O mundo se curvou aos fatos. O esforço humanitário é urgente paragarantir o mínimo diante das conseqüências indeléveis do terremoto noHaiti. A cooperação é o lema e todos querem estar junto aos difíceistrabalhos de salvamento e proteção de desamparados pela imperiosanatureza e pela imprudência dos homens.

A tragédia haitiana, noentanto, se faz dentro da reedição das duras disputas da políticainternacional do momento. Depois de Copenhague, onde pesou o arranjosino-americano, o Haiti é o novo palco para a exibição dos interesses edas quedas de braço do sistema internacional em momento de redesenho dehierarquias. Abandonadas pelas grandes potências, que minguaramrecursos e esforços diplomáticos para o alívio da pobreza no Haiti e empaíses miseráveis que o mundo ainda abriga, são essas mesmas potênciasque agora coordenam a operação do aplainar os cemitérios do paíscaribenho.

Silenciou-se repentinamente o discurso monocórdio docombate irracional e linear ao chamado terrorismo internacional,conceito ainda não bem definido, de Bush a Obama. Tudo agora éhumanitarismo nas lágrimas de crocodilos dos líderes cínicos quandoapenas agora, já tarde, ouvem-se discursos de desdobrada atenção aodrama do Haiti. Atores e músicos famosos fazem o cordão de proteção aohumanitarismo renovado do Norte. Não faltarão festivais em estádios ecordões de solidariedade romântica aos pobres haitianos.

Politiza-sea ajuda internacional, como no caso do clima, dos direitos humanos, eoutros temas da agenda renovada das relações internacionais, quando oque importa é o esforço de salvar vidas. Os chineses foram os primeirosa chegar à ilha caribenha. Inflacionaram o aeroporto combalido dacapital do país e deixaram apenas espaço modesto para aeronaves dosEstados Unidos, da Europa, do Canadá e do Brasil. Os Estados Unidoscorreram atrás dos chineses uma vez que o Caribe é área natural dehegemonia natural e concêntrica dos ianques. Apresentaram-se como osúnicos capazes de salvar os flagelados.

Acompanhar a coberturainternacional, das agências britânicas, francesas e alemãs, na Europadesses dias, é hilário. O Haiti preencheu o noticiário monótono do friopolar e da neve.

É como se no Haiti não houvesse passado, mas apenasterra arrasada, em descoberta tardia das responsabilidadesinternacionais antes não reconhecidas. O silêncio das grandes potênciasem relação aos projetos brasileiros, apresentados anos atrás, deconstrução de infra-estruturas e autonomia energética no Haiti, égritante.

O Brasil - em seu esforço de governo, da sociedadeorganizada e suas ONGs, mas em especial dos sacrifícios pessoais dosmilitares brasileiros, em missão convertida e gerenciada pela ONU noHaiti – vem sendo apenas discretamente reconhecido.

Obama agora queroferecer os famosos 100 milhões de dólares que o Brasil já haviasolicitado para obras de infra-estrutura no país. Aqui, na Europa, nadase sabe acerca da obra de Zilda Arns no Haiti, nem que ministrobrasileiro foi a primeira autoridade internacional a pisar o solotremente da ilha. A lógica é mostrar Obama, Sarkozy e outros líderes doPrimeiro Mundo isolados, a domesticar a opinião pública e os interesseseleitorais. Espero que o Brasil não faça o mesmo.

A coordenaçãodos esforços de construção do Haiti deve ser multinacional, a recordarque o esforço humanitário é apenas uma etapa para o longo prazo, defortalecimento das instituições e da cidadania, ao lado da reconstruçãosocial e econômica do país. Passada a comoção do momento, valeráacompanhar o dia seguinte.

O esquecimento é em geral o que se espera.Pois que se tome uma lição do Haiti para a política internacional: opêndulo está excessivamente angulado no realismo global e nos egoísmosnacionais. Era hora de movê-lo para a dimensão humana das relaçõesinternacionais, que prescinde do humanitarismo, para ser apenas humanaa face desejável dos sonhos de um mundo melhor.