos multilaterais dominados pelasnações ricas, como Banco Mundial, FMI e Organização Mundial doComércio. Mas também joga segundo suas próprias regras, ao manterrelações com países considerados párias pela comunidade internacional -Coreia do Norte e Sudão - e conceder empréstimos generosos sem asexigências relacionadas a direitos humanos e democracia feitas pororganismos multilaterais.

Na próxima semana, o presidente Barack Obama fará sua primeiravisita à China e o tom será a cooperação. O entendimento entre os doispaíses é fundamental para uma série de questões globais, entre elas oaquecimento global. Maiores emissores de gases que provocam efeitoestufa, China e EUA serão decisivos para o resultado da conferênciasobre mudança climática que será realizada no próximo mês.