Em2001 o físico inglês Stephen W. Hawking chegou a conclusão de que aviagem no tempo era possível. Antes, considerava tal idéia uma agressãoao senso lógico e, por isso, impossível.

A questão que o atormentavaera o que se convencionou chamar de paradoxo do avô. Se alguémconseguisse viajar ao passado e matar o próprio avô antes que eletivesse filhos, esse viajante não poderia ter nascido e muito menos tervoltado no tempo para matar o avô. Três cientistas do Instituto deTecnologia da Califórnia, liderados pelo físico Kip Thorne, acreditamter resolvido a questão.

Eles transportaram o paradoxo para o jogo debilhar: se uma bola fosse lançada pelo taco numa caçapa que fosse aentrada de uma máquina do tempo e voltasse a mesa segundos antes dajogada, poderia colidir com ela própria e impedir que caísse no buraco.

Depois de se debruçarem durante meses em intrincados cálculosmatemáticos, os físicos concluíram que, ao voltar à mesa, a bolapoderia apenas resvalar em si própria, alterando sua trajetória, masainda assim caindo novamente na caçapa. "A experiência sugere que asleis da física favorecem a construção de uma máquina do tempo",escreveu Kip Thorne.

E quanto ao assassinato do avô? No universo bem organizado dafísica, isso seria um paradoxo e, portanto, não deve ser possível. Comodois imãs que se repelem, neto e avô jamais se encontrariam. A soluçãodo paradoxo do avô não pode nem precisaria ser demonstrada em termospráticos, pois a principal ferramenta da física teórica é o raciocíniológico. Foi assim, apenas observando o mundo, que Albert Einsteindescobriu que o tempo e o espaço não eram como os cientistas até entãopensavam.

A viagem no tempo é estudada com persistência por cientistasdos principais centros de pesquisa. Para eles, embora a invenção de ummecanismo que permita a alguém se deslocar no tempo ainda esbarre emproblemas logísticos de toda ordem, viajar ao passado ou ao futuro é,em teoria, perfeitamente possível. Há dois meses, alguns dessesestudiosos se encontraram para discutir experiências no Instituto deTecnologia de Massachusetts, uma das catedrais da ciência e datecnologia nos Estados Unidos.

O que move esses cientistas não éexatamente a perspectiva de mandar alguém ao passado como se enviamastronautas ao espaço. Suas pesquisas abrem novos horizontes nosestudos sobre o tempo, que podem elucidar questões fundamentais como aorigem do universo ou a composição dos buracos negros do cosmo. "Asviagens no tempo são úteis principalmente como experiências depensamento. São ferramentas para explorar profundamente a relatividadee extrair visões esclarecedoras sobre a natureza do tempo e do espaço",disse a VEJA o físico Francisco Lobo, da Universidade de Lisboa,especialista em relatividade.

A maioria dos cientistas, inclusive Albert Einstein, sempre resistiuà idéia de viagens no tempo. Isso até que, em 1988, o mesmo Kip Thorne,que desvendou o paradoxo do avô, publicou dois estudos concluindo queas leis da física, em teoria, sustentam as viagens no tempo através doschamados buracos de minhoca, túneis que se supõe existirem no cosmo,gerados pelo Big Bang, e que servem como atalho entre pontos distantesdo universo.

Curiosamente, Thorne começou a montar a teoria dos buracosde minhoca como máquinas do tempo com base na ficção científica. Quandoescrevia o romance Contato, o astrônomo Carl Sagan (1934-1996), daUniversidade Cornell, esbarrou num problema: como fazer a heroína EllieArroway, vivida no cinema por Jodie Foster, atravessar distânciasimensuráveis na Via Láctea? Sagan consultou Thorne. A resposta: aheroína deveria atravessar um buraco de minhoca.

Ninguém jamais viu um buraco de minhoca, mas a teoria darelatividade de Einstein dá aos físicos a confiança de que, se um diatoparmos com uma dessas bizarras estruturas, poderemos usá-la comomáquina do tempo.

Antes de Einstein, seguindo as leis de Isaac Newton,os físicos encaravam o tempo como algo absoluto e universal – umsegundo é sempre um segundo, tanto para um motorista parado noengarrafamento quanto para um astronauta viajando a 27.000 quilômetrospor hora no ônibus espacial. Na teoria da relatividade, Einstein rompeucom esse senso comum e demonstrou que o tempo varia conforme avelocidade em que se encontra o observador.

Quanto mais rápido alguémviaja, mais longo fica cada segundo, em comparação a quem ficou parado.Esse seria o fundamento usado na construção de uma máquina do tempo. Emteoria, bastaria encontrar um buraco de minhoca, deixar uma das bocasparada perto da Terra e fazer a outra boca viajar muito rápido, a umavelocidade próxima à da luz, para criar uma defasagem de tempo entre aentrada e a saída do túnel.

Não é exatamente fácil montar uma máquinado tempo. Além da dificuldade de achar buracos de minhoca, nossatecnologia não é capaz de construir uma nave que possa arrastar a bocado túnel cosmo afora – ainda mais a uma velocidade próxima à da luz.Mas isso, para a ciência, é mero detalhe. Como escreveu StephenHawking, "ainda que a viagem no tempo se mostre impossível, éimportante entendermos por que ela é impossível".

Como funcionaria a máquina do tempo

1. Uma nave com um acelerador de partículas lançadasao espaço cria o que os cientistas chamam de buraco de minhoca. Essaestrutura côsmica, remanescente do Big Bang, é um túnel que conectadois pontos do universo muito distantes no tempo e no espaço,estabelecendo um atalho entre eles.

2. A nave reboca uma das extremidades do buraco deminhoca movendo-se a uma velocidade próxima da luz, o que faz com que otempo passe mais lentamente nesse trecho do túnel. O buraco de minhocavira assim uma máquina do tempo. Basta entrar por uma extremidade esair pela outra para viajar ao passado ou ao futuro.

A solução para o paradoxo do avô

As várias teorias sobre viagens no tempo esbarram numa impossibilidadelógica: o que aconteceria se alguém voltasse ao passado e matasse opróprio avô antes que tivesse filhos? Nesse caso, o viajante nãopoderia ter nascido nem voltado no temo para matar o avô. Chama-se issode paradoxo do avô. O cientista americano Kip Thorne, do Instituto deTecnologia da Califórnia, acha que encontrou uma solução lógica para oparadoxo do avô. Segundo ele, os cálculos matemáticos demonstram quealguém que sai do presente e volta para o passado nunca poderia estarem posição de interferir no futuro. Ele jamais encontraria o avô ou, seo encontrasse e o desafiasse para um duelo, errario o tiro. Avô e netoseriam como imãs que se repelem.